Lições do cofrinho

Escolas formam cidadãos mais conscientes e preparados ao ensinar alunos a gastar, poupar e investir o seu próprio dinheiro.

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Não só a família, mas as escolas também preparam crianças e jovens para lidar com o dinheiro. Aos poucos, algumas instituições descobrem na educação financeira uma ferramenta para formar cidadãos mais conscientes e preparados para construir um patrimônio no futuro. E não está se falando aqui de um aprendizado enfadonho, com aulas expositivas sobre juros e poupança. Dentro ou fora da sala, a proposta é ensinar a partir de brincadeiras e situações do cotidiano, como idas ao supermercado e ao parque, por exemplo. Tudo para tornar o tema atrativo e leve. Um ensinamento que pode começar na educação infantil e seguir até o ensino médio, quando os alunos já estão prontos para entender conceitos mais sofisticados, como o funcionamento do mercado de ações.



Valores em pauta


“O segredo é fazer do dinheiro um assunto que pode ser trabalhado em diferentes disciplinas”, diz Gustavo Cerbasi, consultor financeiro e autor de livros como Filhos Inteligentes Enriquecem Sozinhos (Gente, 176 págs., R$ 30). “Por que não discutir a conta de energia elétrica na de biologia?”, sugere.


A especialista em educação financeira Cássia D’Aquino Filocre concorda com a necessidade de levantar questionamentos do tipo na escola. Em suas consultorias, Cássia orienta os colégios a trabalhar o tema a partir de quatro pontos: ensinar a ganhar dinheiro, a gastar, a poupar e a doar. Esse processo pode começar a ser desenvolvido com crianças a partir de dois anos de idade. “É nessa faixa etária que elas pedem para os pais comprarem alguma coisa pela primeira vez”, explica. Como tudo isso pode ser feito na prática? Jogos e dinâmicas funcionam muito bem com os pequenos. “O caderno de ofertas do supermercado pode ser ponto de partida para discutir o consumo de bens por necessidade e por vontade”, afirma.


Para os mais velhos, com idades acima de 14 anos, Cássia recomenda a tática da “formação de atitude a partir de exemplos”. É quando são contadas histórias reais de pessoas que despertam admiração nos jovens”, diz a especialista.


Na unidade do Colégio Visconde de Porto Seguro em Valinhos, São Paulo, atitude também é um conceito usado na hora de ensinar a lidar com dinheiro. Lá, a educação financeira é discutida nas turmas da 3a série toda sexta-feira, numa disciplina diferente a cada semana. Na aula de história, o professor pode falar sobre os primórdios do uso do dinheiro e estimular a realização de enquetes sobre se uma conta bancária recheada traz felicidade, entre outros questionamentos. “O objetivo é formar cidadãos críticos, capazes de refletir a respeito do assunto”, ressalta Ana Fátima Carvalho Trivelato, coordenadora da 3a série da unidade de Valinhos.


Outra atividade criada para esquentar o debate foi a chamada Feira da Troca, realizada em novembro de 2006. Na ocasião, cada aluno tinha de levar algum objeto que não usasse mais para trocar. A proposta era fazer escambo, numa operação que não envolveu uma cédula sequer. “Foi uma lição de como bens aparentemente sem uso podem ser valiosos, sem falar que as crianças se divertiram muito”, lembra Ana Fátima. As atividades de educação financeira de Valinhos repercutiram tanto que, em 2007, serão adotadas em todas as outras quatro filiais do Visconde de Porto Seguro.


Ações como a Feira da Troca mobilizam as turmas e têm efeito duradouro, levando os alunos a pensar a respeito do tema. Em outras instituições, como a Escola Pacaembu, na capital paulista, são realizados “eventos” similares, como a montagem de um supermercado de brincadeira para fazer compras. Os clientes são crianças com idades entre 3 e 6 anos. Os “produtos” são na verdade caixas vazias e as cédulas utilizadas são réplicas das originais. Assim, brincando, os aprendizes de consumidores se deparam com práticas como a pesquisa de preços e o controle do orçamento. “Dá para ver a personalidade de cada um numa dinâmica como essa. Quem gasta tudo de uma vez e quem se planeja e sabe poupar”, diz Vera Lúcia Bonafé, diretora da Pacaembu.

Os estudantes mais velhos, entre os 7 e os 10 anos, aprendem com “lojas” de equipamentos de informática ou papelarias, sempre com o objetivo de formar consumidores mais críticos e conscientes. Na Escola Pueri Domus, em São Paulo, um carrinho de doces é usado para esse tipo de ação com meninos e meninas em torno dos 5 anos. Nesse caso, as guloseimas são de verdade, encomendadas aos pais especialmente para esse fim. Cada criança recebe R$ 10 em cédulas fictícias para gastar no carrinho em uma semana. “Os próprios alunos montam o carrinho e estabelecem os preços. Aproveitamos para fazer uma reflexão sobre o uso do dinheiro de forma ponderada”, afirma Regina Borella, coordenadora de educação infantil e fundamental do Pueri Domus.



Bônus da discussão


O trabalho não termina no colégio. Para incentivar ainda mais os pequenos, são propostas pesquisas de campo em supermercados, na companhia dos pais. “Pedimos que eles observem os códigos de barras, preços e data de validade dos produtos. As descobertas são compartilhadas em sala, com os colegas”, afirma Regina.


Com os alunos mais velhos, que certamente não se empolgariam tanto com lojas de brincadeira, a principal estratégia adotada é estimular o debate de temas ligados ao uso do dinheiro. Vale tudo, até colocar situações como o que os estudantes fariam se encontrassem uma mala de dinheiro sem o nome do dono da rua. O importante é provocar. “Esses dilemas são a base para trabalhar a educação financeira nas turmas de 5a a 8a série”, explica Vera, da Pacaembu.


Juntar a teoria e a prática para chamar a atenção dos adolescentes também é uma preocupação do Colégio Apogeu, de Juiz de Fora, Minas Gerais. Lá, jovens de 5a a 8a série cursam uma disciplina chamada princípios econômicos, na qual aprendem conceitos como juros, rendimentos, poupança e aposentadoria. As lições de como gerenciar bem as finanças são utilizadas na hora de arrecadar recursos para uma gincana anual: a Olimpíada Apogeu. “Parte do concurso consiste na organização de uma festa beneficente, com capital levantado pelos alunos”, afirma Makerley Silva, diretor do colégio.


Respeitadas as diferenças pedagógicas de idade, há um ponto em comum na educação financeira em todas as faixas etárias, que é orientar em relação ao uso da mesada. “Não julgamos o valor que cada um recebe, mas explicamos que é importante saber como usar o dinheiro”, diz Vera.


No Visconde de Porto Seguro, os alunos da 3a série aprendem a organizar a mesada em quatro partes, sendo uma para gastar, uma para poupar, uma para doar e a outra para emergências. Em ambas, o uso do cofrinho é estimulado como primeiro passo para aprender a guardar dinheiro. Na opinião de Gustavo Cerbasi, as escolas agem corretamente ao abordar o tema sem opinar a respeito de cifras – não existe uma fórmula pronta para determinar quanto cada criança deve receber.


Para chegar a um valor, os pais precisam conversar com seus filhos e identificar seus principais gastos, como o lanche na escola, entre outros. “Mesada não é presente, mas transferência de responsabilidades”, reforça Cerbasi.


Outro traço em comum nos estabelecimentos de ensino que abrem espaço para a educação financeira é a preocupação em formar adultos que consigam estabelecer uma relação saudável com o dinheiro. Não se trata de estimular a avareza, mas mostrar que, bem gerenciadas, as finanças de cada um rendem mais. E proporcionam prazeres como a compra do brinquedo, tênis ou CD desejado sem ter de pedir verbas extras aos pais. A questão principal é informar e dar opções para que os alunos decidam por conta própria.




MERCADO FINANCEIRO



Alunos da rede estadual de ensino em atividades do projeto “Bovespa na Escola”

Alunos do ensino médio simulam compra e venda de ações em projeto da Bolsa de Valores de São Paulo.


Apresentar novas possibilidades. Este é o principal foco das atividades educativas da Bolsa de Valores de São Paulo. Hoje, qualquer escola que queira explicar aos seus alunos como é possível ganhar dinheiro investindo em ações pode solicitar um curso sobre mercado de capitais à instituição. O agendamento é feito pela internet (

www.bovespa.com.br



)

ou por telefone – (11) 3233-2384 – e o serviço não é cobrado.


Se o colégio estiver fora da capital paulista, os custos de deslocamento e hospedagem do professor são divididos com a Bovespa. Além dos treinamentos, a bolsa promove alguns concursos voltados para estudantes. O “Bovespa na Escola”, voltado para colégios da rede estadual de ensino, é um deles. Criada em 2003, a competição seleciona os melhores trabalhos em três categorias (história em quadrinhos, site e reportagem), com um tema ligado à compra e venda de ações. O material para a produção dos projetos é fornecido pela Bovespa.


Vencedora na categoria site na edição de 2005 do prêmio, a Escola Estadual Antonio Caputo, de São Bernardo do Campo, colhe até hoje os frutos de ter participado da disputa. “Conceitos aparentemente distantes passaram a fazer parte do cotidiano dos alunos e eles entenderam como funcionam os próprios gastos da escola”, diz Maria Heloísa Gonçalves, diretora do Antonio Caputo.


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