Laura Monte Serrat Barbosa

Se há remédio, remediado está

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Nos últimos anos, tanto no trabalho psicopedagógico que realizo na clínica, quanto no trabalho junto a instituições escolares, tenho testemunhado as conseqüências do retorno de uma explicação organicista sobre o processo de aprender.





Sabe-se que o conhecimento e a ciência constroem-se a partir de confrontos entre posições opostas ou diferentes, que resultam em novas sínteses e tendem a chamar nossa atenção para aspectos que estão sendo esquecidos nas abordagens do cotidiano.





No final do século XX e no início do século XXI, o cérebro passou a ter um lugar especial como objeto de estudo de várias ciências. Aquelas que estudam o comportamento humano buscam compreender as relações que as ações humanas possuem com o funcionamento cerebral e, muitas delas, estudam a intervenção química nesse funcionamento e seu resultado na conduta do ser humano.





Os avanços tecnológicos permitiram a criação de medicamentos para mudar o curso de um comportamento; hoje, já existem remédios para ajudar na memória, para transformar a tristeza em alegria, para acalmar os agitados, para relaxar os tensos, para concentrar os desatentos, além de outros.





Se esses medicamentos interferem no funcionamento cerebral e possibilitam a mudança de condutas, considerando-se também que aprender modifica a conduta das pessoas por permitir a ampliação de esquemas de aprendizagem e a construção de estruturas, percebe-se que, em muitos casos, os medicamentos estão substituindo o processo de aprendizagem de crianças, adolescentes e adultos.





Os seres humanos estão cada vez mais artificiais. Parece que estão sendo monitorados
para resistir um tempo ao qual, de modo espontâneo, não seria possível resistir; para sentir sentimentos que, de verdade, não sentem; para controlar seu apetite, como se não sentissem fome, nem vontade de comer; para se movimentar quando sua vontade é de parar; para parar quando sua vontade é de se movimentar.







Em alguns casos, a tecnologia medicamentosa permite uma terapêutica que auxilia os sujeitos a superarem suas dificuldades; porém, no que se refere às dificuldades de aprendizagem e às dificuldades com a aprendizagem, nem sempre a terapêutica por meio de remédios é eficaz.






No mundo do instantâneo, parece ser mais confortável e mais ágil medicar crianças muito pequenas para que prestem atenção, por exemplo, do que aguardar que elas aprendam a prestar atenção como resultado de uma interação. Interação essa, na qual os pais também prestam atenção nelas, na qual o tempo de dedicação a uma tarefa pode ser ampliado, paulatinamente, na qual a criança é estimulada a aprender o que é capaz de aprender.







O mundo atual, aberto 24 horas por dia, sem limites, inclusive para os adultos, serve a uma concepção capitalista de relações humanas. Desde que acorda até que se deita, o indivíduo é colocado à prova e manipulado, para que sinta necessidade de instrumentos plenamente desnecessários.







O movimento é rápido, mas tão rápido, que as crianças precisam aprender coisas inadequadas para sua idade. Aos quatro anos, em vez de investir no corpo, são estimuladas a permanecer sentadas, “assistindo” à televisão; ao jogo eletrônico, no qual pensam interferir, mas o que podem fazer já está programado; em alguns casos, também à professora, a qual senta em círculos com elas e pretende que, com essa idade, fiquem atentas mais tempo do que dão conta.







Em muitas escolas, aos cinco anos, já precisam estar dominando a leitura e a escrita, inclusive usando a letra manuscrita. Aos seis anos, já devem estar lendo e interpretando longas histórias. Aos sete, já devem estar na segunda série, dominando a ortografia, sem falhas, e desenvolvendo um ritmo acelerado de leitura, escrita e cálculo. Fazem isso porque estão, desde cedo, preparando-se para o vestibular.







As crianças que destoam desse quadro são encaminhadas aos consultórios, começam a receber os mais variados rótulos, preocupam seus pais e são encaradas como doentes. Começam a ser medicadas para cumprirem as expectativas que caem sobre elas.







Não se percebe, no entanto, que a criança de quatro anos que não pode investir no seu corpo e no seu movimento, que é convidada a conter sua energia, apenas para ouvir, deixa de desenvolver sua capacidade de atenção, já que tudo lhe chega pronto; deixa de desenvolver sua capacidade de coordenar os movimentos, porque fica por muito tempo sentada; deixa de desenvolver sua capacidade de simbolizar, pois já é impelida a entender imagens como se fossem a realidade. Entretanto, aos cinco anos, já é convidada a dominar a escrita manuscrita, a leitura, a contagem, as operações aritméticas e outras. Como não consegue, não só por não ser o momento para tudo isso, mas por não ter realizado o que era necessário que realizasse aos quatro anos, tal criança passa a se agitar, a reagir ao abandono dos pais e aos medos que possui – da confusão, do ataque e da perda.







A ansiedade aumenta na medida em que as exigências também aumentam; porém, o adulto que espera de uma criança de cinco anos que ela leia, interprete e calcule é o mesmo que evita que ela se frustre, protege-a como se ela não pudesse se defender, alimentando a heteronímia, a infantilizarão e o individualismo. Então, tem diante de si uma “pessoinha” que é estimulada a ter todas suas necessidades atendidas, como um bebê; é regida pelos prazeres da vida; é convidada, aos cinco anos, a continuar no egocentrismo dos dois anos; é cercada de mimos, sem limites. Paradoxalmente, essa mesma “pessoinha” é exigida pela vida escolar a se desenvolver como uma criança mais velha.







Isso parece enlouquecedor! Algumas crianças de hoje, para não enlouquecerem, estão procurando saídas que, na maioria das vezes, refletem-se nos seus comportamentos.






Algumas optam pela primeira situação: continuam bebês; por isso, não se disponibilizam a aprender e, quando isso lhes é colocado como uma necessidade, podem regredir ou agredir.






Outras escolhem a segunda opção e passam a exigir de si mesmas mais do que podem dar, desenvolvendo comportamentos rígidos, repetitivos, que lhes ajudam a se organizar para não se perder. Com isso, passam a querer assumir o controle de tudo que lhes é apresentado, para que não tenham surpresas e tenham de lidar com o inusitado. Desejam controlar, inclusive, os pais, a casa, a professora e a escola.







Há aquelas que tentam integrar esta dicotomia que lhes é colocada socialmente: ser bebê ou ser criança grande; fazer o que quer ou aprender o que a sociedade quer; mamar ou ter de resolver problemas aritméticos; fazer birra para comprar ou compreender que não se pode ter tudo o que deseja. Essas acabam, muitas vezes, desenvolvendo um comportamento evitativo, entrando pouco em contato com as duas situações, “borboleteando” entre elas, denotando um comportamento desatencioso, hiperativo, entre outros.







Como educadores, pais e professores não estão conseguindo perceber o paradoxo, pedem ajuda para a psicologia, a medicina, a psicopedagogia e para tantas outras áreas. Quando os profissionais dessas áreas fazem uma leitura, orientados apenas pelo funcionamento do organismo, do cérebro, sem lembrar que o cérebro é de uma pessoa, que a pessoa faz parte de uma família, que tem uma história e que está mergulhada numa cultura, na qual existem determinados tipos de escola e de método educativo, a “medicalização” acontece, fatalmente. Nem sempre, o rótulo que a criança passa a portar vai torná-la mais humana e mais capaz de enfrentar os problemas do mundo.







Por outro lado, quando a dificuldade é lida em todas as suas relações, é compreendida como sintoma de um complexo que vai além do funcionamento de um cérebro, pode-se lançar mão “medicamentos” mais humanos, que dependem de um investimento de outra ordem:






– pílulas de atenção dos pais e das mães, em momentos escolhidos especialmente para isso, no mínimo uma vez ao dia;






– uma colher de xarope de compreensão de que aprender é um processo (esse medicamento deve ser ministrado aos adultos que exigem das crianças mais do que o seu desenvolvimento permite);






– torrões de açúcar que baixam a ansiedade dos pais em relação à aprendizagem escolar (os pais devem fazer uso do produto somente uma vez por semana, pois é concentrado);






– doses preparadas com carinho e moderação de televisão e jogos eletrônicos (as crianças não podem ficar expostas a esses estimulantes/anestésicos mais do que uma hora por dia, até os seis anos de idade, já que ambos podem intervir negativamente nas aprendizagens simbólicas mais complexas, como a leitura e a escrita, e interferir sobremaneira no desenvolvimento da atenção concentrada);






– 45 gotas de brincadeiras, no mínimo três vezes ao dia; de preferência, com crianças de sua idade e sob observação carinhosa do pai ou da mãe (a terceirização desse produto, para desencargo de consciência, não faz o efeito desejado);






– chá de resgate de valores humanos, do tempo dos tataravôs, composto de ervas de alteridade, de disponibilidade, de delicadeza, de respeito e de solidariedade, no mínimo duas vezes ao dia, para toda a família.








Atenção!

Para a indicação desses medicamentos, é preciso fazer uma tomografia computadorizada da dinâmica familiar e uma ressonância magnética da escola, com a presença de contraste, para que seja possível perceber a relação entre discurso educacional proferido e ação cotidiana.







Dessa forma, não será possível dizer: “Se há remédio, remediado está”, pois existem muitos tipos de medicamentos e, para que qualquer um deles faça efeito, é preciso que seja ministrado a partir de um diagnóstico contextualizado e da troca de conhecimentos entre os profissionais das diferentes ciências, voltados para a compreensão do processo de aprender nos seres humanos.







Embora se saiba que a medicação auxilia algumas crianças a aprender, é necessário humanizar a tecnologia e utilizá-la de forma mais adequada quando os recursos da interação e das relações humanas estiverem esgotados.






Laura Monte Serrat Barbosa é pedagoga e psicopedagoga





 




 





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