Linhas cruzadas

Mutações da família ao longo do tempo ajudam a construir a ideia atual de filho e de aluno; escola ainda pena para lidar com a diversidade

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Arnaldo (Diogo Vilela) e Rita (Marisa Orth) em cena do seríado Toma lá, dá cá: aproximação do arranjo contemporâneo de família

Arnaldo é casado com Rita, mas já foi casado com Celinha, com quem teve um filho, Adônis. Hoje, Celinha é casada com Mário Jorge, que é ex-marido de Rita, com quem teve dois filhos, Isadora e Tatalo. A configuração da família que integra o seriado Toma lá, dá cá, exibido pela TV Globo, é uma aproximação dos arranjos contemporâneos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve 188 mil divórcios em 2008, contra 103,8 mil em 1998, um aumento de 82,5%, bem maior que os 37,4% registrados no número de casamentos no mesmo período (de 698,6 mil em 1998 para 959,9 mil em 2008). Além disso, há a tendência de os brasileiros se casarem após completar 30 anos: em 1998, foram 100,9 mil homens que se casaram quando tinham entre 30 e 34 anos. Em 2009, esse total foi a 170,8 mil.

Essas são apenas amostras das mudanças registradas no perfil da instituição familiar nas últimas décadas. Aliás, o mais correto talvez fosse falar de séculos, pois a família nuclear, tal como a conhecemos hoje – pai, mãe e filhos – é uma instituição que se estabeleceu no século 20. Até o século 18, a própria ideia de privacidade era muito diferente: um número infinitamente maior de pessoas habitava a mesma casa, como ilustra uma obra do século 19 – O cortiço, de Aloísio de Azevedo, marco da literatura brasileira.


Patriarcado em xeque


Para explicar o processo de mudanças, Myriam Chinalli, psicanalista e coautora da coleção Saber viver, vai um pouco mais longe: retorna ao século 18, antes mesmo que a escola se configurasse nos moldes atuais, o que só ocorreria no século 19, e menciona a perda do poder monárquico como um fator de desestabilização dos poderes patriarcais.  “O rei era representante de Deus e o homem, o representante do rei dentro da família”, explica a psicanalista

Antes do processo de liberalização da mulher e de sua ida ao mercado de trabalho, ocorrida principalmente na segunda metade do século 20, as famílias tradicionais, cuja configuração girava em torno do casamento dos pais, eram clãs. Os pais não se dedicavam apenas aos filhos, mas à família. Havia mais proximidade entre avós, tios, cunhados e noras, que muitas vezes viviam sob o mesmo teto. Todos participavam do cotidiano familiar. O processo de socialização que ela operava na criança decorria dessa convivência mais intensa. Além disso, existia um respeito velado entre os membros. Casava-se cedo e a família tinha um valor até sagrado. No livro Família: modos de usar, Julio Groppa Aquino, professor da Feusp, retoma as razões que sustentavam os laços familiares de antigamente: a linhagem, o matrimônio e a prole, nesta ordem. Hoje, diz, parece que a ordem está invertida. Em relação ao modelo tradicional, a família se desestruturou ou entrou em desuso. O fato é que ela mudou.

Com a diminuição do número de filhos – de 6,3 filhos em média em 1960, para 2,3 em 2000, segundo o IBGE -, o centro da família passa a ser a criança. No livro, Groppa Aquino traz a ideia de que a noção atual de família representa o encontro de duas pessoas que se unem temporariamente e que, no meio do caminho, decidem gerar um filho. Rosely Sayão, também coautora da obra, lembra do título A família em desordem, da historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, que traz um complemento a essa afirmação: apesar das desordens da família no mundo contemporâneo, ela continua sendo o único valor ao qual ninguém renuncia. “Isso talvez indique que foi o casamento que entrou em declínio. Daí que a prole faz, agora, o papel de toda a família”, diz ela.

Um dos indícios de que a família passa por esse processo de individualização é que, dentro das casas, cada quarto conta com uma televisão, um computador, um aparelho de som. Rosely enxerga os quartos como “minicasas”. “Não há necessidade de convivência na sala. Aliás, é sempre uma sala bonita que só é usada quando vem visita, para mostrar, como exige a sociedade da imagem.” Uma das consequências diretas dessa família centrada no filho é a tendência dos pais de preservar ao máximo a criança de sofrimento. Escolas ouvidas pela reportagem, como o XII de Outubro, sentem que não foi dada a elas a experiência do “não”. “São eles que determinam as compras, as viagens e os restaurantes onde vão comer. É uma compensação por trabalhar o dia todo: vou fazer tudo o que meu filho quer”, diz Rosely.

O abandono dos filhos é visto em outra esfera também. A juventude se transformou em um estilo de vida no mundo contemporâneo. A sociedade atual tem medo de envelhecer. Assim, muitas vezes os pais deixam de lado a assimetria na relação com os filhos para tentar se igualar a eles. “Fazer de conta que se é amigo do filho ou se portar como um irmão mais velho nada mais é do que deixá-lo sem pai nem mãe. É abandonar o posto”, coloca. É importante lembrar que na escola as gerações dessas famílias novas já estão presentes sob a forma de professores, por exemplo. “As pessoas não sabem se relacionar mais. Não sabem conflitar, apelam para grosserias e só tentam convencer o outro de seu ponto de vista”, diz Rosely. É por isso que alguns pais chegam já acusando a escola, que é obrigada a se defender (ou vice-versa). Assim, o diálogo fica cada vez mais difícil.


Mais configurações


A revolução sexual que ocorreu a partir da década de 60 trouxe à tona outro tipo de configuração familiar: os casais homossexuais. Já não é incomum pais do mesmo sexo levarem o filho à escola. Ainda há pouca informação sobre esses casais. A partir do próximo ano, por exemplo, poderemos saber quantos são no país, já que o IBGE vai divulgar o Censo 2010, que fez essa contagem. Também entre as escolas há insegurança sobre como lidar com a questão. Waldete Tristão Oliveira, coordenadora pedagógica da Emef Prof. Arlindo Veiga dos Santos, em São Paulo, sente que os pais homossexuais são mais tímidos. “Eles já se encorajam em nos informar que são um casal ou apresentar a companheira que vai retirar a criança na hora da saída, por exemplo”.

Myriam Chinalli considera que ainda há dificuldade de falar sobre isso na escola, já que ela seria um espaço mais conservador. Prova disso são os entraves de comunicação com pais separados. Só em agosto do ano passado o governo aprovou a lei 12.013, que obriga as instituições de ensino a enviar informações escolares a mãe e pai, quando estes não vivem juntos. “É difícil para a escola lidar com essa família nova, fora do padrão. Ela ainda deseja um modelo de família patriarcal”, avalia Myriam. (Beatriz Rey)

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