Lições de Nova Iguaçu

Estigmatizada pela violência, Baixada Fluminense se mobiliza e reforça a auto-estima para abrigar o Fórum Mundial de Educação

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Karla Hansen

Para quem chegava pela primeira vez a Nova Iguaçu (RJ), cidade-sede do Fórum Mundial de Educação (FME) de 2006, mais do que a busca de informações sobre o evento, era a própria cidade que se apresentava ao visitante como esfinge a ser decifrada. Distante hora e meia do Rio de Janeiro, quente, sem encantos aparentes, as ruas apertadas por um trânsito engarrafado tal grande metrópole e, ainda, com fama de apresentar dramáticos problemas sociais. Por que Nova Iguaçu, se os Fóruns anteriores aconteceram em capitais como Porto Alegre e São Paulo, cidades globalizadas e, por isso mesmo, com maior capacidade de aglutinar pessoas, tudo a ver com o espírito do Fórum?

 

É fato que o atual governo municipal tem acenado na direção de mudanças, com investimentos na área de educação e saúde, além de, recentemente, ter atraído pessoas de outras cidades e estados em eventos de envergadura para a Baixada Fluminense, como a Bienal do Livro Infanto-Juvenil, no ano passado. Talvez fosse por esse motivo a escolha de Nova Iguaçu para sediar um evento da natureza do FME, que tem como bandeira “uma outra educação possível, para um outro mundo possível”.



No entanto, o educador Moacir Gadotti, presidente do Instituto Paulo Freire e membro do Conselho Internacional do FME, garante que a escolha não se deu em virtude dos novos ventos de esquerda que sopram por lá. O que falou mais alto foi o sentimento provocado por uma das cenas mais brutais já vistas na Baixada Fluminense. Há um ano, num mesmo dia, 29 jovens pobres e inocentes foram covardemente assassinados nas cidades de Nova Iguaçu e Queimados.



“No final de março do ano passado, soubemos da chacina que houve aqui. Isso comoveu todos os membros do conselho e nos perguntávamos: não é possível que a gente faça reuniões aqui, na Europa. E esses lugares? Nós temos que mostrar outras coisas. Devem existir outras coisas, além de chacina, em Nova Iguaçu”, conta Gadotti, acrescentando que já havia uma intenção do Conselho de fazer um encontro fora dos grandes centros.



A cidade, com seus problemas e com sua vontade de mostrar ao mundo que não é só o estigma que lhe imputaram, foi a grande novidade apresentada pelo FME de 2006.




Auto-estima na periferia –

Maior cidade da Baixada Fluminense, Nova Iguaçu se esmerou na recepção dos esperados 20 mil participantes, que chegaram a 30 mil, a maioria do Rio de Janeiro e dos municípios vizinhos. As escolas foram pintadas, algumas ruas tiveram seus buracos tapados e outras ganharam asfalto novo, o motivo dos engarrafamentos. O empenho em mostrar aspectos positivos da Baixada aos visitantes deu o tom do encontro. Estava por toda parte, nos diversos
banners

, faixas e placas espalhadas pelas ruas do Centro, em todas as palestras, em quase todos os discursos, nas apresentações artísticas, num simples pedido de informação a um morador. A “ordem” era: deixe de lado o preconceito, veja com outros olhos, abra-se para o diferente e reconheça nele suas qualidades e seus valores. “Que quem vem de fora acolha a cidade, acolha a Baixada”, foi o apelo do prefeito Lindberg Farias no primeiro dia do evento.



Um dos destaques da programação do Fórum foi a exposição de fotografias
Imagem Fluminense – Baixada em alta

, o que mais explicitamente traduziu a disposição de ressaltar os aspectos positivos da região. A mostra de 50 fotografias da natureza e da população locais foi o resultado do trabalho de oito fotógrafos da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira no Brasil (Acie), que receberam do comitê organizador do Fórum um convite para registrar só o que fosse favorável ao lugar e à população.



Para Peter Feibert, diretor de fotografia da Acie e curador da mostra, o maior desafio foi “eliminar o preconceito para poder enxergar algo novo, para além das favelas, das línguas negras e da violência”. Feibert conta que várias coisas surpreenderam os fotógrafos durante o registro das imagens. “Primeiro, que fomos muito bem acolhidos, em todas as partes, por todo tipo de gente. Segundo, porque a Baixada, nos seus 13 municípios, tem uma gama de assuntos enorme, é uma região rica em cores e em vida. E, em terceiro, esse estigma que a Baixada tem não é merecido, nem justo.”




Educação cidadã –

A adesão maciça da comunidade local foi determinante para o sucesso deste Fórum e serviu de exemplo vivo para ilustrar a segunda edição do tema “Educação cidadã para uma cidade educadora”. Salete Valesan, do Instituto Paulo Freire e à frente do Comitê Organizador, explica que o objetivo desse encontro temático é mostrar que “a educação não se restringe ao espaço da escola e que ela é uma responsabilidade de Estado, de governo e, também, da sociedade”. 



Aliás, essa foi a tônica. Nos quatro dias de realização do Fórum, se afirmaram idéias e experiências educacionais baseadas na parceria entre a sociedade – entidades civis, públicas e privadas – e o Estado, como alternativa para superar os problemas crônicos da educação pública no Brasil e nos demais países, sobretudo, da América Latina e Caribe, que participaram majoritariamente do FME. Mas, para os especialistas, essa parceria só é possível com uma sociedade civil forte, capaz de exigir e defender seus direitos e com um governo capaz de apresentar políticas públicas voltadas para os cidadãos.



“A cidade educadora é uma conquista dos cidadãos, mas também, dos governantes que devem tornar a cidade, intencionalmente, educadora”, define Gadotti, citando como exemplo uma articulação bem-sucedida entre a sociedade civil organizada e um governo comprometido com os direitos dos cidadãos, o
Bairro-Escola

, projeto implantado pela prefeitura de Nova Iguaçu, no ano passado. Para Gadotti, o projeto está plenamente de acordo com o conceito de “Educação cidadã, para uma cidade educadora”.



O prefeito Lindberg Farias não esconde os problemas e reconhece que eles são muitos. “Metade da cidade tem esgoto a céu aberto. Ainda existem muitas crianças nas ruas e só 3% delas têm acesso a computador. Faltam condições mínimas de dignidade para a maioria das pessoas.” Por isso, ele aposta tudo no projeto
Bairro-Escola

, no qual crianças e jovens de 5 a 18 anos têm atividades educativas em horário integral, utilizando parte do horário em espaços públicos e privados da cidade, através de convênios da prefeitura com entidades locais, como ONGs, clubes e associações.



A experiência-piloto é realizada no bairro de Tinguá e atende a 505 crianças e jovens, de 5 a 18 anos. O objetivo é fazer que os estudantes tenham atividades orientadas durante o período integral, em que também fazem quatro refeições diárias. Diferente de outras escolas que adotam o horário integral, o projeto trabalha com meio período na escola e meio período fora, em diversos espaços do próprio bairro, oferecendo atividades de reforço escolar, teatro, informática, esporte e lazer para os alunos das escolas municipais.



Assumidamente, é o carro-chefe da administração municipal. A meta é fazer de Nova Iguaçu uma “cidade-escola”, estendendo o projeto a mais seis bairros, que juntos reúnem 15 escolas e atendem 25% dos 70 mil alunos da rede municipal de ensino. Para Lindberg Farias o objetivo é “criar uma rede educacional capaz de atender à população com educação de qualidade, acesso a programação cultural, bibliotecas, inclusão digital, esportes, capacitação profissional e saúde”, reconhecendo que o projeto é ambicioso.



Mas ambição não chega a ser um pecado quando se trata do FME. Ao contrário: o Fórum é um tubo de ensaio para propostas e para idéias alternativas e, também, para divulgação de experiências bem-sucedidas que apontam na direção de mudanças concretas e objetivas do sistema educacional. Afinal, é a partir dessas experiências reais que se alimenta o ideal de uma outra educação possível, para um outro mundo possível.



“Esse foi um Fórum extraordinariamente bem organizado em matéria de infra-estrutura, de recursos. Realmente, há um preconceito de que cidades pobres não podem organizar grandes eventos. O Fórum de Nova Iguaçu não deixou nada, absolutamente nada, a desejar a outros feitos em cidades muito mais ricas”, avaliou Pablo Gentilli, membro do Conselho Internacional do FME.



Salete Valesan, do Comitê Organizador do FME, também destaca o potencial de mobilização da comunidade e os fatores positivos trazidos para a cidade. “O Fórum propicia reflexão, ajuda e aumento da auto-estima da comunidade que vive naquele local. Ela começa a se sentir compromissada com os processos mundiais, a se sentir integrante desse mundo que discute academicamente as coisas, ou desse mundo que está dentro dos governos e é responsável pelas políticas. E a partir do momento que você organiza um encontro como esse, não tem como não mobilizar a cidade toda”.



Muitos foram os que classificaram o Fórum Mundial de Educação de Nova Iguaçu como um marco histórico, “virada de página”, tanto para a cidade e para toda a Baixada Fluminense,quanto para a própria história do evento. Se de fato será, só a história dirá. Mas não há dúvidas de que foi um grande feito ter atraído a atenção mundial para a região, historicamente estigmatizada pelos altos índices de violência e por suas mazelas sociais.



Para os que participaram do encontro, não houve como não reconhecer o esforço de toda a comunidade para crescer, para superar seus problemas e, enfim, para se livrar do estigma. E desse reconhecimento que vem de fora e do auto-reconhecimento da comunidade local se fez a principal lição do Fórum: a de que uma outra educação possível para um outro mundo possível pode estar sendo construída hoje e cotidianamente, em pequenas experiências, em lugares tão esquecidos quanto foi Nova Iguaçu.




Fala, Fórum

“Precisamos nos encontrar para dizer: ‘estamos aqui’. O Fórum é um espaço de aprendizagem, de reencantamento pela causa da educação para um outro mundo possível.”

Maocir Gadotti, Instituto PauloFreire



“O FME é um espaço de mobilização. Não é somente um evento, ele tem uma dinâmica permanente que se expressa em políticas públicas nacionais e regionais.”

Ramon Moncada, representante da Colômbia no Conselho Internacional do FME



“Não há um caminho que não passe por políticas públicas, especialmente voltadas para as crianças e os jovens”.

Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu



“Ainda há 140 milhões de meninos e meninas que não têm a oportunidade de estar na escola. A presença de todos é uma mensagem clara para dizer que a educação é um direito humano.”

Vernon Munhoz, relator da Organização das Nações Unidas



“Não basta dar conta só da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Temos que fechar a torneira. Continuamos produzindo analfabetos. É preciso articular uma agenda da alfabetização que garanta acesso, permanência e qualidade.”

Ricardo Henriques, secretário de Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação



“Ninguém está satisfeito com os recursos da educação. Estamos sempre querendo mais. Precisamos de professores que querem outra coisa.”

Thimoty Ireland, diretor de educação de Jovens e Adultos do MEC



“Fala-se abundantemente, em toda parte, sobre ética e cidadania. É uma maneira de lembrar que ainda temos direito a esperar que a vida em comum nos ajude a dar sentido a nossas vidas privadas.”

Lilian do Valle, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro



“A mídia da América Latina tem um discurso ‘doidão’. Quando assisto a notícias sobre educação, as escolas são violentas, os professores não sabem nada, não ensinam bem, nada funciona. Ao mesmo tempo, dizem que a escola é a esperança, é o futuro. Que esperança é essa? É uma esperança simplista, das histórias de professores que salvam alunos de uma comunidade pobre, à la Hollywood. Essa esperança não serve para nós, ela gera desespero e exclusão.”

Gustavo Fishman, argentino, professor da Universidade do Arizona (EUA)



“Vivemos num mundo em que as leis do mercado regem todos os aspectos da vida social. As decisões políticas, sociais, econômicas. Essas decisões nascidas da lógica do mercado atacam sempre o bem comum e os valores que não são mercantilistas. Num mundo neoliberal, os problemas humanos são privados.”

Hugo Rodrigues, educador uruguaio, presidente da Associação de Educadores da América Latina e do Caribe



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