Leito da Sabedoria

Investigar o rio São Francisco sob variados aspectos é um ótimo caminho para relacionar disciplinas que, muitas vezes, parecem absolutamente estanques

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Os indígenas deram o nome de Opará, rio-mar, ao longo curso d’água que desemboca no oceano. Os colonizadores o rebatizaram com nome de Francisco, pois era dia do santo católico quando a expedição portuguesa deu de cara com a foz do que pensaram ser um caudaloso riacho. Os navegantes europeus não tinham idéia de que se tratava daquele que posteriormente seria conhecido como o rio da integração nacional, responsável pela ligação entre as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.


Manifestação antitransposição mostra que o rio São Francisco é um tema mais do que atual

Mas também se ode chamar o Velho Chico – que é como o povo brasileiro resolveu apelidá-lo – de um competente professor multi, inter ou transdisciplinar. De suas águas e de suas margens, podem-se extrair lições em todas as áreas do conhecimento.

A literatura,  or exemplo, é uma das disciplinas mais propícias para introduzir os alunos no universo da "terrível água de largura:  mensidade", descrita por Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas. Patrizia Bergamaschi, professora do Colégio Emilie de  illeneuve, de São Paulo, aconselha também a leitura de A cachoeira de Paulo Afonso, de Castro Alves. E recomenda ainda um trabalho de pesquisa com os personagens das lendas do rio contadas por remeiros, barqueiros e barranqueiros – como o caboclo d´água.


Lições exatas


Apesar de toda a poesia que envolve sua história e da sua importância econômica e social – substrato de grande
riqueza para o estudo das disciplinas de geografi a e história, por conta do projeto que prevê a transposição das águas do
rio -, o Velho Chico não é matéria apenas das ciências humanas. O universo do rio ajuda a compreender os abstratos conceitos das disciplinas exatas.

Dentro da física, por exemplo, é possível explicar princípios da mecânica pelo movimento das embarcações que trafegam no rio. "Estudamos as correntes naturais do rio, fazendo uma relação com o período das cheias, quando o aumento das águas acompanha um aumento natural da velocidade das correntezas", diz Cleide Mara Dalla Torres, professora da EE Prof. Antonio Nascimento, de São Bernardo do Campo (SP). Ela também propõe utilizar a água do rio para explicar conceitos de óptica, como o processo
de refração da luz. Em geometria, as unidades de medida da bacia do São Francisco rendem muitos exercícios: comprimento do rio; altitude da nascente; vazão média da foz; área da bacia. Maria de Lourdes Boullon Fuentes, professora da EE Casimiro de
Abreu, de São Paulo, sugere o estudo de trigonometria, calculando-se a largura do rio por meio do teodolito.


Matéria-prima


Na área de química, é possível trabalhar a questão da qualidade da água e o tratamento necessário para que seja possível sua utilização para consumo humano (tipos de substâncias e misturas, processos de separação, concentração de soluções, pH).Outros temas com grande potencial de exploração, segundo Cláudia Ayres, professora do Colégio Santo Américo: os agentes poluidores as águas do rio, como o uso indiscriminado dos agrotóxicos (composição,ação no solo, no alimento e no corpo humano e as  Formas de uso e proteção recomendadas); os esgotos domésticos e industriais despeja dos diretamente no rio, sem tratamento, formados na maioria das vezes por compostos resistentes à biodegradação e que não fazem parte da cadeia alimentar.

Ainda em torno da questão ambiental, há também o tema das queimadas (poluição do ar, gases formados, contribuição para o feito estufa). Esse tópico abre a refl exão para os combustíveis alternativos (por exemplo, abiomassa) – muitos turistas navegam pelo rio em embarcações equipadas com caldeiras a lenha.

Aproveitando as jazidas encontradas na região do São Francisco (ouro, minérios de ferro, cromo, cobre, manganês, chumbo, rdósia, amianto, gipsita, quartzo, enxofre, entre outros), podem-se trabalhar suas composições químicas, aplicações industriais e as reações envolvendo tais substâncias.


HISTÓRIA


Pesquisas e painel


A história das comunidades que se desenvolveram na bacia do rio São Francisco é um excelente ponto de partida para trabalhar as relações entre a história local, regional e nacional.

Um dos aspectos importantes dessa temática, na opinião de Elizabete Rodrigues Oliveira, coordenadora pedagógica e professora da Escola Técnica Estadual de São Paulo, do Centro Paula Souza, consiste em "propiciar aos alunos uma reflexão histórica sobre a relação dialética entre os condicionantes naturais que influenciaram o desenvolvimento das comunidades e as formas como elas e os colonizadores foram modificando, com sua cultura, as condições naturais da região banhada pelo rio".

Uma pesquisa que aborde a origem do nome do rio e suas modifi cações ao longo da história em função das formas de apropriação das águas e das terras mostrará as tensões entre as diferentes culturas que se entrecruzaram ali. As relações entre as Comunidades indígenas e delas com o rio, seus confl itos com os colonizadores e a luta dos nativos pela defesa de suas terras na região do São Francisco são estudo imprescindível para a história do Brasil.

Um aspecto histórico de vital importância é a forma como os colonizadores
portugueses, franceses e holandeses construíram cidades e fortalezas em locais estratégicos próximos ao rio. Essas formas de ocupação e os conflitos por elas gerados modificaram substancialmente tanto os aspectos culturais e sociais quanto os naturais, visto que vários povos indígenas desfrutavam, para sua vida e trabalho, a existência do rio.

Elizabete sugere ainda a criação de um painel com o mapa do Brasil, no qual os alunos assinalem as atividades econômicas relacionadas com o processo de colonização, principalmente dos portugueses.Devem ter destaque a pecuária, a produção do couro, a mineração e a produção para a subsistência.

A formação das missões religiosas e de aldeamentos de escravos fugitivos dos engenhos nas regiões próximas do São Francisco constituiu fator relevante na construção histórica do povo brasileiro. A presença de religiosos e de quilombos às margens do rio também gerou intensos conflitos com os colonizadores.

Um tema interessante é a retomada das raízes da implantação da grande propriedade na bacia do São Francisco,
especialmente se associada à interpretação de documentos históricos sobre a doação de sesmarias, em que se podem notar as origens da herança do latifúndio e do coronelismo na região. Finalmente, vale inventariar as propostas de transposição do rio São Francisco, cujos primeiros registros datam do tempo do Império e prosseguem
República afora.


ARTES


Exposição integrada


Por mais que hoje em dia as carrancas das embarcações tenham um caráter mais comercial, devido ao interesse dos turistas, não resta dúvida de que ainda guardam seu significado tradicional: espantar os maus espíritos.


Simbolo cristão à margem do rio: os diversos povos deixaram as suas marcas

Pesquisar o histórico dessas obras é ponto de partida interessante para entender valores e representações da cultura
do São Francisco. "É importante o contato com as imagens, observar atentamente os detalhes das peças", ressalta Thereza Peric, professora da Escola Carandá, da Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo, de Licenciatura na FAAM e assessora de programas da TV Escola.

O segundo passo é trazer as carrancas para o universo dos alunos, cotejando realidades. Pode-se colocar a questão: o que significam "maus espíritos" dentro desse contexto cultural? Há equivalentes a serem relacionados com o universo do estudante?

Esse processo permite a apropriação do problema por parte dos alunos. Exemplos não faltarão: aquecimento global, poluição, desmatamento, fome, guerra, corrupção etc.

Uma assemblage – reunião de vários objetos com a intenção de criar uma situação pictórica ou escultural – seria adequada. Em vez de esculpir a carranca em madeira, pode-se adotar um procedimento mais acessível e também mais compatível com um olhar contemporâneo.

Para isso, o ideal é proceder a um levantamento de materiais, de preferência utilizando objetos do cotidiano, diferentes tipos de sucatas, de modo a redimensionar seu significado. Depois disso, aconselha Thereza, começa o processo de criação, que pede nova abordagem quanto ao significado. Os projetos individuais ou em duplas devem aliar o prazer da construção à busca de um significado para a "nova carranca".

Uma exposição que mostre as várias etapas do projeto – pesquisa, fotos ou imagens das referências e as esculturas das carrancas – constitui o fecho ideal para a atividade, especialmente se amarrada com um texto que resuma a experiência.


GEOGRAFIA


Mapas e maquete

Por motivos óbvios, o estudo do São Francisco oferece oportunidades variadas para o campo da geografia. A seguir, Elian Alabi Lucci, professor do Colégio e Faculdade Dom Bosco, de Monte Aprazível (SP), e diretor da regional de Bauru da Associação dos Geógrafos Brasileiros, sugere alguns temas e aspectos para ajudar a compreensão
dos aspectos geográficos.

Para começar, um bom exercício é propor a elaboração de um mapa de toda a bacia, da nascente à foz, de modo a estabelecer sua localização. É importante ressaltar que a configuração da bacia é alongada e situa-se quase totalmente numa área de depressão. Apresenta declives acentuados em trechos próximos à nascente.

O estudo do relevo na distribuição e no fornecimento de energia permite conhecer o rio em relação à geomorfologia da bacia. Aqui, é preciso relacionar o curso do rio às formas de relevo predominantes, que permitem, pelos desníveis, o seu aproveitamento energético. Isso pode ser percebido destacando-se as hidroelétricas existentes ao longo do rio São Francisco.

Já o estudo do clima mostra que este está relacionado à perenidade do rio, apesar de ele atravessar em alguns trechos regiões mais secas. Essa perenidade se dá graças ao mecanismo de retroalimentação proveniente do seu alto-curso e dos afluentes no centro de Minas Gerais e oeste da Bahia.

Um olhar mais aprofundado sobre a vegetação das margens do rio mostrará que predomina a mata galeria e que, quando devastada, gera graves problemas ambientais às áreas banhadas pelo rio.

Uma pesquisa sobre os benefícios que a população ribeirinha obtém em relação ao uso das águas do rio e do que ele proporciona à ocupação das suas margens mostrará que o papel do rio como corredor de exportação entre o centro e o leste do país, o seu uso para garimpo, irrigação e pesca estão entre suas principais atribuições econômicas e sociais.


Impactos ambientais


O uso excessivo das águas para irrigação, a poluição por defensivos agrícolas e a destruição da mata ciliar na cabeceira do rio são alguns dos problemas que provocam forte impacto ambiental e estão comprometendo a economia e a vida dos


Cisternas: a criação de reservatórios de água é questão central

povos ribeirinhos. Fazer com que os alunos analisem a viabilidade do projeto da transposição sob as ópticas ambiental, social e econômica pode levá-los a um patamar superior de suas capacidades de análise e argumentação. Uma atividade
interessante seria construir uma maquete do projeto.


BIOLOGIA


Seminário e debate


A prática da transposição de águas já foi utilizada em diversos países. No Brasil, o projeto visa a perenização de rios temporários e a diminuição da escassez de água na região semi-árida em Estados do Nordeste.

Inevitavelmente, colocará em contato peixes de diferentes bacias hidrográficas, separados há milhões de anos. As espécies transpostas podem ser consideradas formas invasoras, originando uma situação de competição em seu novo espaço de convívio. Como conseqüência, há o risco de extinção de algumas espécies endêmicas.

O projeto prevê o desmatamento de áreas para construção de canais, reservatórios, canteiros de obras e construção de estradas de acesso às obras. Esse desmatamento provocará perda de habitats da fauna terrestre.

Para identificar os impactos positivos e negativos do projeto de transposição, é necessário, antes de tudo, conhecer a fauna e a flora local e entender o ecossistema do semi-árido nordestino.

Lilia Regina Simões Menezes Bentivegna, professora da EE Embaixador Assis Chateaubriand, da Fundação Bradesco, e consultora da Editora Moderna, propõe aos alunos uma pesquisa sobre o ecossistema da região, a sua flora e fauna: "Isso os fará buscar informações para reflexão sobre o projeto. Peça que levem para a classe os mais variados tipos de textos: notícias, reportagens, artigos de opinião e informações não-verbais, como fotos, gravuras, gráficos".

Cada grupo pode se encarregar de desenvolver um tema: bioma da região, comunidades biológicas aquáticas nativas, vegetação nativa e habitats de fauna terrestre.

Para consolidar o estudo, é bom promover seminários e estimular um debate entre os grupos.

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