Laboratório de experimentações

Instituições que oferecem cursos de engenharia, moda, arquitetura e design começam a trabalhar com fab labs para prototipar projetos e dar vazão à criatividade dos alunos

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Não é de hoje que as instituições de ensino são cobradas para oferecer mais atividades práticas para contrabalançar a extensa carga teórica. A implantação de laboratórios, a realização de estágios supervisionados e a promoção de atividades externas são algumas respostas a essas demandas. A elas se juntam agora os fab labs, os laboratórios de fabricação digital que estão se disseminando por instituições do mundo inteiro.

Equipados com uma série de máquinas e ferramentas, esses espaços possibilitam aos alunos prototipar ideias e projetos. Um estudante de moda ou design, por exemplo, pode desenhar um produto e testar sua execução quase de forma simultânea. A mesma coisa vale para um estudante de arquitetura ou engenharia que esteja desenvolvendo uma solução para um projeto de construção civil.

De acordo com Heloisa Neves, professora de engenharia do Insper e uma das pioneiras do movimento fab lab no Brasil, a origem desses ambientes remonta à filosofia norte-americana do “faça você mesmo”, segundo a qual as pessoas constroem objetos e eletrodomésticos em suas próprias garagens. Mas, apesar das raízes históricas, a professora considera o aspecto colaborativo dos fab labs uma grande novidade já que, por meio da internet, os fazedores ou makers podem trocar informações com gente do mundo todo.

Por enquanto, poucas instituições brasileiras contam com laboratórios próprios. Segundo Fábio Garcia Reis, diretor da área de Inovação Acadêmica e Redes de Cooperação do Semesp, os recursos necessários à sua criação variam de R$ 150 mil a R$ 500 mil. No entanto, apesar de altos, os investimentos podem ser recuperados, por exemplo, por meio de parcerias com empresas, com vistas ao desenvolvimento de produtos de interesse comum.

Também é possível elaborar objetos que possam ser patenteados e comercializados ou mesmo disponibilizar o espaço para treinamento de profissionais de fábricas, como das indústrias de papel ou automobilística. Outra possibilidade é fazer o investimento conjunto com outras IES. “Independentemente do modelo de funcionamento, as ações precisam se integrar à proposta de ensino da IES, o que pode exigir mudanças no projeto pedagógico e investimentos na qualificação docente”, alerta Reis.

Como avaliar a necessidade
Pela expertise que conquistou na área, Heloisa, do Insper, costuma ser consultada por outras IES interessadas em aderir ao movimento. E embora seja uma entusiasta da ideia, a professora explica que a criação de estruturas próprias é recomendada somente às escolas que efetivamente farão uso do espaço. Caso contrário, o ideal é atuar em parceria com um laboratório existente.

Também é importante dimensionar o uso que será feito do ambiente. “Nem todas as tecnologias de fabricação digital são úteis para equipar um laboratório didático”, explica Paulo Eduardo Fonseca de Campos, professor do Departamento de Projeto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) e idealizador do fab lab da instituição, o primeiro do gênero no Brasil. Heloisa também participou desse projeto como apoiadora.

Antes de adquirir os equipamentos, em 2011, a instituição considerou os custos de manutenção e substituição de peças das máquinas e priorizou aquelas que ofereciam gastos baixos para ambas as tarefas. Além disso, escolheu máquinas versáteis. “Se a instituição adquire uma impressora que só trabalha com gesso, fica obrigada a comprar esse insumo e não pode manipular protótipos em acrílico, MDF ou metal”, detalha Campos. A faculdade também investiu em equipamentos robustos com capacidade de funcionar o dia todo por um total de mil estudantes.

Outra preocupação foi assegurar que as máquinas seriam, de fato, assimiladas pelos alunos. Com essa premissa em mente, a FAU organizou o laboratório e a dinâmica de aulas de modo a incentivar o protagonismo dos estudantes.

O Instituto Europeu de Design (IED), por sua vez, optou por fazer parceria com um fab lab independente, o Garagem Fab Lab, para oferecer uma disciplina prática aos alunos dos cursos de produto, moda, design gráfico e interiores. A aula, que faz parte da matriz curricular, é planejada conjuntamente com os professores do parceiro, que são responsáveis por ministrá-la. “No laboratório, os alunos percebem como a emergência de novas técnicas está mudando o jeito de fabricar objetos”, explica Andrea Bandoni, coordenadora do curso de design do IED.

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A opção pela parceria se deu porque a instituição queria que os alunos adquirissem vivência no universo maker. “Nesse modelo de trabalho, os estudantes saem do ambiente universitário e percebem que há um lugar onde podem fazer protótipos de forma simples. Com isso, ganham autonomia para colocar em prática suas ideias”, justifica. Isso significa que muitos alunos utilizam o espaço para desenvolver projetos pessoais. Neste caso, são eles que arcam com os custos de utilização do espaço. Agora que os estudantes têm familiaridade com as máquinas, o IED avalia abrir um fab lab próprio, adianta Andrea.

Carolina Cardoso, diretora executiva do Garagem Fab Lab e uma das professoras no curso oferecido ao IED, considera que a grande vantagem da iniciativa é mostrar aos alunos que eles podem errar e que o mais importante nesse contexto é o processo de fabricação – e não necessariamente o resultado final. “Dentro do movimento maker estamos acostumados a trabalhar transdisciplinarmente e queremos levar essa filosofia para o ambiente universitário”, garante. Dessa forma, as aulas no Garagem reúnem estudantes de diferentes cursos do IED, que são agrupados conforme conhecimentos complementares.

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Um desses alunos é Hugo Wilton Cafassos Neto, de 31 anos e graduando no curso de design de produto. Para ele, o benefício do fab lab é aproximar o campo teórico do prático e viabilizar experimentar de forma mais rápida os projetos desenvolvidos digitalmente. Neto conta que, tradicionalmente, o desenvolvimento dos protótipos funciona como uma etapa posterior à criação do projeto, enquanto os fabs labs permitem que a produção aconteça em meio ao desenvolvimento da ideia, viabilizando experimentações com materiais que podem impactar sua concepção. “O contato com a materialidade dos objetos que projetamos ajuda a ter a insights e a encontrar soluções para problemas do desenvolvimento”, garante.

Questão de ensino
Outra vantagem desses laboratórios é a possibilidade de trabalhar com novas metodologias de ensino. Depois de realizar um curso em Barcelona e das experiências que acumulou, Heloisa Neves passou a trabalhar primeiro com a prática para depois ensinar a teoria. Iniciada a primeira turma no Insper, Heloísa conta que os estudantes resistiram à metodologia. “No começo do curso, eles sentem medo de não estar aprendendo direito, mas logo percebem que adquirem muito mais informação do que quem trabalha apenas com aulas teóricas”, diz.

Isso foi o que aconteceu com Hugo Silva Pereira Mendes, de 18 anos e aluno do curso de engenharia da computação. Quando ele entrou na instituição, confessa que achou estranha a dinâmica de aulas baseadas nas atividades em laboratório. Hoje, Mendes considera a estrutura do fab lab essencial à sua formação. Como parte das atividades letivas, o graduando desenvolveu o protótipo de um alarme infravermelho residencial.

Mendes faz parte do grupo de alunos de engenharia que, logo no primeiro semestre do curso, entra no laboratório para desenvolver dois projetos de complexidade média. O primeiro deles é um robô de 3 a 5 cm, que precisa correr para a frente e demanda dos estudantes o manuseio da impressora 3D. Somente após a conclusão desse primeiro projeto, Heloisa entra com a parte teórica. “Com essa metodologia, os alunos são instigados a aprender, correndo atrás do conhecimento de que precisam para conseguir elaborar o robô”, assegura. O segundo projeto é um brinquedo infantil para crianças de 7 a 8 anos. Quando terminado, o objeto é apresentado em um colégio de maneira que as próprias crianças possam avaliar seu funcionamento.

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Uso compartilhado
As instituições que mantêm fab labs contam ainda com mais um benefício: a possibilidade de estreitar o relacionamento com a comunidade e ser berço de projetos cujo alcance vai muito além do ambiente acadêmico. O laboratório do Insper é utilizado principalmente pelos graduandos de engenharia. Porém, o espaço também recebe estudantes de outras áreas e pessoas de fora da instituição. Desse uso nasceu um braço robótico criado como parte de um projeto de doutorado. Para utilizar o laboratório, basta que o interessado agende um horário e traga seus insumos. “O espaço conta com técnicos que fazem a supervisão de uso das máquinas e garantem que as pessoas cumpram os requisitos de segurança”, detalha Rodrigo Arruda, coordenador do espaço.

O laboratório da FAU também abre suas portas ao público uma vez por semana. Nessas ocasiões, os interessados podem levar projetos sem fins lucrativos para serem desenvolvidos com o apoio dos técnicos. Outra ação que envolve a comunidade externa é a parceria com o ZL Vórtice, laboratório de intervenções urbanas localizado em Cidade Tiradentes. A aliança prevê apoio para o desenvolvimento de calçadas drenantes, cujas fôrmas são fabricadas digitalmente e a tecnologia disponibilizada à população por meio da rede Fab Lab Livre, criada pela Prefeitura de São Paulo (leia no quadro à esq.). Há ainda o apoio a escolas públicas e particulares, sendo que um dos projetos mais recentes nesse sentido foram engrenagens de robôs criadas em conjunto com uma escola pública de Taboão da Serra.

Instituição privada de interesse público, mas sem fins lucrativos, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) conta com um fab lab desde 2014. Localizado no Rio de Janeiro, o laboratório tem como missão difundir e permitir que a sociedade tenha acesso aos processos de manufatura digital. Além do fab lab, o Senai conta com sete Laboratórios Abertos espalhados pelo Brasil, que oferecem máquinas de manufatura digital e outras tecnologias industriais de ponta. Fábio Pires, especialista em desenvolvimento industrial do Senai Nacional, explica que os Laboratórios Abertos possuem equipamentos mais robustos, que viabilizam o desenvolvimento de protótipos avançados.

A rede de Laboratórios Abertos, que deve contar com mais sete unidades até 2017, funciona dentro de universidades ou escolas técnicas e também pretende estimular o empreendedorismo entre a população. “Queremos mostrar que há uma opção nova no mercado de trabalho: o empreendedorismo a partir de ideias inovadoras”, destaca Pires.

Em 2015, o Senai atendeu cerca de 400 usuários. Dos projetos desenvolvidos, 54 tinham como objetivo entrar no mercado como empresas. Destes, 23 receberam algum tipo de investimento via iniciativa privada ou editais de inovação, totalizando R$ 4,25 milhões em atração de recursos. Seja nos laboratórios abertos ou nos fab labs, Pires considera que prevalece como primordial a função de criar redes. “O mais importante nesses espaços são as interações criadas entre os usuários e parceiros dispostos a apoiar projetos”, avalia.

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