Livro do ex-ministro Renato Janine reflete sobre a democracia contemporânea

Indiretamente, A boa política ajuda a pensar sobre questões do mundo educacional

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Livro do ex-ministro Renato Janine reflete sobre a democracia contemporânea O leitor que estiver tomado pela onda de rejeição às discussões sobre política nas escolas ou na educação, sobretudo em função da alegada doutrinação de estudantes, talvez veja com estranheza o fato de A boa política, mais recente livro do ex-ministro e professor de ética e filosofia política Renato Janine Ribeiro, ser objeto desta seção. Pois é justamente em função de esses debates chamarem a atenção pela radicalização e inconsistência intelectual que é importante colocar o tema em foco para reflexão de professores e educadores em geral.

Janine busca pensar a democracia a quente neste contexto em que prevalecem tantas intolerâncias e irracionalidades. Sinais aos quais, em sua busca formativa, a escola deve se opor. E, se não fosse por isso, pelo simples fato de que muitas das questões abordadas no âmbito social têm reflexos diretos ou pontos de equivalência no plano escolar. Por isso, o recorte feito aqui privilegia essas aproximações, ainda que não estejam presentes no livro.

Os exemplos são muitos, mas vale ater-se a uns poucos. Em sua introdução, ao ressaltar a importância da experiência na política, o autor destaca “duas matrizes notáveis de experiência”: a da revolta e a do exercício do poder. São decisivas, no entendimento da política, para a consciência “do que é mandar, do que é obedecer, desobedecer e mesmo se revoltar”. Ações, todas elas, para as quais é possível ter gradações que levem a significativas diferenças nas relações delas decorrentes. E que são objeto central do cotidiano das escolas, como deixam claro as ocupações que vicejam, seja no Brasil a partir de 2015, seja na Argentina de agora. Nessa relação está refletido o jogo de convencimento (ou não), para a adesão a determinado projeto.

A revolta, lembra Janine, “vai do aprimoramento até a destruição”. “Já o poder vai das formas da democracia, também elas bem variadas, até os regimes autoritários, ditatoriais e totalitários.” Ainda que a escola não seja a sociedade, e sim uma instituição formadora para a vida nesta, vale olhar para essas duas variáveis, revolta e poder, para pensar sobre como estabelecer vias de diálogo.

Já no artigo de abertura, ao falar da boa política, Janine diz que liberalismo e socialismo a ela pertencem, alternando-se entre visões de mais competição ou mais cooperação. E defende a coopetição, que seria uma medida intermediária para buscar equilíbrio no jogo social. Mais ou menos como vêm fazendo as políticas públicas quando colocam lado a lado escolas ou municípios, para que ora compitam, ora colaborem, de forma a mais se desenvolverem. As políticas públicas do Ceará são exemplo disso.

Mas o capítulo que traz os pontos essenciais para a reflexão no plano da educação é aquele que fala da perda do referencial comum da sociedade, com o advento dos particularismos. Esse referencial comum, que nos séculos 19 e 20 era representado pela busca de grandes convergências, fossem elas linguísticas, de costumes ou na busca pela aproximação entre diferentes olhares sobre a política e o mundo público (como no caso de liberalismo e socialismo democrático), tinha como grande senão o temor de que tudo passasse a responder a um mesmo padrão, indiferenciando-se.

É a crítica dos filósofos da Escola de Frankfurt e outros, de uma banalização da cultura por meio de sua massificação. Contra isso, na luta pela sobrevivência de olhares mais plurais, criaram-se formas de combate que acabaram por colocar em xeque a própria dinâmica de mundo público: a convergência da pauta social, antes representada pelos grandes meios de comunicação, acabou fragmentada pela internet, por cookies que visam não mais a pauta coletiva, mas a comercial.

Ao mesmo tempo, entram em cena as “histerias identitárias”, que fazem de cada um apenas uma fração de si mesmo, ou seja, que se identifiquem por etnia, opção sexual etc., e não mais como sujeitos inteiros. E como tais, querendo o direito de existir, de ter o olhar do Estado.

Se deslocarmos essa disputa para a educação, veremos claramente muitos de seus aspectos refletidos na definição curricular que nos tem mobilizado nos dois últimos anos. E que ajudará a definir um pouco da sociedade que queremos ser.


A boa política – Ensaios sobre a democracia na era da internet, de Renato Janine Ribeiro (Companhia
das Letras, 304 páginas, R$ 49,90. E-book: R$ 34,90.

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