Lições da natureza

Exposição sobre Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução das Espécies, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo, é oportunidade para refletir sobre várias áreas do conhecimento

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"Eu penso". Esse foi o título com que Charles Darwin arrematou o desenho da sua árvore genealógica da vida: as espécies mais antigas na base e seus descendentes em ramos, ao longo do tronco, mostrando que todas as plantas e animais têm um ancestral comum. A ilustração, rabiscada pelo naturalista britânico num caderno de anotações, em 1837, esboça os primeiros traços da Teoria da Evolução das Espécies – que ele elaborará por completo em 1842, criando um marco na história das ciências.

Pensar é, também, o divertido desafio para o qual os visitantes são convidados, ao percorrer a exposição Darwin – descubra o homem e a teoria revolucionária que mudou o mundo, aberta até 15 de julho, no Museu de Arte de São Paulo (Masp). A mostra, trazida ao Brasil pelo Instituto Sangari, foi montada pelo Museu Americano de História Natural de Nova York. Entre as cerca de 400 peças organizadas sob a curadoria do paleontologista Niles Eldredge, educadores e estudantes embarcam em uma viagem pelo tempo e fazem explorações por diversas áreas do conhecimento.

Além de animais vivos, fósseis e esqueletos de diversas espécies, a exposição traz uma página do manuscrito "A Origem das Espécies" (publicado em 1959), fotos, vídeos e jogos de computação interativos com base na concepção de seleção natural. Veja, a seguir, como tirar o melhor proveito, em sala de aula, de uma visita à exposição onde se exercita a atividade predileta de Darwin: observar e pensar sobre as coisas que se vê.


Observação apurada

Conhecer a personalidade investigativa do menino colecionador de besouros, sua trajetória acadêmica desviando-se do curso de medicina e da carreira religiosa, ou seus avós "lunáticos" – nome do grupo de cientistas que se reunia nas noites de lua cheia – é a melhor forma de compreender como foi a educação de Darwin. É importante mostrar aos alunos que, mesmo sem recursos sofisticados, munido de ferramentas básicas como uma lupa e um microscópio, quando sequer existia eletricidade, o naturalista fez conquistas que até hoje trazem benefícios à pesquisa científica. Seu poder maior estava na observação cuidadosa e inteligente.


História da ciência

A mostra conta como era o mundo antes de Darwin. Achava-se que o planeta era fixo e imutável. As espécies seriam criações naturais e desconectadas, apesar das semelhanças visíveis – como comprovam os esqueletos de animais tão diferentes quanto um camaleão, uma cobra e uma paca, expostos lado a lado na primeira sala da exposição. "É fundamental estudar a história da Ciência para entender a evolução do pensamento e as bases da biologia contemporânea", alerta João Schmiegelow, coordenador do Departamento de Biologia da Universidade Santa Cecília e autor do livro O Planeta Azul (Editora Interciência). Dentro dessa perspectiva histórica, os visitantes podem ver os primeiros escritos com idéias evolucionistas, de pensadores como Jean-Baptiste Lamarck e Erasmus Darwin, avô de Darwin.


Disciplinas integradas

Formado em geologia, Darwin contribuiu com o avanço de várias ciências. A exposição possibilita abordar, entre outras disciplinas, conceitos de química, botânica, paleontologia, cartografia. Nas seções dedicadas à viagem do navio inglês HMS Beagle, que fez explorações na costa da América do Sul, foram reproduzidas a flora e a fauna locais. Há ainda anotações de Darwin sobre suas descobertas, por exemplo, na área de oceanografia, quando analisou a formação de recifes. Mas, principalmente, essa é a parte da exposição na qual se acompanha o surgimento das primeiras idéias sobre a Teoria da Evolução. Ao comparar animais do continente com animais das ilhas, como as Galápagos, e também comparando animais entre ilhas distintas, Darwin começa a estabelecer a relação entre as espécies e a dar corpo a sua hipótese de descendência com modificação, a partir de um ancestral comum.


Cenário brasileiro

A passagem do Beagle pelo Brasil rende um bom gancho para as florestas tropicais, com as quais Darwin teve o primeiro contato nessa expedição. "Nunca tinha experimentado um encanto tão intenso", escreveu ele, ao passar por Salvador (BA), em fevereiro de 1832. No estudo da fauna, destaque para as iguanas verdes, que encantaram o naturalista. A exposição exibe exemplares vivos dessa espécie, cedidos pelo criadouro conservacionista Pro Répteis. E também outros animais silvestres brasileiros, como cobras e sapos cedidos pelo Instituto Butantan. Mas as andanças de Darwin pelo Brasil oitocentista abrem ainda uma brecha para a disciplina de história. O pesquisador fez questão de registrar em seus
escritos o repúdio ao regime escravocrata vigente no país.


Geografia humana

Foi a leitura de um texto do economista Thomas Malthus, "Ensaio sobre a População" (1798), que conduziu Darwin à idéia da seleção natural das espécies. Ele aplicou à natureza o prognóstico feito por Malthus de que a população humana excederia o suprimento de alimentos. E concluiu: na competição pela sobrevivência, "indivíduos [plantas ou animais] com características úteis [tolerância à seca, pelagem mais espessa, por exemplo] sobreviveriam para reproduzir e passar adiante essas características". Crescimento demográfico, migrações, características de populações rurais e urbanas, ocupação do solo, políticas agrárias são temas que podem ser discutidos a partir da perspectiva de competição pela sobrevivência.


Polêmica atual

As teorias darwinianas – que só foram publicadas em 1859, quando outro cientista, Alfred Russel Wallace, divulgou as mesmas idéias que Darwin tivera vinte anos antes – geraram polêmica na comunidade científica e na sociedade. Uma das reações mais marcantes foi o criacionismo, teoria segundo a qual as espécies são resultado da ação de um Criador. Na época, o ensino da evolução das espécies chegou a ser proibido em escolas dos Estados Unidos. A discussão evolucionismo x criacionismo perdura até os dias de hoje. Dentro da sala de aula, possibilita discussões enriquecedoras ao se transportar para temas da atualidade – experiências com células-tronco, por exemplo – os embates entre religião e ciência.


Infinitas descobertas

Muitos avanços da ciência têm fundamento nas observações de Darwin. Assim, a visita à exposição remete às novas ciências, como a engenharia genética. A mutação dos vírus, as decodificações do DNA, os transgênicos, entre outras descobertas, são uma verdadeira "evolução" das pesquisas do naturalista. É interessante chamar a atenção, no entanto, para a velocidade das descobertas modernas. Lembrando que hoje os cientistas dispõem de ferramentas sofisticadas que potencializam a aquisição do conhecimento, o papel da tecnologia no desenvolvimento humano também pode gerar reflexões e estimular o aprendizado.



O Brasil na época de Darwin

Durante os quatro meses que passou no Brasil, em 1832, Charles Darwin teve contato com nossas florestas, praias e sociedade. Encantou-se com as riquezas naturais e indignou-se com as mazelas sociais, como a escravidão – que condenou em seus escritos.
 
Para mostrar como era o país que o naturalista conheceu, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) organizou uma exposição paralela, com peças de seu acervo. A obra de datação mais remota é uma aquarela de 1818, com paisagem da Guanabara; a última, de 1895, traz a Ponte Grande, em São Paulo.

"No século 19, uma cidade não se transformava radicalmente em uma década; uma paisagem de orla marítima não era obliterada em cinco anos por uma parede de edifícios; um morro não sumia em pouco tempo devido à exploração de minérios e um pedaço da floresta não era varrido da noite para o dia a fim de abrir espaço a pastagens. Assim, aquilo que essas obras capturaram, mesmo se alguns anos antes e alguns anos depois da visita de Darwin, dão uma boa representação do Brasil naquela ocasião", diz Teixeira Coelho, curador do Masp.

As obras representam o estilo que predominava na época, com paisagens tranqüilas e retratos de pessoas, assinados por artistas brasileiros e estrangeiros. Entre os destaques, peças raramente vistas, como o Panorama da Baia de Guanabara do inglês Essex Vidal. As duas exceções ao bucolismo – uma caça a escravos e a litografia do alemão Johann Moritz Rugendas mostrando um feroz combate armado na floresta – lembram aquilo que tanto desgostou Darwin, no Brasil de 200 anos atrás.



Museu oferece atividades de apoio

Como complemento à exposição, o Masp oferece programação cultural e educativa para leigos, educadores, estudantes e profissionais da área de ciências. Realizadas no próprio museu, as atividades são gratuitas.

As palestras, abertas ao público em geral, acontecem durante a semana, de manhã e à noite. Abordam temas amplos, da vida de Darwin a questões como mudanças climáticas e o ensino de ciências.

Todas as terças e quintas, acontecem encontros exclusivos para educadores dos ensinos fundamental e médio. O professor Alberto Carvalho, biólogo que desenvolve projetos junto ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, ministra uma aula expositiva. Depois, os professores visitam a exposição e fazem uma rodada de debates. Nessa programação, que dura 3 horas, além de conceitos sobre as teorias evolucionistas, os professores recebem orientação de como utilizar esses conteúdos em sala de aula.

As escolas podem agendar visitas monitoradas e apoiadas por materiais didáticos produzidos pelo Instituto Sangari em parceria com a Rizoma Cultural. Os estudantes recebem o "Jogo de Aprendiz da Seleção" e o "Catálogo do Aprendiz de Ciência"; os professores ganham os "Mapas moventes para o pensar científico", com sugestões de linhas de estudo e de atividades pedagógicas.


Serviço


Palestras – Programação e inscrições pelo site
www.darwinbrasil.com.br

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Encontro com educadores e visitas de escolas 
Inscrições pelo telefone 0800 15 13 36.

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