Jovens lideranças

Projetos educacionais e sociais ajudam estudantes a se integrarem às condições atuais do mercado de trabalho que favorece iniciativas empreendedoras

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Sérgio Rizzo




Rafaela da Silva Alves, diretora de turismo de Poço Redondo (SE), dedica-se a organizar os artesãos do município. Antes de ser convidada pelo prefeito a assumir o cargo, formou um grupo de teatro que só encena espetáculos relacionados à cultura da região. Tiago Baía comercializa cadernetas escolares. Seus principais clientes são empresas do distrito industrial de Manaus (AM), onde vive. O bom desempenho do negócio o levou a montar, em sociedade com uma indústria local, uma gráfica que deverá começar a produzir em agosto. Douglas Lima dos Santos trabalha na redação de uma revista mensal para jovens, sediada em São Paulo. Além disso, integra o seu conselho editorial, que se mantém quase diariamente em contato pela internet.

Descritos assim, esses três personagens não fazem nada que os diferencie no universo dos brasileiros economicamente ativos. A maneira de encará-los muda, no entanto, se lembrarmos que Rafaela, Tiago e Douglas têm, respectivamente, 18, 17 e 16 anos. Mais do que exemplos de jovens com aptidão precoce para a inserção na sociedade, eles representam três gotas de um oceano em formação que talvez altere, nas próximas décadas, o perfil socioeconômico do Brasil. A trajetória do trio, fruto de uma cultura empreendedora que se multiplica silenciosamente em todo o país, traduz experiências bem-sucedidas de desenvolvimento do protagonismo e do espírito de liderança entre jovens.

“Qualquer país que busque um desenvolvimento econômico sustentável não pode depender apenas do governo. Precisa se apoiar em uma sociedade empreendedora”, observa Enio Pinto, gerente da Unidade de Educação e Desenvolvimento da Cultura Empreendedora do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). A importância de disseminar o conceito de empreendedorismo entre os jovens está relacionada, na avaliação de Pinto, à dificuldade de criação de novas empresas de médio e grande porte, que respondiam, no passado, por grande parcela dos empregos. Há 20 anos, era comum que trabalhadores se aposentassem depois de 30 ou 35 anos na mesma empresa. Essa idéia de carreira estável foi transmitida por muitos pais a seus filhos, que desenvolveram expectativas irreais para a economia atual.

“Hoje, vivemos o fim da era do emprego. O que os jovens podem encontrar é trabalho”, explica Pinto. E trabalho, nessa perspectiva, tem a ver com a formação de micro e pequenas empresas. “Os 10 milhões de novos empregos estabelecidos como meta pelo governo federal poderiam ser gerados por cinco milhões de microempresas que tivessem, cada uma, um proprietário e um funcionário”, estima. Esse cenário otimista seria alcançado somente com uma ampla disseminação da cultura empreendedora, objetivo inicial das atividades desenvolvidas ou apoiadas na área de educação pelo Sebrae – que, além do serviço nacional, responsável pela política estratégica da instituição, mantém 27 unidades estaduais. “Nossa preocupação em treinar o futuro do país nasceu há cerca de seis anos, para combater a tendência cultural brasileira – que não é só da escola – de formar empregados. O jovem precisa saber que tem a alternativa de empreender”, diz.

Prática real – A Amapel, empresa de Tiago Baía, nasceu de um curso de quatro meses oferecido por uma parceria entre o Sebrae e a entidade americana Junior Achievement. Voltado à criação de novos empreendimentos, ele não permite simulações e obriga os alunos a desenvolver uma empresa real. Dos 170 mil estudantes que passaram pelo programa, 13% abriram seus próprios negócios. Raízes Nordestinas, um grupo teatral criado por Rafaela Alves, foi sua primeira ação depois de participar do curso Líder Cidadão, promovido pelo Sebrae com o objetivo de estimular o protagonismo em âmbito comunitário. “Nossa missão não é formar pessoas que necessariamente vão montar suas empresas, e sim desenvolver lideranças que possam atuar em suas comunidades, além de formar os chamados intraempreendedores, que vão trabalhar em grandes empresas e no governo”, afirma Pinto. Um “esforço de aproximação” do ensino formal, segundo ele, é o próximo objetivo do Sebrae.

O professor e consultor Paulo Alvarenga observa que, hoje, nem mesmo uma excelente formação acadêmica chega a ser um diferencial. “O que conta muito é a atitude empreendedora, e isso podemos desenvolver por meio de programas de incentivo”, diz. Ele é o responsável pelo projeto creScER Teen, dirigido a adolescentes de 12 a 17 anos. “É um programa vivencial, montado em ambiente diferente da sala de aula, motivando os jovens a conhecer todo o seu potencial e a capacidade de traçar rumos, ou seja, desenvolver desde cedo um projeto de vida”. Os resultados imediatos, segundo ele, são “as mudanças de comportamento em relação aos pais, familiares e amigos, respeito aos colegas de escola e, principalmente, valorização das amizades e dos estudos”. No médio prazo, Paulo diz que os jovens se mostram “mais focados naquilo que querem fazer no futuro, com vontade de trabalhar e com maior flexibilidade nas cobranças feitas pelos pais”.

A ênfase no ensino formal adquire outro caráter, entretanto, nas regiões em que a baixa escolaridade, associada à falta de emprego e de políticas públicas, tornou a população juvenil alvo de violência e de situações de vulnerabilidade. “A análise de estudos recentes aponta para a necessidade de investimentos em programas para a juventude que tenham como efeito o aumento de anos de estudo, buscando interromper o ciclo da desigualdade que empurra os jovens para o trabalho precário e desqualificado”, diz Ivana Boal, coordenadora do programa Jovens Urbanos, patrocinado pela Fundação Itaú Social e desenvolvido pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Dirigido a jovens de 16 a 24 anos que residem na periferia das regiões metropolitanas, o projeto busca o aumento da escolaridade por meio do estímulo ao retorno e à freqüência ao ensino regular ou supletivo.

A versão piloto de Jovens Urbanos foi desenvolvida na Brasilândia e em Campo Limpo, bairros de São Paulo (SP), com a participação de 480 jovens e 10 ONGs. “É importante ressaltar que os resultados estão em processo de avaliação, mas já podemos perceber a presença de importantes indicadores, como o aumento do repertório cultural e social dos jovens, significando maiores possibilidades de obtenção de trabalho, fortalecimento das ONGs com a participação ativa dos jovens a elas vinculados, elaboração de projetos de efetiva intervenção social e com a real possibilidade de transformação das realidades locais”, afirma Ivana.

O incentivo ao protagonismo é a meta de diversas outras ONGs, como a Associação de Apoio a Meninas e Meninos da Região Sé de São Paulo, que mantém o Projeto Viração, do qual faz parte a revista de mesmo nome, cujo responsável pela circulação é Douglas Lima dos Santos. “Não pensamos apenas em criar uma nova publicação dirigida ao jovem, mas em ousar nos canais de participação que ajudassem o público-leitor a ser público-participante, na dianteira do processo”, lembra o jornalista Paulo Lima, editor da Viração. “Daí surgiu a idéia de criar um conselho editorial jovem, formado por alunos de escolas públicas e particulares, de ensino fundamental e médio, que avalia toda a revista. Até a capa é decidida por meio de uma discussão na internet”, explica.

O Projeto Viração ganhou o prêmio de Valorizações Culturais da Prefeitura de São Paulo, concorrendo com cerca de 600 inscritos, foi semifinalista do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo (ao lado de publicações profissionalizadas como Capricho e Revista da MTV) e valeu a Paulo, por “promover o protagonismo juvenil no campo da educação e da comunicação”, o prêmio internacional de jornalismo oferecido pela organização Cuore Amico e pela agência de notícias Misna, de Roma (Itália). Agora, o êxito da revista em São Paulo motivou a criação de conselhos editoriais regionalizados em outras sete capitais. “Eles também captam recursos para que o projeto deslanche, com a publicação de encartes estaduais”, afirma Paulo.

A experiência de Douglas confirma a importância da iniciativa. “Para um jovem que vive numa grande cidade, é quase impossível imaginar o que anda acontecendo lá no interior de uma cidadezinha do Pará”, descreve. “De repente, percebo que tem uma capelinha lá, que assina a revista e se corresponde com a gente. É um ‘intercâmbio cultural permanente’, em que você sempre é professor e sempre é aluno. Não há alguém que não tenha uma história para contar, de uma situação ou de um aprendizado. Assim você está ajudando muito alguém que talvez nunca vá conhecer. Em minha opinião, protagonismo, jornalismo e educação são palavras que se encontram. O recado é para todo mundo: se preocupar com o próximo é se preocupar consigo mesmo. Não fique esperando alguém fazer alguma coisa por você, corra atrás”.



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