De livro em livro

Gabriel Perissé escreve sobre o ‘leitor pulador’: “Cada novo livro aberto ao acaso é um salto no infinito”

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De livro em livro

Fotos: Shutterstock

Um método de leitura absolutamente não recomendável, mas muito prazeroso, é ir pulando de livro em livro. Sem medo e sem critério. Sem hora para terminar e sem marcador de página.

Aonde irá o leitor pulador? Pulando corda sem corda, aprende a imaginar. Pulando de paraquedas sem paraquedas, sobrevoa todos os mapas. Pulando de cá para lá, descobre um novo jeito de andar.

Não precisa sequer anotar o título e o autor, o nome da editora e a data de publicação. As fronteiras estão diluídas e as referências bibliográficas tiraram férias. Hoje é dia de passear entre palavras e frases como quem abre um caminho até então inédito.

Ler para ver

Para pular e se coçar, basta começar:

Do alto da minha montanha eu, a princípio, não entendia o que havia naquele panorama. Enxergava apenas uma paisagem confusa e desordenada. Precisei de algum tempo para reconhecer o que eram cidades e o que eram caminhos, o que eram florestas e o que eram espaços vazios.

Uma visão confusa vai ganhando clareza e classificações. Quem será este personagem que diz possuir uma montanha? Ele disse, não disse? Ele disse “minha montanha”. E da sua montanha contempla o mundo. Até que possa distinguir as coisas, é preciso ajustar a visão.

O mesmo acontece com a leitura. Ao subir uma montanha (um livro), ganhamos altura, podemos ver mais longe. O “meu livro” não é meu, como a montanha não tem dono. Mas naquela hora o livro é meu, sim. E então, escalando o meu livro, posso interpretar a realidade. O livro nos leva para cima e para longe, e ele se torna mirante.

Outro pulo e outro livro:

O que sou? Uma parte do infinito. Afinal, nessas quatro poucas palavras reside todo o problema. Será que até ontem a humanidade ainda não fizera a si mesma essa pergunta? Será que ninguém, antes de mim, se fez essa pergunta — uma pergunta tão simples que desde muito cedo qualquer criança inteligente sabe formular?

Não importa quem tenha escrito esse trecho. Todos nós podemos assumir cada uma dessas palavras. Releio em voz alta a pergunta fundamental. O eu do autor sou eu agora. Cada um é parte desse todo. O autor nos avisa que somos todos inteligentes, quando aprendemos a fazer perguntas simples. O que não é tão simples assim. Como voltar a ser uma simples criança e encarar o complexo infinito, sem medo? O único meio é voltar a reconhecer que estamos sempre aprendendo.

Pulo no escuro

Talvez esse método de leitura aos pulos acabe me levando para o infinito. Cada novo livro aberto ao acaso é um pulo no escuro. Quem é o autor ou a autora? Que história está sendo contada ou que ideia é essa que alguém defende com tanto empenho?

Outro pulo:

Minha cabeça era um pandemônio: um amontoado de ideias, sentimentos de amor e de ódio, perguntas, ressentimentos e lembranças misturavam-se e apareciam sucessivamente.

Qualquer um de nós se reconhece nessa confissão. Basta ter uma cabeça pensante e um coração palpitante. A mistura de tudo o que somos por dentro nos une a todos os outros, mundo afora.

Fechando os olhos, dou um novo pulo no escuro. Mas é então que vejo luzes, vejo o filme, a peça de teatro, assisto aos meus dramas e tragédias. Todos carregamos um pequeno universo de grandes consequências. Todos nós temos uma inesquecível história para contar.

Educar consiste em incentivar os alunos a darem pulos de autoconhecimento e crescimento. Uma leitura é então um pulo do texto para a vida. É um pulo da interpretação para o diálogo.

O amor é uma casa com muitos aposentos, um para alimentar o amor, um para diverti-lo, um para limpá-lo, um para vesti-lo, um para permitir-lhe o repouso, e cada qual poderia ao mesmo tempo ser o aposento para rir, ou para ouvir, ou para contar segredos, ou para ficar amuado, ou para desculpar-se, ou para o aconchego íntimo e, naturalmente, havia quartos para os novos membros do lar.

De pulo em pulo podemos topar com um belo texto, perdido no meio de inumeráveis parágrafos que nunca visitaremos no espaço de uma vida.

Não estou preocupado, agora, em elogiar ou criticar quem o escreveu, quem trouxe a metáfora, quem a desdobrou. Terá copiado de alguém a imagem da casa como moradia do amor? Terá sido original ou praticou o plágio criativo? Ninguém, até hoje, pensou no amor como uma casa de muitos cômodos, cada qual com sua função?

A escola também é uma casa com muitas salas, em que há espaço para ler, pensar, escrever, conversar, conviver, falar e silenciar, brincar e inventar novos pulos.

Pular de livro em livro é um exercício de descobertas. E, por outro lado, não se pode ler um livro de um pulo só. Em algum momento será necessário sentar-me com um único livro. E de linha em linha, de palavra em palavra, escalar minha montanha.

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