O reencontro

Em busca da livraria perdida, em que livros e autores aguardam a visita do leitor andante e solitário

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Estou em busca de uma livraria. Não pode ser livraria virtual. Quero uma livraria com cheiro de livro, com pilha de livros, com vendedores de livros que saibam exatamente onde os livros estão.

Procuro uma livraria no mapa da cidade. Quero folhear livros reais, contemplar capas coloridas, ler orelhas cheias de promessas, ouvir pessoas pedindo livros que eu não compraria jamais. Quero sentir o peso dos livros. Há livros leves. Há livros que se movem lentamente nas estantes, procurando esconder-se.

Sei que tem gente livrofóbica. A livrofobia é um terrível mal – porque ainda não está devidamente identificada como doença social, como epidemia sem cura previsível. Há pessoas que fogem do livro, que não suportam a luz que ele emite. Há pessoas que têm medo de suas palavras, das metáforas inusitadas, das ironias indecifráveis, dos personagens que falam por conta própria. Na leitura do livrofóbico, todo livro é um livro de terror.

Procuro no mapa a livraria perdida. Deve estar em alguma esquina maldita, vendendo poetas malditos. Os poetas se refugiaram na livraria. Os filósofos que não são youtubers continuam chamando as pessoas que estão dentro da caverna e fora da livraria. A livraria está repleta de fugitivos ilegais, que atravessaram a fronteira proibida. A livraria é um horizonte perdido.

livraria

A procura incansável pela livraria (foto: Shutterstock)

Mas o que é uma livraria?

Estou procurando uma livraria faz mais de uma semana. Logo no início das buscas, encontrei uma espécie de livraria, mas não era bem uma livraria. Havia muitos objetos eletrônicos lá dentro. E, entre telonas de TV e celulares, identifiquei tintas para impressora e outros acessórios de informática.

Não desisti. Continuei na demanda da santa livraria. Numa grande avenida, descendo por escadas soturnas, deparei com um local que parecia ser uma autêntica livraria. Mas não. Foi engano. Era uma papelaria em lugar da livraria. Cadernos, agendas, canetas, lápis, grampos, clipes, cartões, cartolinas e até um enorme globo terrestre para decorar a mesa de algum estudioso do nosso planeta.

Onde haverá uma livraria nesta terra bendita? Bendita serás tu, livraria, se eu te encontrar sã e salva. Benditos os frutos de tuas entranhas, os livros. Vou fazer uma oração das antigas, uma promessa ingênua a todos os santos da devoção popular. Minha peregrinação só chegará ao fim quando for o fim do mundo.

Neste mundo vasto mundo, deve existir uma livraria, ainda que minúscula, ainda que reduzida a ruínas, ainda que soterrada pelo analfabetismo funcional avassalador que desafia as escolas, os professores, os editores, os tradutores e os heroicos revisores.

Librarium, ubi es? Onde está você, livraria?

Mas o que será mesmo uma livraria, para que eu volte a reconhecê-la no momento exato? Um depósito de ideias? Um grande sertão no meio do qual surgiu a montanha mágica? Haverá talvez livros na livraria?

Farejador de livraria

Já sei! Tive uma ideia brilhante – digna de um leitor viciado em papel salpicado de letras impressas! Vou pegar um dos livros que estão aqui, na minha biblioteca. Vou levá-lo às ruas, e ele em seguida me levará à livraria.

O livro é farejador de outros livros. Saberá me conduzir ao endereço certo. Localizará os seus semelhantes e sua toca misteriosa. O livro tem instinto aguçado. Tem perspicácia incomparável. Conseguirá identificar o odor característico que os outros livros exalam. Chegarei lá a qualquer momento. Basta ser persistente.

Este livro de faro apurado não me deixará na mão. Hei de encontrar a livraria edênica, onde autores de todos os tipos e estilos convivem em relativa paz, disputando em silêncio o olhar de possíveis leitores. O livro é infalível. A livraria não escapará de sua esperteza.

O tempo corre, mas o livro buscante corre mais. Dentro do livro há esperança de novos livros. Livros a serem descobertos. Ou a serem inventados. Como matrioscas de papel, livros saltam do interior de outros livros. Uma livraria sem fim.

Final da história

E no final da longa estrada pedregosa, lá está a livraria. Todas as livrarias são convidativas. Todas têm algo de sagrado.

Vou entrar.

No escuro, os livros são claros. O livro farejador arruma um espaço para descansar entre seus primos e irmãos. A livraria enfim reencontrada. Precisaria consultar muitos dicionários para descrevê-la com precisão.

O que me surpreende, no entanto, é o que passo a relatar. Vejo muitos fantasmas andando por ali. São pacíficos e elegantes. Reconheço alguns. Ali está Saramago, ensaiando novos romances. Mais à frente encontro Clarice, brincando de esconde-esconde consigo mesma. Camões e Dante releem seus versos um para o outro.

Muitos vultos me parecem familiares, mas desconheço quem sejam. Experimento perguntar a uma dessas figuras:

— Quem é você? Em que época viveu?

— Sou um escritor desconhecido. Nasci e morri no século XX, mas continuo vivo aqui.

— Gostaria de saber mais a seu respeito…

Ele não quer conversa, porém. Desaparece subitamente. Eu mesmo começo a achar que sou um leitor fantasma. Um leitor imortal, que resiste ao sumiço das livrarias. Que continuará procurando.

Gabriel Perissé  é professor da PUC-RS, escritor e palestrante  www.perisse.com.br

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