Lições de causa

Não se pode esquecer jamais a força das convicções para cair no conformismo e supor que as coisas são do único modo como podem ser

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Mario Sergio Cortella*




Está lá no Grande Sertão: Veredas, e Guimarães não nos abandona: “A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação -porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. Vida, mutirão de todos! Educação é também assim, mutirão.

Bela palavra essa; significa a reunião de gentes variadas para trabalhar solidária e graciosamente, ajudando a quem precisa terminar uma obra. Mutirão, obra de muitas mãos, é vocábulo que nasce do tupi exatamente assim: potyrom (por as mãos juntas).

Mãos juntas! Piegas? Jamais. Seria piegas se fosse uma vontade fútil ou vã esperança. Perigo grande esse de apontar pieguismo naquilo que precisa ser a razão de vida para os que na lida educativa estamos; o perigo está em afundar-se no conformismo e supor que as coisas são do único modo como podem ser.

Cautela! Há uma exaltação contínua da ética do “possível” que, antes de tudo, entorpece o vigor do desejo de um futuro diferente e coletivamente melhor. Basta ver que, no nosso idioma, é muito comum que alguém, quando recebe um pedido, responda: “Farei o possível”. Ora, isso é desanimador; fazer o possível é fazer o óbvio, pois, o impossível não pode mesmo ser feito, dado que, assim não fosse, impossível não o seria.

Já imaginou, estou diante de um médico que acaba de proferir um diagnóstico complicado sobre a minha saúde, eu pergunto se há saída, e ele responde: farei o possível… Ou, de outro modo, o pai de uma criança nos pergunta na escola se podemos apoiar mais a filha com distúrbios de aprendizagem e, súbito, falamos: faremos o possível…

Nessa hora, é melhor recorrer ao espírito mais combativo presente na resposta usada amiúde em inglês: I will do my best! Farei o meu melhor! Há evidente diferença de impacto entre as duas expressões: “fazer o possível” tangencia a submissão às circunstâncias, enquanto que “fazer o melhor” sugere uma dedicação mais enfática e, claro, menos resignada.

Em educação não dá para ficar resvalando pelo possível; seja nas políticas públicas, seja nas ações privadas como docentes, o melhor deve ser a nossa causa. Essa é, de fato, uma lição de causa. Qual melhor? O melhor possível, mas, sempre o melhor. Como “melhor possível” se não temos ainda as condições materiais, pedagógicas e profissionais? É exatamente assim: se não as temos (ainda), enquanto isso o melhor precisa ser inventado em mutirão.

É necessário lembrar: o melhor, tal como a excelência, não é um lugar ao qual se chega; é um horizonte. Se supusermos ter chegado ao melhor, estamos apenas dentro do possível, dado que o melhor está sempre além e, desse modo, urge buscá-lo, para não deixar a vida oca, sem causa. Há 100 anos nascia o escritor espanhol Leon Daudi (1905/1985); dele é a frase séria: “O curioso é que a vida, quanto mais vazia, mais pesa”.



*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.


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