Livro realça importância do olhar acerca do passado

Dois continentes, quatro gerações conta história de família de poloneses que migrou para o Brasil

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Ilustração que resume o momento-chave de Dois continentes: o pé machucado do bisavô polonês de Louis

Ilustração de ‘Dois continentes’: pé machucado do bisavô polonês de Louis

O acaso muitas vezes tem papel preponderante na vida de pessoas, famílias, ou mesmo na história humana. Uma pequena contingência é capaz de mudar o rumo de uma ou de muitas vidas, como aquele pequeno grão de areia que, caindo num lugar determinado, faz com que um sistema complexo entre em colapso.

Foi mais ou menos o que aconteceu com a família Rozencwajg, que vivia na pequena cidade polonesa de Piaski, nos anos 30 do século passado. Um dia, ao chegar em casa, o patriarca, Srul, esqueceu de frear sua van, que passou sobre seu pé, fazendo um belo estrago. Com duas filhas, Estera e Frajda, e mais um menino Lejzer, Srul e a mulher, Tauba, dependiam do trabalho dele para sobreviver. E ele do pé para mover-se e dirigir.

Numa região fria, numa época de poucos recursos médicos, ele não conseguia se recuperar. O médico recomendou: “vá para um lugar quente”. Como era habitual no século passado, Srul resolveu mudar para bem longe. Rumou para o Brasil, onde morava uma tia, com o objetivo de, primeiro, levantar dinheiro e depois trazer a família.

Esse é o começo da história da família de Louis, o bisneto de Srul, que vive nos Estados Unidos com os pais. Em pleno 2014, Louis precisa fazer um trabalho sobre suas origens. Repelindo a disciplina escolar, mas sentindo-se atraído pela saga familiar, ele acaba convencido – meio à força, é verdade – a visitar a Polônia de seus bisavós e do avô.

Nessa mistura entre história pessoal e coletiva – a da diáspora de milhões de judeus –, de grande história e memória, Dois continentes, quatro gerações, de Beti Rozen e Peter Hays, vai tecendo os fios que começam a dar sentido ao ato de olhar para o passado e extrair significados para o presente.

Assim, a viagem que o pequeno Lejzer – o avô de Louis, então com 12 anos – faz com a mãe e as irmãs para encontrar o pai no Brasil em 1939, imediatamente antes da invasão alemã na Polônia, é contrastada com a viagem do garoto do presente. Lejzer e família enfrentam uma pequena saga, passando por Lublin, Varsóvia, Gdansk, Gdynia, Le Havre, Lisboa e por toda a costa africana, com pouca comida e sempre sob a ameaça de serem identificados como judeus e retidos pelos alemães. Em sua pequena Piaski, eles deixam laços fortes com a comunidade judaica, composta por cinco mil pessoas de um total de sete mil habitantes.

Já Louis viaja num navio de luxo, com jantares pomposos, onde luta para fugir do tédio. Encontra um amigo igualmente enfastiado, com quem, obviamente, procura alguma coisa de proibido para que vivam algumas emoções.

O contraste chama a atenção, sobretudo, para o amadurecimento precoce das crianças vivendo sob o temor da guerra, enquanto o mundo protegido de hoje infantiliza e mima em excesso. No plano da importância da grande história que o livro busca ressaltar por meio da memória, destoa apenas a necessidade de sublinhar uma vez mais, apontar, na linha do “está vendo como isso faz sentido”. A narrativa histórica quando bem articulada entre os planos subjetivo e coletivo já é suficiente para despertar esse sentido. Não precisa do “não disse?”.

Dois continentes, quatro gerações, de Beti Rozen e Peter Hays, ilustrações de Julia Back (Editora do Brasil, 152 págs., R$ 53,10).

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