Letras libertárias

Projeto alfabetiza descendentes de escravos em Minas Gerais

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Beatriz Levischi





 





“Quem não sabe ler e escrever, não sabe andar no mundo.”





Antão Ferreira do Nascimento, autor da frase acima, é aluno do
BB Educar — Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos

, desenvolvido pela Fundação Banco do Brasil no Quilombo do Gorutuba, em Minas Gerais. Aos 66 anos
, junto com outros 32 educandos da comunidade de Jacaré Grande, ele arrisca seus primeiros traços rumo à liberdade.





Cerca de 500 famílias e mais de 6 mil descendentes de negros escravos circundam as margens do rio Gorutuba desde o século XVIII. Suas 27 comunidades, vitimadas pelo processo de expropriação deflagrado nos anos 40 e intensificado a partir da década de 70, ocupam hoje exíguas frações de terra dos seus ancestrais, em meio a grandes fazendas de pecuária extensiva (distantes entre si em até 90 km) e sete municípios: Gameleira, Monte Azul, Pai Pedro, Porteirinha, Janaúba, Jaiba e Catuti.



A taxa de analfabetismo é de 58% e a mortalidade infantil, segundo Rosângela D´Angeles Brandão, advogada e gerente de expediente do Banco do Brasil, envergonharia a Somália. “Não precisamos ajudar o outro lado do mundo”, enfatiza. Rosângela entrou em contato com a realidade gorutubana quando aceitou em 2002 o convite de seu primo, o antropólogo Aderval Costa Filho, doutor pela Universidade de Brasília, para fazer o levantamento cartorial do local, auxiliando na formação e organização das comunidades (missão atribuída pelo convênio entre a Universidade Católica de Brasília e a Fundação Palmares).



Nasceu, então, a vontade de iniciar um trabalho que recuperasse a auto-estima e valorizasse os quilombolas, fazendo-os se sentir um povo só. O primeiro passo como coordenadora dos voluntários BB na região do Gorutuba seria
mobilizar o maior número de autoridades políticas. Para tanto, criou-se uma rede de apoio formada pela Comissão de Cidadania dos Funcionários do BB de Belo Horizonte e Serra Geral. Depois, veio o envolvimento do setor de tecnologia, responsável pela implantação do projeto de recursos hídricos, já que o rio secara e a água acabou se transformando em artigo de luxo para grande parte da população.





“Os mais ‘ricos’ possuem um pequeno poço, muitas vezes a céu aberto, que a prefeitura enche de dois em dois meses. O resto só toma banho quando chove”, conta Rosângela. “Eles precisavam de condições mínimas para produzir e sobreviver. Aprender a ler e escrever só viria depois”, lembra Jacques de Oliveira Pena, presidente da fundação. Ainda
sob o escopo do programa, e no intuito de evitar que os gorutubanos tivessem de caminhar quilômetros até a escola mais próxima, 27 salas de aula foram construídas ou adaptadas com carteiras e cadeiras.





A de Salinas 2 fica no quintal da casa de José Lima, irmão de Eliana Lima Marques, 20 anos, que estudou até o 3º colegial e sempre sonhara em ser professora. Quando o presidente da Associação Quilombola, Dernivaldo Fernandes Lima, convidou-a para participar do curso de formação de alfabetizadores do
BB Educar

, Eliana diz que não pensou
meia vez e hoje não se arrepende. “Descobri muitas coisas que não sabia sobre a nossa cultura, com relação às roupas, à comida e ao sotaque”, diz.







Além dela, outros 47 membros comunicativos e articulados foram selecionados para participar do treinamento (ministrado por instrutores do banco, durante 40 horas) e passaram a receber uma bolsa auxílio de R$ 250. Atualmente, eles são responsáveis pela alfabetização de 27 turmas (cerca de 500 alunos), oriundas de 22 comunidades. As aulas de português e matemática duram entre seis e oito meses, distribuídas em dois ou três dias por semana. A questão dos direitos dos negros é abordada e há forte investimento no resgate da cultura quilombola. “O
BB Educar

não ensina só a ler e escrever. Fala também das necessidades e dos problemas”, afirma Dernivaldo.









Na turma de Eliana, o mais novo dos 21 alunos está com 31 anos e o mais velho, com 64. “No primeiro dia de aula, eles demonstravam certa pressa em aprender. Ficavam nervosos, suavam. Aí, eu ia de carteira em carteira, pegava na mão e dizia para se acalmarem, pois só conseguiriam com o tempo”, conta.



Se a filha podia dar aula, Laudilina de Lima Marques, 49 anos, pensou que também podia ser aluna. Aprenderia, então, a diferenciar nomes de pessoas e cidades. No supermercado, não precisaria mais perguntar aos outros o preço dos produtos. “Além de ser analfabeta, tenho vista curta. Com os óculos, as letras não se misturam mais. Agora, só falta entendê-las”, sorri. É que o serviço médico oftalmológico realizou 500 consultas nas comunidades e receitou 320 óculos, doados por funcionários solidários de todo o Brasil.



De sua casa, em Salinas 5, até a sala em que dá aula para 20 alunos, Faustina Silva Souza, 19 anos, 2º grau incompleto, percorre a pé 7 km para ensinar a “essência do quilombo”. “Quando tocava o batuque, eu ficava morrendo de vontade de dançar, mas sentia vergonha. Depois do programa, tomei coragem para experimentar e não parei mais”, diverte-se. Ela garante que a mistura de gerações na classe é importante porque “embora os velhos tenham a mente mais cansada, é deles que vem a memória do passado”.



As aulas em Jacaré Grande são ministradas na Escola Municipal Professora Guiomar de Sales, que atende alunos entre a 1ª e a 4ª série. O professor, Geraldo Francisco dos Santos, 55 anos, começou a lecionar em 1970, embora só tenha estudado até a 7ª série. No início, recusara a proposta para fazer parte da equipe de alfabetizadores, porque decidira finalmente descansar da labuta, mas acabou cedendo à insistência dos colegas e confessa que tem aprendido mais a cada dia, além de poder distribuir o que sabe.





Seus 33 pupilos, todos trabalhadores da roça, não se importam em ter que dividir o material, uma vez que o programa foi desenhado para comportar apenas 20 participantes, porque gostam demais das aulas. “Eles vivem dizendo que dois dias por semana é muito pouco”, comenta orgulhoso. No sábado em que a reportagem de
Educação

acompanhou a aula, estavam aprendendo a escrever o próprio nome, procurando as letras correspondentes na revista e colando-as de forma organizada no caderno. Cada um podia se basear no modelo feito pelo professor. Um tempo médio foi estipulado, mas a tarefa continuou até a maioria terminar. Quem sabe mais ajuda quem sabe menos. A correção é feita na lousa. Se não fez, faz na hora. E seu Geraldo estimula: “Não precisa se envergonhar. Todo mundo está aqui para aprender e errar faz parte”.









Leia mais na versão impressa: as dificuldades de quem não sabe ler e escrever, as atividades desenvolvidas nas aulas do programa BB Educar e um pouco mais sobre sua história e metodologia.













 


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