Legado de inovação

Extinto após o endurecimento do regime militar, o Serviço de Ensino Vocacional foi referência de qualidade e pioneiro na implantação de práticas pedagógicas

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Rubem Barros




O que teriam em comum, em meio às transformações em curso nos anos 60, jovens estudantes do bairro paulistano do Brooklin (que reunia imigrantes de diversas origens), da cidade de Americana (que girava em torno da indústria têxtil) e da agroindustrial Batatais, ambas no interior do Estado de São Paulo?

Muita coisa, se considerados aqueles que passaram pelos ginásios vocacionais. Ao lado de alunos de Rio Claro, Barretos e São Caetano do Sul, outros pólos da experiência, eles foram beneficiados por um modelo que marcou época na escola pública e influenciou instituições do ensino privado nas décadas seguintes.

Criado em 1961, o Serviço de Ensino Vocacional (SEV) funcionou até 1969, quando o endurecimento do regime militar cessou seu funcionamento. Liderado pela professora Maria Nilde Mascellani, reuniu um grupo de educadores que buscava a renovação do ensino e a formação de professores, renegando o behaviorismo e apostando na valorização de uma formação abrangente, que contemplasse todas as áreas do saber. Na mesma época, tomavam corpo também as escolas experimentais e os colégios de aplicação.

A memória dessa experiência, que no início dos anos 60 punha em prática idéias e métodos ainda hoje vistos como inovadores – o “aprender a aprender”, as práticas interdisciplinares e o estudo do meio, entre outros -, tem sido objeto de análises acadêmicas e de ações por parte de ex-alunos.

No final de 2005, sob a organização de Esméria Rovai, professora que participou do SEV desde seu início e hoje integra o programa de pós-graduação do Instituto Paula Souza, foi lançado o livro
Ensino Vocacional, Uma Pedagogia Atual

(Cortez, 192 págs., R$ 30), que reúne artigos de estudiosos e relatos de participantes. A obra vem juntar-se a pelo menos cinco teses dedicadas ao Vocacional, uma delas da própria Esméria Rovai, publicadas entre 1996 e 2005.

No ano passado, ex-alunos da unidade do Brooklin – o Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha (GVOA), hoje Escola Estadual Oswaldo Aranha (de ensino médio) — fundaram a Associação Gvive, que reúne 600 pessoas cadastradas. Já articulada com as ex-unidades do interior, a entidade trabalha em três frentes: documentação e registro da história do Ensino Vocacional, apoio a ações de melhoria nas escolas em que seus participantes estudaram e realização de atividades educacionais complementares, em sintonia com educadores dessas escolas. Em 2007, o tema ganhará um documentário para a TV, assinado pelo cineasta Toni Venturi, ex-aluno do GVOA.

Com influências da Escola de Sèvres francesa e da Escola Compreensiva inglesa, o Serviço Vocacional surgiu num momento em que se repensavam o homem e seus processos de apreensão do saber. “A origem de sua filosofia está centrada num novo humanismo, que pensava o homem dentro de seu contexto cultural. Rompeu-se com várias tradições que havia na época. Uma delas foi o currículo único. O Vocacional dizia que o currículo tem de ser elaborado a partir do contexto sócio-histórico da escola e de seus alunos”, explica Esméria Rovai.

Para a professora, os pontos centrais do Ensino Vocacional foram suas características metodológicas (estudo através de situações-problema, com integração entre as matérias e estudo do meio, entre outras), aprendizagem significativa (em oposição à aprendizagem mecânica) e avaliação processual (valorizando aspectos cognitivos e aptidões). “O aluno era orientado a perceber-se como sujeito e a conhecer suas habilidades e limitações”, resume.

Uma das inovações do SEV foi a proposta de
core curriculum

, em que todas as disciplinas trabalhavam seus conteúdos a partir de uma questão inicial estudada sob o prisma de cada uma das áreas. Essa questão era escolhida numa “Assembléia de Plataforma”, em que professores e alunos dividiam assento, sob coordenação dos primeiros. Ao final do bimestre, os resultados eram apresentados numa “Assembléia de Síntese”.

“Houve um ano em que o tema emergente foi a Guerra Fria. Na minha disciplina, matemática, pedi aos alunos que buscassem livros russos, americanos e europeus. Um deles conseguiu um livro russo sobre geometria projetiva e a discussão chegou até o
[matemático russo Nicolai]

Lobachevsky (1792-1856), criador da geometria não euclidiana que ajudou a sustentar a Teoria da Relatividade de Einstein”, conta Lucíola Bechara Sanchez, ex-professora do Oswaldo Aranha e hoje membro do Conselho Deliberativo do Colégio Vera Cruz.

O exemplo é ilustrativo da profundidade a que chegavam discussões e pesquisas nos vocacionais. “Aprendemos a estudar, a pesquisar. O que mais se incentivava era que buscássemos as respostas que queríamos. Não eram os professores que as davam, eles faziam as perguntas”, relembra o engenheiro Paulo Simon, ex-aluno e autor de um dos depoimentos do livro organizado por Esméria Rovai.

A interação entre escola e comunidade foi um fator fundamental nas práticas dos ginásios vocacionais. O estudo das comunidades e das suas características era determinante na formação do currículo. Essa relevância em muito advinha da influência do existencialista cristão francês Emmanuel Mounier (1905-1950), que defendia a formação de seres “engajados” em suas realidades.

Os objetos de estudo partiam, então, da realidade próxima até universalizar-se: no primeiro ano ginasial (atual 5a série do Ensino Fundamental), a questão de partida dizia respeito ao bairro e à cidade. No ano seguinte, ao Estado de São Paulo. No 3o ano, ao Brasil; no 4o ano, à América Latina e ao mundo.

A mesma idéia de progressividade era utilizada para que os estudantes alçassem vôo próprio. Na 1a série, havia o Estudo Dirigido, com um planejamento mais elaborado e orientação minuciosa de cada área. No ano seguinte, era substituído pelo Estudo Supervisionado, que permitia que os alunos começassem a propor diretrizes. A seqüência desembocava no Estudo Livre, com orientação apenas inicial e avaliação final.

O estudo do meio, hoje em voga em vários colégios particulares, estava presente em todas as séries. Num dos anos, alunos da unidade de Americana ficaram durante quase um mês vivendo em alojamentos nas cidades históricas de Minas Gerais. Outros, de São Paulo, foram conhecer a cultura cafeeira da região de Batatais, onde se hospedaram em casas das famílias dos alunos do Vocacional da cidade.

As aulas profissionalizantes eram outro eixo do projeto. Como os Vocacionais funcionavam em período integral, muitas horas da grade eram dedicadas às artes industriais, plásticas, economia doméstica e práticas comerciais. As disciplinas ajudavam no entendimento das realidades locais e eram uma maneira de construir conceitos estudados em sala de aula, unindo teoria e prática.


Fim da linha –

Esgarçado já em 1968, quando começou a registrar cisões internas entre os professores, o SEV foi extinto no final de 1969. Havia tempos criticava-se o fato de seu custo ser muito alto, tanto que a unidade de São Caetano do Sul, inaugurada em 1968, já não contava com o tempo integral.

Nas décadas seguintes, no entanto, os ecos da experiência foram absorvidos por outras escolas. No final dos anos 70, Maria Nilde Mascellani deu uma consultoria ao Colégio Equipe, de São Paulo, onde havia um ambiente de liberdade e estímulo à reflexão pouco comum à época.

Segundo Lucília Bechara, o grande legado do Vocacional que levou ao Vera Cruz foi a visão da aprendizagem, construída com a abertura de uma escuta. “Aprendi a ouvir o aluno e a repensar o planejamento a partir desse diálogo. Havia um trabalho em grupo entre professores e alunos que depois vi ser muito difícil de realizar sem que os professores façam entre eles”, relata.

Hoje, por mais que o próprio Vera Cruz faça trabalhos com a comunidade similares aos que existiam no Vocacional, Lucília crê ser difícil a mesma integração. Para Esméria Rovai, essa interação é fundamental. “Não dá para isolar os problemas que cercam os alunos e fazê-los estudar só o que há nos livros. É preciso que eles tomem contato com a realidade para que a escola possa formar sujeitos que ajudem a buscar soluções para a sociedade”, acredita.

– Site da Associação Gvive (reune depoimentos, filmes e estudos sobre o SEV):




www.vocacional.org.br





– Ensino Vocacional, Uma Pedagogia Atual, org. de Esméria Rovai (Cortez Editora, 192 págs., R$ 30)

– Os Ginásios Vocacionais, de Angela Tamberlini (Ed. Annablume, 178 págs., R$ 18)




Ecos ainda presentes




“Corria um boato entre os alunos de que aquela havia sido uma escola-modelo, uma referência no estado de São Paulo. Eles achavam impossível que isso tivesse acontecido”, conta o arquiteto Paulo Ângelo Martins, turma de 1968 do Vocacional Oswaldo Aranha e um dos mais ativos membros da Associação Gvive.

Um dos primeiros trabalhos da associação foi o de recuperar a memória e a filosofia do Vocacional para os estudantes de hoje. Em parceria com a direção da escola, fizeram apresentações e perguntaram aos alunos o que eles gostariam de fazer juntos.

Sinal dos tempos, ouviram de muitos deles que é necessário haver mais autoridade do professor. Para estimular a participação dos estudantes, a Gvive comprometeu-se a organizar as eleições para o grêmio, doou um computador para a biblioteca e está ajudando na reforma física do prédio, onde conta com uma sala.

“Nosso objetivo é interferir na educação, fazer com que a experiência do Vocacional seja discutida entre os educadores e lutar por um ensino público transformador, como aquele que tivemos”, diz Martins.

Para a pedagoga Sônia Dreyfuss, da turma de 1964, o trabalho em equipe foi a marca principal de sua vivência como aluna. “Exercíamos papéis diferentes, alternados, com todos experimentando todas as tarefas”, diz. O engenheiro Paulo Simon recorda fatos bem distintos entre si: a visita à fábrica de tornos da Romi, em Santa Bárbara d´Oeste, e as aulas de economia doméstica, quando aprendeu a pregar botões. “Por causa disso, não criei o mito de que costura é coisa de mulher.”

Julieta Maroni, hoje dentista, chegou ao Oswaldo Aranha em 1972, quando alguns ecos do Vocacional ainda se faziam presentes. Foi presidente da Aliança Juvenil de Amigos da Natureza Oswaldo Aranha (Ajanoa), que promovia excursões para a Serra do Mar, Represa de Guarapiranga, mangues e outros locais para estudar o meio ambiente. “Quem estudou no Oswaldo Aranha, independente de época, tem uma grande identidade”, diz em referência ao espírito investigador instilado a partir da proposta do Vocacional.






Escola pública em debate


C

erca de dois anos antes de sua morte, ocorrida em dezembro de 1999, a educadora Maria Nilde Mascellani chamou seus ex-alunos ligados à área de comunicações e fez uma confidência: gostaria de fazer um filme sobre os ginásios vocacionais.

“Ela juntou um grupo de umas 15 pessoas que se dividiram para fazer pesquisas em várias áreas, como fazíamos 40 anos atrás. No começo, houve muita empolgação. Mas, infelizmente, no estágio em que estávamos, não havia tempo para tamanha dedicação”, relembra o cineasta Toni Venturi (de
Cabra-Cega

e
O Velho

), que ingressou no Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha em 1967.

A idéia, no entanto, ficou arquivada em um escaninho de projetos futuros. No ano passado, Venturi foi procurado pela roteirista e também ex-aluna Sylvia Lohn, que tinha um argumento para um filme de ficção sobre o Vocacional. Convenceu-a de que o documentário seria o gênero mais apropriado para a empreitada.

A dupla aproveitou os almoços mensais que a Gvive promove desde agosto passado para colher depoimentos de ex-professores, ex-alunos e estudiosos. No momento, conta com 10 horas de material gravado em vídeo digital e projeta veicular
Vocacional: Uma Aventura Humana

(título provisório) no início de 2007.

O filme se destina à exibição em emissoras públicas e educativas, escolas e secretarias da educação. “Queremos não só resgatar a experiência humana e pedagógica do Vocacional, mas trazer à tona o debate sobre a escola pública e, através de um exemplo rico, elevar a auto-estima do professor”, diz Venturi.

Além dos depoimentos, distribuídos em blocos temáticos, o filme trará também trechos de um documentário produzido nos anos 60, no auge da experiência, por alunos da Escola de Comunicações e Artes da USP. Disponível no site da Gvive (


www.vocacional.org.br



), o material mostra um pouco das atividades cotidianas dos alunos, como as oficinas de artes industriais, artes plásticas, economia doméstica e práticas comerciais, depoimentos de alunos, professores e de Maria Nilde Mascellani.

No documentário a ser lançado no ano que vem, Venturi e Sylvia ainda não decidiram como vão narrar as próprias experiências, mas têm uma certeza. “Será o mais pessoal dos meus filmes. Vou mergulhar no meu próprio passado. Ainda não sei se farei um depoimento ou a narração com minha própria voz”, diz Venturi.



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