Lições da ignorância

A pedagogia da explicação remete à passividade

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Reza a lenda que Ulisses lá teria ficado por vários anos. Não me surpreenderia: Mjliet é misteriosa e encantadora. Em pleno outono restavam poucos turistas na ilha, mas quis o destino – ou o acaso – que entre eles estivesse Laura e seus pais. Pouco mais nova do que Moana, vinha de Zagreb para lá passar o feriado do Dia de Todos os Santos, data importante na católica Croácia. Assim que se viram começaram a brincar com suas bonecas e carrinhos, enquanto seus pais procuravam uma língua em comum que possibilitasse a comunicação.


Ao final do dia Moana volta para nosso quarto com um pequeno esquilo de pelúcia que pertencia a Laura e, em face de minha desconfiança, passa a me explicar: elas haviam trocado de brinquedo, mas no dia seguinte desfariam a troca. Era só por uma noite! Tinham combinado… Procurei lhe explicar que Laura falava croata e ela português, que seria melhor procurá-la e devolver seu esquilo. Contrariada, Moana me seguiu até o apartamento de Laura. Lá sua mãe me explica, em inglês, que elas haviam trocado seus bichinhos de pelúcia, mas era só por uma noite… “Viu, pai! Eu te disse. A gente combinou”, exclamou triunfante.


Não pude deixar de me lembrar da provocante obra de Rancière O mestre ignorante (1987). Nela o filósofo francês conta as aventuras e desventuras de Joseph Jacotot, que exilado, se vê ante uma tarefa que lhe parecia impossível: ensinar francês a alunos que falavam holandês, língua que ele ignorava por completo. Seu surpreendente êxito – a partir de exercícios de uma obra literária – o leva a pôr em questão um pressuposto fundante de toda a tradição pedagógica: a necessidade da “explicação”. A explicação – seja ela boa ou má – leva o aluno, argumenta Rancière, a crer que ele só será capaz de compreender aquilo que lhe for “explicado”; que seu acesso a um saber ou a uma obra depende dessa mediação entre sua inteligência e outra à qual ela se subordina. A “pedagogia da explicação” é, pois, uma pedagogia da submissão, da passividade, da desigualdade.


Jacotot não “explica” a língua francesa a seus alunos. Ele os convida a ler uma obra em edição bilíngue e os desafia a contar em francês o que compreenderam. Entre seus alunos e a obra literária a única mediação é a vontade do mestre que neles desperta o desejo de aprender. O resto é obra dessa capacidade comum e igual em todos os homens: a inteligência. As eventuais diferenças de desempenho não revelam, para Rancière, a desigualdade das inteligências, mas a diversidade no grau do empenho, na intensidade do desejo, na força da vontade. Por isso um mestre não impõe sua explicação, não transmite seu saber. Ele age na vontade de seu aluno; em seu desejo de conhecer o que ignora. O resto é obra dessa faculdade comum do espírito humano: a inteligência.


Rancière sabe que o princípio da igualdade de todas as inteligências – assim como seu contrário! – não pode ser objeto de uma verificação empírica. Não é um “fato psicológico”, mas uma posição valorativa em face da constatação da pluralidade de visões, perspectivas e saberes que encontramos nos homens e em suas culturas. Por isso é uma aposta. Uma aposta na igual capacidade que temos de responder a desafios com nossa inteligência, mesmo que de início desconheçamos um a linguagem do outro; tal como Laura e Moana.


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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