Lições indígenas

Escola indígena inovadora aporta uma série de elementos que podem ajudar a repensar a dinâmica das escolas urbanas e, mais do que isso, o sentido da escolarização

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Bel Pedrosa
A pesquisadora Aline Abbonizio: a escola é percebida pelo povo Kotiria como um bem comunitário

Para o povo Kotiria, a escola é um bem comunitário e deve conciliar os saberes indígenas tradicionais com os saberes convencionais da educação escolar. Assim, no dia a dia, as decisões – desde a definição da merenda até o que será priorizado na formação dos alunos – passam pelo aval da comunidade: pais, mães, estudantes, ex-alunos e docentes discutem e definem os rumos da escola.

Essa escola inovadora, que funciona no município de São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, aporta uma série de elementos que podem ajudar a repensar a dinâmica das escolas urbanas e, mais do que isso, o sentido da escolarização. É o que propõe Aline Abbonizio em sua tese de doutorado, defendida da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) em 2013.

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Apoiando-se nas reflexões de educadores como José Mário Pires Azanha e de seu orientador, o professor Elie Ghanem, e na literatura sobre autonomia e historicidade indígena, Aline pesquisou a escola Kotiria com o objetivo de descrever e analisar processos escolares que pudessem ser considerados inovadores.

“Entendo inovação educacional como uma ação intencionalmente dirigida, que busca enfrentar uma problemática pedagógica e se origina em um contexto social circunscrito, da escola ou comunidade, e a partir de um forte voluntarismo de educadoras e educadores”, detalha Aline. “Sobretudo, consiste em práticas diferentes das costumeiras em um lugar ou em um grupo social, ainda que não sejam originais ou inéditas.”

O ponto de partida para o interesse numa investigação científica aconteceu quando ela ingressou no doutorado e começou a trabalhar com o professor Elie Ghanem, que se tornou seu orientador.

“Ele pesquisava iniciativas que atrelavam educação não escolar a desenvolvimento local. Eu me identifiquei muito com a temática e fui percebendo que, no âmbito das escolas públicas, eram raras as iniciativas que atrelavam a intervenção direta sobre a economia local ao fazer educacional, sobre as condições de moradia, sobre a alimentação comunitária e a geração de emprego e renda.”

Essa percepção se contrapunha às informações que chegavam a ela sobre escolas indígenas de São Gabriel da Cachoeira, município do Estado do Amazonas, onde 90% da população é indígena e vivem várias etnias. Segundo as informações, as escolas estavam desenvolvendo um trabalho que vinculava as demandas e as necessidades da comunidade aos objetivos escolares – ou seja, a definição de temas de estudo, de rotinas e de práticas.

Vivenciando a escola
Para estudar a escola dos Kotiria, Aline realizou uma pesquisa etnográfica. Em 2011, morou durante três meses com as 33 famílias da comunidade em São Gabriel. Na época, a escola contava com cerca de 110 estudantes no ensino fundamental e 17 no ensino médio. No ano seguinte, a pesquisadora retornou duas vezes ao município, totalizando quatro meses de coleta de informações.

Além de observar e levantar dados por meio de entrevistas, nos períodos em que conviveu com os indígenas, participou de atividades cotidianas e colaborou com atividades organizadas e demandas da escola – por exemplo, prestando assessoria pedagógica para revisar o projeto político-pedagógico –, o que também lhe rendeu subsídios para a tese.

Segundo Aline, São Gabriel da Cachoeira se destaca no cenário da educação indígena, pois possui a maior rede de escolas indígenas do Estado do Amazonas e em função de um tipo de experimentação pedagógica, alternativa à escolarização tradicional das pessoas indígenas no Brasil: desde o período colonial, a educação indígena se caracterizou pela tentativa de integrar essas populações à sociedade brasileira.

“Isto significou a introdução de práticas educacionais orientadas ao desrespeito pelos conhecimentos, línguas, organizações sociais e políticas tradicionais daqueles povos. Ao mesmo tempo, esta escola, imposta e alheia à cultura indígena, passa a ser interpretada como uma espécie de ponte entre o mundo indígena e o mundo não indígena”, analisa a pesquisadora Aline.

Em contraposição a essa tendência, as escolas de São Gabriel da Cachoeira se caracterizam por desenvolver um trabalho que vincula as demandas e necessidades da comunidade com os objetivos escolares – ou seja, a definição de temas de estudo, de rotinas e de práticas.

Essas características remeteram Aline a um antigo campo de interesse e reflexões relacionado à percepção de que existe uma desconexão entre escolarização e sua intervenção sobre as condições de vida das pessoas envolvidas nesse processo, a partir de uma pesquisa sobre um programa de educação popular da secretaria municipal da Educação de São Paulo que ela realizou.

Na pesquisa sobre a escola Kotiria, Aline concluiu que se trata de uma escola que procura acomodar tanto o saber que é útil para a vida da comunidade no presente, quanto aqueles que a comunidade considera que são necessários para o bem-estar das futuras gerações.

Nesse sentido, o saber tradicional é usado, por exemplo, quando está em questão a produção de alimentos para a merenda escolar e para a comunidade, os quais são produzidos com técnicas indígenas tradicionais. O saber convencional, em contrapartida, entra em cena para agregar conhecimentos e experiências necessárias à manutenção da própria comunidade indígena.

Além do trânsito entre saberes, o que também parece fundamental a Aline é a compreensão que os Kotiria têm da escola como um bem comunitário, fortalecendo o alinhamento entre escola e comunidade. “As decisões sobre os principais temas, como merenda, comportamento de professores, estudantes e temática das aulas, entre outros, são tratados pelas mães, pais, avós, estudantes, ex-alunos e docentes”, conta.

Segundo ela, esta perspectiva se destaca e se torna particularmente interessante para pensar a escola de maneira geral é o fato de que a escola Kotiria é uma escola pública e municipal – o que abre campo para se pensar outro modo de conceber e organizar um sistema de ensino, ilustrado pela experiência de São Gabriel da Cachoeira. Desde 1999, o sistema municipal de educação do município criou subsistemas indígenas, permitindo que cada povo organizasse sua escola e criasse seus próprios projetos educacionais. “Ou seja, o sistema educacional prevê e comporta projetos experimentais.”

Nesse sentido, defende a pesquisadora, a manutenção da diversidade dentro de um sistema pode ser mais interessante do que a implementação, em larga escala, de uma experimentação educacional considerada exitosa em um contexto específico. A escola Kotiria aponta para isso e, na visão de Aline remete a uma discussão que pode ser transposta para a escola convencional.

“O mais importante é o sentido que as comunidades indígenas vêm dando à escolarização. No nosso modelo convencional, a escola se ocupa preponderantemente com a transmissão de saberes que são considerados universais e que pretensamente serão aproveitados na vida futura dos estudantes.”

Para ela, esta visão mantém a escola distante de aspectos peculiares do grupo social do qual advêm os estudantes e alheia às condições da vida presente das pessoas atingidas por suas ações. “Já as experiências recentes de educação escolar indígena estão indicando outros caminhos, como a produção de conhecimento necessário aos estudantes e outras pessoas implicadas no processo educacional e a intervenção direta para a melhoria das condições de vida dos estudantes e de suas comunidades”, conclui.

Para ler a pesquisa
> Educação escolar indígena como inovação educacional: a escola e as aspirações de futuro das comunidades: http://bit.ly/1tz69Oz

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