A lição de 2005

José Sérgio Fonseca de Carvalho escreve sobre as revoltas juvenis de Paris, que completam 12 anos em 2017

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revoltas juvenis de Paris

Foto: Shutterstock

Neste mês, as grandes revoltas juvenis que abalaram Paris completam 12 anos. O episódio, desencadeado pela morte de dois jovens que fugiam de uma perseguição policial, chocou a opinião pública francesa por um fato até então inédito: a fúria dos incêndios não atingiu só os automóveis, como de costume, mas voltou-se também contra as escolas! Mais do que um dano ao patrimônio público, o gesto de atear fogo a escolas causou uma comoção generalizada em função de seu significado simbólico. Como interpretar a revolta desses jovens contra uma instituição da qual a sociedade francesa sempre se orgulhou pelo seu suposto caráter republicano?

Entre os inúmeros esforços intelectuais para atribuir um sentido a esse episódio, destacam-se as reflexões do sociólogo Laurent Mucchielli, para quem não é possível compreender tais gestos sem levar em consideração as humilhações cotidianas às quais os jovens da periferia parisiense estão submetidos. Humilhações que se cristalizam nas práticas policiais de controles seletivos – e sempre fundados em estereótipos racistas e classistas –, na exclusão econômica, na negação de um espaço simbólico que os reconheça como participantes de uma comunidade política e, claro, na humilhação escolar a qual estão sujeitos. Estruturada a partir de um sistema seletivo e competitivo, a escola pública francesa deixou de ser vista por esses jovens como uma oportunidade de ascensão social. Ao contrário, a experiência que dela fazem é, antes, a do fracasso face a barreiras que julgam intransponíveis; de uma trajetória que ao final de nove anos os levará quase que inexoravelmente ao ensino profissionalizante e os apartará das profissões que gozam de prestígio social.

Mas há ainda um aspecto intrigante nas reflexões de Mucchielli: sua afirmação de uma “inexistência simbólica”, ou seja, de que esses jovens são excluídos não só do âmbito econômico e produtivo, mas também do plano cultural e simbólico. Trata-se, muitas vezes, de uma humilhação sutil, menos ostensiva do que o controle policial, menos visível do que a exclusão econômica, mas não por isso menos danosa a quem a vive. Falar do humano é, necessariamente, falar do simbólico. Se é inegável que a dimensão econômica e produtiva é, em certo sentido, primária e anterior (pois é a que viabiliza a vida), é igualmente inegável que uma vida só se humaniza pela sua participação e pelo seu reconhecimento como elemento integrante, singular e ativo de uma comunidade simbólica; de uma comunidade que, além de se organizar para a produção e o consumo, partilha referenciais e experiências simbólicas que emprestam significado a uma vida humana. Essa é, por excelência, a dimensão da educação.

Educar, para além de qualquer função econômica, implica selecionar, iniciar e acolher diferentes legados simbólicos, oferecendo aos novos uma forma de se reconhecerem como membros de uma comunidade de significações partilhadas. Uma tarefa que só se realiza na medida em que os elementos de uma cultura – ou de seus diferentes segmentos – são reconhecidos como legítimos; que só obtêm êxito na medida em que cada sujeito seja reconhecido em sua alteridade como membro de um mundo comum. Um mundo que se transforma em comum não porque seja o mesmo para todos, mas porque acolhe em seu seio suas mais diferentes formas simbólicas e a elas traz a possibilidade do diálogo como forma de viver os conflitos. Essa talvez seja uma das grandes lições que os educadores brasileiros podem tirar desse episódio, aparentemente tão distante de nós no tempo e no espaço.

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