A base da escrita

Sob a pressão da família para alfabetizar os pequenos cada vez mais cedo, é comum a escola se ver entre ajudar a criança a se apropriar do mundo letrado e a não desrespeitar o seu direito à infância

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Letramento

“Esta escola aqui alfabetiza?” A dúvida, trazida pelas famílias com cada vez mais frequência e que se traduz numa pressão sobre as escolas, é um verdadeiro desafio à educação infantil e chega até mesmo ao berçário. Mas o que à primeira vista poderia ser interpretado como uma interferência inócua também pode ser transformado em uma oportunidade para as escolas e para as crianças.

“Vivemos em uma cultura letrada, em que ler é importante. Por isso, a preocupação procede”, pondera a educadora Márcia Regina Steiner, que foi coordenadora pedagógica do Núcleo de Desenvolvimento Infantil da Universidade Federal de Santa Catarina, e hoje está aposentada. Afinal, quem não sabe ler e escrever com competência em um mundo social absolutamente midiatizado pelo texto tem sua cidadania posta em risco.

Sim, alfabetizamos
O que está em jogo, na verdade, são os conceitos acerca do processo de alfabetização. Para muitos pais, ensinar a ler e a escrever significa trabalhar as letras, juntar sílabas, formar pequenas frases sem contexto, estudar vogais, consoantes… Ou, ainda, fazer exercícios de “zigue-zague” no papel. Essa ideia é fruto da experiência que a maioria dos adultos de hoje teve enquanto aprendizes. Por isso, a estratégia que costumava ser adotadada pela professora Márcia, num primeiro momento, era dizer aos pais: “sim, aqui alfabetizamos”.

Depois que a matrícula é feita, começa o trabalho de explicar o que é o processo de aquisição da leitura e da escrita para a criança pequena. “Uma sugestão é promover encontros e mostrar de que maneira a linguagem gestual, como a escrita, se consolidou na história e como a criança pequena reproduz essa história. Também é interessante mostrar que experiências que aparentemente não estão relacionadas com o assunto são, na verdade, a base da escrita”, afirma Márcia.

Dessa forma, os pais compreendem, por exemplo, que quando uma criança, durante o brincar, transforma um cabo de vassoura em um cavalo ou um lápis em um avião, ela está fazendo abstrações, algo essencial para o processo de alfabetização. “Transformar algo concreto em algo diferente na imaginação é uma abstração, algo importante e que também acontece com as letras. Não existe um ‘A’ que podemos pegar com a mão. As letras, isoladamente, não fazem sentido. Elas são convenções sociais”, explica a educadora.

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