Lição de amor

A Professora de Piano explora relacionamento explosivo entre mulher na faixa dos 40, ainda controlada pela mãe, e um de seus alunos, bem mais jovem

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Sérgio Rizzo






Alguns cineastas se notabilizam pelo uso da estratégia do incômodo: seus filmes não são feitos para agradar o público, mas para deixá-lo desconfortável em relação a certos temas e, com isso, forçá-lo a refletir sobre eles. É o caso do austríaco Michael Haneke. Seu primeiro longa a provocar impacto no circuito internacional foi
O Sétimo Continente

(1989), no qual uma família burguesa e entediada planeja uma longa viagem a Austrália – na verdade, apenas metáfora para o suicídio em grupo. Em
Violência Gratuita

(1997), a ordem burguesa é novamente desestabilizada por dois estranhos que invadem uma casa de veraneio e torturam os moradores.




A Professora de Piano

se mantém, com pequenas variações, nesse mesmo registro. Desta vez, o que mais interessa é a repressão sexual e os canais que ela encontra para se exprimir no âmbito da vida burguesa. A protagonista é Erika (Isabelle Huppert), admirada professora de piano em um conservatório de Viena (Áustria). Seus alunos a temem, porque é dura e rigorosa, mas a respeitam, em especial quando o compositor em pauta é o romântico austríaco Franz Schubert (1797-1828), sua especialidade. Mantém todos à distância, e parece uma mulher serena e segura. Vista de perto, no entanto, revela-se frágil e atormentada, sob controle da mãe dominadora (Annie Girardot).


Debaixo da máscara social usada por Erika, corre um turbilhão de sentimentos que, represados a vida inteira, irrompem de repente como as lavas de um vulcão adormecido.


O catalisador do desequilíbrio é Walter (Benoît Magimel), pianista diletante que a conhece durante um recital e sente-se atraído pela sua energia e talento ao piano. Obcecado, ele se inscreve no concurso para ingressar no conservatório, é aprovado (apesar do voto contrário de Erika) e, uma vez em sala de aula, deixa claro que suas intenções em relação à professora têm pouco a ver com música, dando início a um jogo de sedução que, ao mexer com sexualidade reprimida e masoquismo, desperta reações violentas em ambos.



A estratégia do incômodo (ou, como preferem alguns, do escândalo) utilizada por Haneke passa, aqui, por cenas fortes, relacionadas ao comportamento sexual de Erika, e que talvez choquem o público mais conservador. Descontado esse tempero apimentado, sua abordagem das relações de poder entre professor e aluno funciona como um bom complemento para
Oleanna

(1994), de David Mamet, que fala de assédio sexual em uma universidade dos EUA. Mas o maior trunfo de

A Professora de Piano
reside mesmo na música, em especial a de Schubert, que pauta o andamento da narrativa.

As seqüências de aulas e concertos são inebriantes, com um detalhe curioso: é a própria Isabelle Huppert, que estudou piano durante 12 anos, quem interpreta todas as peças. Não é por acaso que na parte final, quando a música sai de cena, o filme perde um pouco de sua alma.



 



A Professora de Piano



(La Pianiste)


França/Áustria, 2001, 130 min.


Direção: Michael Haneke


Roteiro: Michael Haneke, baseado no romance
Die Klavierspielerin

, de Elfriede Jelinek




Com Isabelle Huppert, Annie Girardot, Benoît Magimel, Susanne Lothar, Udo Samel, Anna Sigalevitch, Cornelia Köndgen



Distribuição: Movie Star, tel. (11) 3053-6977

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