Liberdade, igualdade, crise

França enfrenta problemas semelhantes aos do Brasil

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Graças a um processo iniciado já na Revolução de 1789, a França tornou-se, em todo o mundo ocidental, espécie de exemplo a ser seguido no que diz respeito à democratização do ensino. De fato, difundiu-se no século XVIII — especialmente pelos trabalhos do filósofo Marquês de Condorcet (1745-1794) — o propósito de emancipar as massas pela educação. As premissas revolucionárias — liberdade, igualdade e fraternidade — se fariam sentir no ensino e ainda hoje, principalmente nos países em desenvolvimento, tenta-se colocá-las em prática.






As dificuldades, no entanto, são imensas na própria França, onde 23% do orçamento do Estado é destinado à educação e, mesmo que continue crescendo, a erradicação de certos problemas está muito distante. A França tem estrutura educacional sólida: o maternal começa aos três anos e vai até os seis. Os estudantes iniciam então o ensino elementar (dos seis aos dez anos), passam ao
collège

por quatro anos e ingressam no que se chama
lycée

por mais três anos.






Ao final, devem ser aprovadas em um exame que guarda semelhanças com o vestibular brasileiro: o
baccalauréat

, ou simplesmente
bac

, cuja média permite aos alunos entrar num ou noutro curso universitário de sua preferência. O ensino é gratuito e assegurado do início ao fim pelo Estado, mas o sistema tem provocado manifestações e discussões nos últimos anos. O
bac

, embora seja considerado um exame muito “pesado”, foi realizado em junho de 2005 por 634 mil candidatos, com 80% de aprovação (é preciso ter pelo menos a metade da pontuação). Há um século, apenas 1% dos candidatos conseguia atingir a média. Essa prova foi criada em 1808 e, paradoxalmente, uma proposta de modernização causou recentemente manifestações de professores e adolescentes que acusavam o governo de “desmantelar” e “privatizar” o diploma…






O mesmo ocorreu com o problema do “iletrismo”. Estima-se que de 10% a 15% das crianças não conseguem ler um texto simples depois da escola primária. O último ministro da educação tentou reforçar o ensino de escrita-leitura e cálculo, mas enfrentou protestos dos sindicatos e representantes das outras disciplinas, como ciências, história e educação física. A medida proposta foi atenuada e depois suspensa. Por fim, a mera menção a maior autonomia às universidades provocou tantos protestos dos estudantes e sindicatos de professores que nem foi apresentada ao Parlamento, pois se acreditava em “mercantilização” do ensino superior em função do processo de globalização.





O debate continua aberto entre instituições, sindicatos, Estado e população. O educador Hervé Adami, do Centro de Pesquisas e Práticas Pedagógicas em Língua da Universidade de Nancy 2, afirma que isso é um sintoma de democracia porque “o nível de exigência com a educação na França é tal que encerra debates apaixonados”. De todo modo, a crise não tem suas origens em fatos propriamente positivos.





O problema foi abordado pelo sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002), que associava a educação à aquisição de um “capital cultural”, cujo domínio deveria proporcionar ao indivíduo maiores chances de sucesso na sociedade. Mas o próprio Bourdieu alertava que, para obter o “capital cultural”, é preciso antes possuir o “capital social e econômico”. Assim, a escola ficaria, de alguma forma, de “mãos atadas”, pois a educação continuaria seguindo o rumo histórico de restringir-se a privilegiados. Nesse sentido, Adami é enfático: “A urgência é restaurar a confiança entre a escola e as classes populares, que contam com ela para aumentar as chances de suas crianças”.





Com os grandes fluxos de imigração, a escola francesa se vê diante da dificuldade de integrar todos da mesma forma. Como lidar com tamanhas diferenças culturais e sociais? O exemplo recente da proibição do uso de véu na escola para as meninas de religião muçulmana é típico dos fatores que causam polêmica. Outro aspecto relevante é o da disciplina. A antiga postura autoritária de pais e mestres está em desuso, mas ainda não se encontrou um meio-termo capaz de gerir o comportamento em sala de aula. Além disso, os problemas com violência, desinteresse dos alunos pelo conteúdo do ensino e falta de credibilidade dos professores e da própria instituição – todos semelhantes aos de países em desenvolvimento – estão presentes.





Contrariamente ao que se poderia supor, porém, o fato de a França ter-se desenvolvido e chegado ao ensino gratuito e ao bom preparo dos professores – os quais são rigorosamente selecionados por concursos públicos e têm remunerações dignas – não garantiu o fim dos problemas com educação. O orçamento significativo e os investimentos do governo francês não puderam evitar a exclusão nas escolas, nem a violência dela decorrente.





De todo modo, a influência francesa se fez sempre sentir na educação brasileira, ao menos em termos de estrutura e organização do ensino. O Brasil, é preciso lembrar, está muito longe da almejada “democratização” da instrução. Mas, apesar das diferenças sócio-econômicas entre os dois países, os grandes problemas atuais são coincidentes.





Assim, se a França vive no momento discussão intensa a respeito de seu sistema educacional, é interessante que educadores brasileiros estejam atentos à similaridade dos problemas experimentados pelos dois países. “É preciso pensar a educação como um processo universal, permanente, completamente subtraído ao mercado”, observa Hervé Adami. “A educação não é simplesmente uma transmissão de saberes, mas uma troca, um compartilhamento geral.”





 








Revista
Histoire de l’éducation

:






www.inrp.fr/she/histed_accueil.htm








 







Escola em transe






Para especialista francês, “mal-estar” na educação se traduz em iletrismo, fracasso escolar, violência e desemprego de jovens






O historiador da educação Pierre Caspard, editor da revista
Histoire de l’éducation

e co-diretor da coleção de livros de mesmo nome, acredita que o ideal democrático francês se mostra “impotente para imaginar soluções”.













Como o senhor analisa o atual cenário da educação na França?







Reflete a própria França. No fundo, não está indo mal. O orçamento destinado à educação continua a crescer. As despesas públicas por aluno quase dobraram em 25 anos. Os professores têm, em geral, alto nível e são pagos corretamente. No entanto, a escola dá provas de um surpreendente mal-estar: iletrismo, fracasso escolar, violência e desemprego dos jovens. Mas as reformas educativas sempre suscitam greves e manifestações de uma massa de professores e alunos, e acabam enterradas. Na área da educação, qualquer reforma do ensino parece bloqueada.







A França é para o Brasil um exemplo de democracia também no ensino. Essa imagem corresponde à realidade?







Temos, de fato, traços de democracia no ensino. É gratuito em todos os níveis, uniforme entre os estabelecimentos que têm os mesmos programas e corpo docente concursado. Tudo isso satisfaz o igualitarismo proposto pela Revolução Francesa. Mas há outros tipos de desigualdades, tais como certo “enobrecimento” de algumas escolas, como a Politécnica, e a “guetização” de escolas de bairros de imigrantes. Há, a partir daí, a evasão e o iletrismo, que estão no centro do debate. O ideal democrático francês se mostra impotente para imaginar soluções, pois seria preciso primeiro analisar fatores culturais e socioeconômicos.







Os professores enfrentam situação inusitada?







Os professores sempre se confrontaram com alunos preguiçosos, passivos ou rebeldes, com falta de respeito, mas nunca como agora. E isso os faz se perguntarem sobre o próprio sentido de sua função e a pertinência da formação que receberam. Além disso, o que me parece característico da situação atual é a maneira como divergem as expectativas em relação à escola. Persistem a concepção da escola como escala para a sociedade (o adágio
scola-sacla

remonta à Idade Média) e a idéia de que a escola deveria ser um “elevador social”, garantindo o sucesso do aluno. Essa nova cultura do “abre-te Sézamo” alimenta poderosamente as frustrações e recriminações.







E o que a história da educação nos diz sobre os fundamentos do ensino no futuro?







Da Idade Média até o final do século XVIII, o ensino foi desejado e financiado por três grandes agentes: famílias, cidades e igrejas. Isso permitiu que a França tivesse um alto nível de ensino primário, secundário, superior e técnico, mas para uma minoria. Durante a segunda fase, que vai do século XIX ao XX, o Estado se impôs progressivamente como único organizador e financiador do ensino, igualando, teoricamente, as oportunidades. Hoje estamos numa terceira fase, em que se pede ao Estado que garanta não mais a igualdade de oportunidades, mas de resultados. A idéia de dar “mais a quem tem menos” acabou por criar certa discriminação positiva. Como historiador, acho que a questão principal é admitir que o Estado não poderá fazer tudo. A escola deverá voltar a ser modesta, mais próxima dos agentes locais e familiares e voltar-se à função de instruir. E não se pode dizer que será fácil, pois terá de levar em consideração universalidade e diversidade.




Reportagem: Mônica Cristina Corrêa






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