Lazer levado a sério

Escolas aproveitam o período de intervalo para promover atividades lúdicas, difundir valores e incentivar a sociabilização

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Mal o sinal toca e os estudantes saem em disparada rumo ao pátio. Para os menores, é hora de gastar energia. Para os maiores, de pôr a conversa em dia. Para todos eles, a chance de exercitar a liberdade longe das carteiras da sala de aula. A hora do recreio é um momento de lazer — o que não quer dizer, entretanto, que ela não envolva aprendizado. Sem perceber, as crianças e os jovens continuam agregando conhecimento e trocando experiências.








 Renato Stockler





 Na Escola Santo Inácio, crianças de  2 e 3 anos brincam em corredor de sensações,

com cama elástica, painel de cores e sons e paredes de várias texturas


“O recreio é um espaço para a educação não-formal, em que os alunos aprendem valores importantes como solidariedade e amizade, além de ser momento de grande sociabilização”, afirma a psicanalista Isabel Kahn, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.Um bom recreio, garantem os especialistas, não pode ter atividades obrigatórias nem a intervenção direta dos professores o tempo todo.

“É um tempo para o estudante relaxar, para o livre expressar. É claro que as crianças menores precisam de uma direção, mas isso não significa que o professor deva estar sempre junto direcionando as atividades”, diz Isabel. “Ele pode, por exemplo, ter organizado um espaço para atividades e brincadeiras livres.”

Na Escola Santo Inácio, na zona sul da capital paulista, o intervalo é também para o descanso dos professores. Lá, até a 4ª série do ensino fundamental, as crianças são acompanhadas pelos inspetores e por estagiárias, obrigatoriamente estudantes de pedagogia. “Elas são responsáveis pelas atividades e brincadeiras preparadas por nossa equipe”, explica a diretora, Adriana Cury. A partir da 5ª série, os adolescentes são supervisionados apenas pelos inspetores.

“Muitos dos nossos professores aproveitam o recreio para bater um papo informal com os estudantes. Para nós, é uma excelente forma de avaliar a sociabilização e também de passar orientações quanto à alimentação”, afirma Adriana. Para as crianças de 2 e 3 anos, a escola inaugurou no começo deste ano o Corredor das Sensações. Projetado por uma arquiteta, ele funciona como uma espécie de circuito que inclui túnel, cama elástica, painel de cores e de sons, e parede com vários tipos de texturas.

Instalado de uma ponta a outra do pátio, o corredor é muito utilizado durante o recreio. “É um momento de lazer que pode ser enriquecido com elementos que o tornem mais significativo no que diz respeito às relações, à cultura, ao desenvolvimento corporal e às novas experiências”, reitera Adriana.

A equipe do Colégio Pentágono, na zona oeste paulistana, também acredita nesse princípio e oferece aos estudantes o Ludocross, circuito com brinquedos de parquinho voltado para crianças de 1ª à 4ª séries. Mas o que faz sucesso mesmo, desde o ano passado, é o recreio dirigido. Com o resgate de músicas e brincadeiras folclóricas, principalmente aquelas que costumavam ser vividas na rua, como amarelinha, corda, elástico, mãe da rua e corre-cotia, os professores descobriram uma forma de diminuir a agressividade de alguns alunos.

“Percebemos que as crianças só brincavam de lutar porque não conheciam outras formas de brincar”, conta uma das coordenadoras pedagógicas e educacionais do colégio, Adriana Bulbozas Melo. “Agora, elas extravasam a energia nessas brincadeiras.” Os alunos são acompanhados pelas auxiliares de classe, mas só participa das atividades quem quer.

“O intervalo é deles e, por isso, nada é imposto, mas isso não quer dizer que o trabalho pedagógico pare”, afirma. “Nos preocupamos, por exemplo, em misturar turmas. Quando há algum problema, discutimos nas assembléias de classe com todos juntos. É na hora do lanche que se aprende, sem perceber, valores como a tolerância.” Isabel aprova a mistura de turmas e acredita que o papel dos educadores durante o intervalo não pode ser o de apenas “vigiar”, mas o de orientar e de propor desafios. “Principalmente com os pequenos, eles devem também intermediar as diferenças.”

No Colégio Farroupilha, em Porto Alegre (RS), desafio é o que não falta. A escola tem uma equipe de recreacionistas que se encarrega das atividades do intervalo. São estagiários de educação física que propõem brincadeiras de acordo com cada faixa etária. Até a 4ª série, as atividades vão desde trabalhos com tinta e jornal até jogos como queimada e cabo de força. A partir da 5ª série, elas se concentram em esportes como basquete e futebol.

“Os recreacionistas só não atuam no ensino médio, mas fazem tanto sucesso que suas atividades vivem concorridas”, diz a coordenadora do ensino fundamental I, Maria Leonor Silva.Outra preocupação do colégio é com a alimentação na hora do lanche. Em trabalho conjunto com a cantina, os alimentos mais saudáveis, como sucos e barras de cereal, são expostos à frente dos menos nutritivos e mais calóricos, como refrigerantes e chocolates. “Nosso trabalho é também o de dar orientação nutricional e ensiná-los a fazer a escolha certa.”

Na Escola Play Pen, em São Paulo (SP), a preocupação com a hora do recreio é tão grande que os professores acompanham os estudantes e só depois tomam seu lanche. “O intervalo é um dos momentos mais importantes do nosso projeto pedagógico”, conta a educadora Célia Tilkian. “O papel no professor, nesse momento, é o de observar, já que as atitudes dos alunos no recreio podem ser diferentes das da sala de aula. Ele só intervém, no entanto, se percebe algum problema, como a não socialização.”

Se a observação direta funciona com as crianças, com os adolescentes ela deve ser discreta. “Para eles, o recreio é um importante momento de interação e de privacidade”, diz Isabel. “É importante, no entanto, ter regras claras estabelecidas. A escola precisa dizer se é permitido falar no celular ou namorar no pátio, por exemplo.”

É o que faz o Colégio Santa Cecília, em Fortaleza (CE). Ninguém pode sair do colégio no intervalo por questão de segurança, o uniforme é obrigatório até a 8ª série, fumar é proibido, pode-se usar o celular durante o recreio (a escola tem até orelhão para os estudantes) e o namoro é permitido. “Eles podem namorar porque faz parte da adolescência. Podem andar de mãos dadas, se abraçar, mas não sentar no colo ou dar beijos escandalosos”, explica a coordenadora de 5ª à 8ª séries, Gleides Diógenes. “É um namoro supervisionado.”

No Colégio Ítaca, em São Paulo (SP), os alunos também não podem sair do colégio nem fumar. Quando algum problema ocorre, os próprios professores intervêm, já que a escola optou por não ter bedéis. “Somos nós mesmos que cuidamos do intervalo”, conta o coordenador de ensino fundamental, Flávio Cidade. “Da 5ª série até o fim do ensino médio, os professores ‘estão’ pelo recreio. Observam o que acontece e só ‘aparecem’ se há algum acontecimento grave.” Às sextas-feiras, há sessões de vídeo e shows organizadas pelos estudantes. Já as crianças gostam mesmo é de correr, de jogos de cartas e de brincadeiras de casinha, diz Flávio.

“Incentivamos brincadeiras como peteca ou jogo de xadrez, mas elas têm liberdade de escolha.” Como a sociabilização é um dos itens importantes no colégio, os professores ficam atentos ao grupos ou aos isolamentos. “Sabemos que uma criança passeando ou tomando lanche sozinha não é obrigatoriamente ruim se ela não estiver triste. Pode ser apenas uma opção. Acreditamos que sempre é possível ensinar em um intervalo, seja em situações de conflitos, de isolamento ou em atividades culturais, mas o recreio, para nós, é prioritariamente para brincar, conversar, relaxar e fazer amigos.”




Reportagem: Daniela Tófoli





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