Quem foi Joyce McDougall, um dos principais nomes da psicossomática

Psicanalista neozelandesa transitou por vertentes teóricas distintas e abordou temas espinhosos, entre eles as neossexualidades

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Usando várias áreas do conhecimento, Joyce McDougall propõe que o olhar para a elaboração psíquica se dê por meio da reconstrução de um drama que tem o corpo como palco (Foto: Shutterstock)

Usando várias áreas do conhecimento, Joyce McDougall propõe que o olhar para a elaboração psíquica se dê por meio da reconstrução de um drama que tem o corpo como palco (Foto: Shutterstock)

A psicóloga e psicanalista Joyce McDougall (1920-2011) se destaca como um dos principais expoentes do pensamento intelectual contemporâneo que envolve o entrelaçamento das diversas áreas do conhecimento. Capaz de transitar por vertentes teóricas distintas, estabeleceu um diálogo audacioso e profícuo entre autores franceses, anglo-saxões e norte-americanos, sublinhando a riqueza e a particularidade da linha teórica de cada um deles. Ressalte-se, porém, que McDougall concedeu total liberdade a seu pensamento, de maneira que não se furtou ao direito de questionar as concepções clássicas sempre que considerou necessário. Abordou temas espinhosos, entre eles as neossexualidades, adotadas por muitos adolescentes e jovens na atualidade.

Seus livros foram traduzidos em mais de dez línguas, entre as quais o japonês e o hebraico. Também deu conferências no mundo inteiro, até mesmo na Índia, convidada pelo Dalai-Lama, interessado na importância de Freud na cultura ocidental.

Joyce McDougall nasceu em Dunedin, na Nova Zelândia, para onde seu avô, um inglês chamado Carrington, emigrou após a falência da Estrada de Ferro Canadense do Pacífico. Os Carrington são provavelmente de origem francesa, oriundos da Normandia. Em 1950, Joyce, casada com o educador Jimmy McDougall, foi viver na Inglaterra, onde permaneceu até 1953. Logo após sua chegada à Inglaterra, Joyce escreveu aos analistas que conhecia por meio de suas leituras, entre os quais Anna Freud e Winnicott, para perguntar-lhes sobre as possibilidades de formação. O encontro com Winnicott, que a convidou a seguir seus seminários, foi marcante tanto pela personalidade do mestre como pela criatividade e originalidade de seu pensamento. Do encontro com Anna Freud, Joyce saiu vivamente impressionada. A filha de Freud aceitou-a para fazer formação em psicoterapia de crianças na Clínica de Hampstead.

Em 1953, Jimmy McDougall recebeu uma oferta de trabalho junto à Unesco em Paris, o que obrigou Joyce a interromper sua análise, sua formação psicanalítica e a deixar seu trabalho como psicóloga no Hospital Maudsley. Na França, começou a divulgar obras de autores anglo-saxões. Ela seguiu regularmente os seminários de Lacan, o que permitiu que confrontasse as ideias do psicanalista francês às de Winnicott. Outros autores importantes influenciaram seu pensamento: Melanie Klein, Margaret Mahler, Bion, mas sobretudo sua grande amiga de mais de trinta anos, Piera Aulagnier. Em meados da década de 1950, Joyce conheceu aquele que seria seu segundo marido, Sidney Stewart, um americano psicanalista e pintor residente em Paris.

O corpo como cenário teatral

A metáfora teatral – que ocupa lugar de destaque em toda a obra de McDougall – é utilizada como eixo norteador. Para ela, o trabalho de elaboração psíquica e intelectual envolve a reconstrução de um drama particular que tem como palco o corpo – ora apenas biológico, ora potencialmente representável por meio das palavras. Essa reconstrução depende da capacidade de o indivíduo aceitar a existência do inconsciente e de tolerar as frustrações inerentes ao próprio processo de desenvolvimento. A autora considera que todos os sintomas – neuróticos, psicóticos, perversos ou psicossomáticos – são criações infantis numa tentativa de autocura.

Dirigido a todos aqueles que se interessam pela história do corpo, e pelas suas ressonâncias orgânicas na construção da psicossexualidade, o trabalho de Joyce McDougall mostra como esse corpo pode ser o teatro de experiências penosas no começo da vida. Certos distúrbios orgânicos, como asma, colite, úlcera, hipertensão, alergias, problemas cardíacos, respiratórios e ginecológicos, entre outros, podem ter significação simbólica relacionada com as soluções ódio/amor do começo da vida: os fenômenos somáticos, longe de constituírem uma “imposição genética”, traduzem antes uma necessidade de defesa contra a dor psíquica literalmente indizível (e consequentemente somatizada).

O trauma da monossexualidade

No início da vida, a criança se depara com uma série de descobertas traumáticas: a diferença dos sexos; o perío­do edipiano, na sua dimensão homossexual e heterossexual, que a leva a desejar possuir os dois sexos. Segue-se, então, a maior ferida narcísica do ser humano: assumir sua monossexualidade e, num segundo momento, ter de se confrontar com a inelutável dimensão da morte que as escolhas provocam.

Dois conceitos centrais relativos às origens do eu sexual servirão de fio condutor em suas obras: a extensão do significado de bissexualidade psíquica e a profunda importância das fantasias relativas à cena primária. Por essas vias, serão analisados os sintomas psicossomáticos, as diversas formas de sublimações e criatividades, assim como a sintomatologia neurótica e as sexualidades chamadas “desviantes da norma-padrão”.

Alguns conceitos desenvolvidos por Joyce McDougall

Normopatia e desafetação

Cunhados a partir da descrição de distúrbios decorrentes, na maioria dos casos, de desarmonias no vínculo afetivo com a mãe – que provocam a exclusão do aparelho psíquico de representações associadas a sentimentos e emoções –, os indivíduos que estão, aparentemente, adaptados à realidade são considerados “normais”, mas não desenvolvem afetos ou vínculos significativos. É preciso salientar que esses distúrbios não provocam sintomas psicóticos, como delírios e alucinações. Em contrapartida, apresentam uma cisão entre a mente e o corpo e provocam doenças orgânicas, psicossomáticas. Para a autora, o afeto pode ser sumariamente eliminado do ego. Essa operação psíquica leva o indivíduo a negar os conteúdos afetivos repudiados, privando-o do acesso a grande parte de sua própria realidade interna e impedindo-o de entrar em contato com todas as nuances emocionais de suas experiências.

Vale ressaltar que, para McDougall, a mera adaptação à norma não deve ser entendida como o objetivo principal de qualquer trabalho psicanalítico ou educativo, pois, quando isso ocorre, as particularidades que conferem riqueza à existência humana tendem a ser reprimidas ou recalcadas. Seguindo esse raciocínio, é possível pensar que, para a psicanalista, os adultos devem se preocupar em conferir certo caráter subversivo às suas práticas de transmissão de saberes.

Neossexualidades

McDougall também introduziu o termo “neossexualidades” na literatura psicanalítica para fazer referência às orientações sexuais desviantes da norma-padrão. O termo em questão não possui qualquer conotação moral, pois designa as soluções ilusórias homossexuais ou heterossexuais criadas pelo indivíduo para superar conflitos decorrentes da ambivalência em relação à masculinidade e à feminilidade. Além disso, reforça que tais soluções são importantes para a manutenção da identidade do sujeito. De acordo com McDougall, muitas vezes a sexualidade é utilizada como droga na tentativa de eliminar angústias primitivas associadas ao temor da fragmentação do próprio ego. Esse quadro patológico pode ser observado principalmente em sujeitos que vivenciaram excessos ou carências parentais. Para ela, esses sujeitos precisam ser ouvidos, para que possam expressar em palavras suas subjetividades, para além da linguagem corporal.

Joyce McDougall lançou nova luz para a compreensão das raízes do erotismo feminino. Certa vez lhe perguntaram se existiam diferenças, no contexto do processo analítico, entre analisandas heterossexuais e homossexuais. Ela respondeu que, embora os sintomas clássicos sejam basicamente os mesmos, a queixa da mulher heterossexual está mais relacionada com uma incapacidade de obter prazer, enquanto na homossexual a queixa refere-se a dar prazer à parceira. Propõe que o desenvolvimento da feminilidade é mais complexo do que a evolução da masculinidade, já que depende não apenas da superação do conflito edípico, mas, sobretudo, da estabilização do narcisismo, da intensificação do prazer erótico e da utilização criativa das identificações homossexuais.

Perversão

A autora reserva o termo “perversão” a situações em que um sujeito impõe suas fantasias a outro que não o consente, ou que não é responsável. Em última análise, não é o ato em si que é desviante, mas sim, sob quais circunstâncias determinada prática deixa de ser uma simples variação da sexualidade adulta para tornar-se sintomática. A compreensão da perversão, então, se dá a partir da destrutividade que o sujeito estabelece em relação a si ou ao outro, e não como uma forma de prática sexual que não se enquadra naquilo que é chamado de normalidade. Se os padrões da sexualidade humana são criados, e não inatos, para compreender os diversos aspectos das escolhas sexuais deve-se levar em conta o complexo sistema de identificações e contraidentificações, assim como o discurso parental – consciente e inconsciente – sobre a sexualidade: é a partir da interpretação desses elementos e baseado no que a criança percebe dos conflitos sexuais e desejos (inconscientes) dos pais, que ela construirá sua psicossexualidade.

Para a psicanalista, a ética da psicanálise e das práticas educativas seria a de assegurar os fatores que contribuem para a sobrevivência psíquica dos seres humanos. Adotar essa postura como valor fundamental é, consequentemente, respeitar o equilíbrio de cada sujeito, por mais sintomático que possa parecer.

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