A lição de Sêneca

José Sérgio Fonseca de Carvalho reflete sobre Sêneca e a filosofia como modo de vida compartilhado

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Crédito: Shutterstock

Contemporâneo de Cristo, advogado e intelectual renomado, Sêneca escreveu vasta obra literária e filosófica identificada com os valores e o modo de vida característicos do estoicismo romano. Em sua sexta carta a Lucilo, então governador da Sicília, depois lhe de recomendar dois livros, Sêneca – na qualidade de seu orientador espiritual – o convida para um encontro:

A palavra viva da vida em comum te será mais útil do que a leitura de discursos escritos. Será melhor que estejas presente, em primeiro lugar porque os homens creem mais em seus olhos do que em seus ouvidos e, em segundo, porque o caminho dos preceitos é longo, enquanto o dos exemplos é curto e eficaz. Cleantes não teria sido tão fiel a seu mestre Zenão se só o tivesse escutado. Ele esteve presente em sua vida, penetrou em seus pensamentos secretos, observou de perto se ele vivia em conformidade com seus preceitos. Platão e Aristóteles e toda horda de pensadores que se dispersaram pelas diversas correntes de filosofia se deixaram influenciar muito mais pelos costumes de Sócrates do que por seus ensinamentos.

Mais do que o testemunho de um preceito comum à maior parte das escolas filosóficas da Antiguidade – o de que a filosofia não se resumia à transmissão de uma doutrina, mas era um modo de vida partilhado – o excerto de Sêneca expressa uma convicção pedagógica: a de que o discurso de um mestre tem por origem não simplesmente uma perspectiva teórica, mas uma escolha existencial para a qual o discurso opera antes como uma justificativa do que como orientação prévia. Trata-se, pois, menos da transmissão de informações e saberes a serem aplicados à vida do que de um esforço comum no sentido de compartilhar práticas espirituais capazes de transformar aqueles que a ela se dedicam. Práticas tão variadas como a meditação e o regime alimentar, a preparação para o sono ou o exercício do diálogo.

Era por meio dessas práticas – dos exercícios espirituais – que cada sujeito se tornava capaz de superar sua condição em direção ao que acreditavam ser um aperfeiçoamento moral. Aperfeiçoamento que se alcançava não por qualquer sorte de isolamento pessoal, mas pela convivência em um ambiente que, a um só tempo, dialogava e se distanciava do mundo em que estava inserido. Assim, Sócrates interrogava seus concidadãos, mas procurava transcender os princípios morais vigentes entre eles e dos quais era crítico. O próprio Sêneca tanto tomava parte na política romana como dela se distanciava em uma atitude de um calculado desafio crítico. A formação era, pois, um exercício de familiarização e crítica; de diálogo e distanciamento.

A despeito dos séculos que nos separam e das radicais transformações que se operaram nas relações intergeracionais, parece-me que o ideal antigo da formação filosófica e educacional ainda guarda interesse para aqueles que a ela se dedicam, seja como professores ou como alunos. Em primeiro lugar pela importância que atribuem ao convívio cotidiano como forma de afirmar os princípios e preceitos nos quais se pretende iniciar os mais novos. Mas também pelo tipo de relação que cultivam para com o mundo a seu redor: familiarização, sem resignação; crítica sem isolamento.

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