José Pacheco

O invasor: inexperiente ou não, ele desrespeita a escola

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Visito a Ponte, observando como a escola evolui na minha ausência. Converso com alunos que interiorizaram o projeto e são a garantia maior de que os novos professores conseguirão entendê-lo, para lhe darem continuidade. Os miúdos abrem-se comigo, manifestando senso crítico: “Parece-nos que os professores novos andam muito desorientados.

Precisam de alguém que os ajude a perceber como se trabalha na nossa escola.” “Por que dizeis isso?” – quis eu saber.

“Por exemplo, ainda ontem houve problemas com uma professora. No debate da tarde, o Rui deu a sua opinião sobre um assunto, mas uma professora nova disse-lhe para estar calado.” “E então?” – insisti.

“Então, professor Zé, o Rui respondeu assim: Eu fico calado, minha senhora. Mas o que eu disse tem de ficar na ata do debate. Nesta escola, nós sempre fomos ensinados a dizer o que pensamos.” A recente entrada de muitos professores deu origem a regressões. A Ponte está a passar por tempos difíceis. Mas a inexperiência dos novos professores não é o principal fator dos “desvios” que detecto. Há quem tenha “invadido” a Ponte com propósitos mesquinhos.

E, quando os invasores primam pela inteligência, discretamente conseguem degradar o delicado sistema de relações. Quando se afastam, remoem ressentimento e degradam a imagem social da Ponte, tanto quanto pode a maldade humana.

Os professores – como todos os seres humanos – são uma mistura do belo e horrível. Há algum tempo, um dos invasores ligou o seu “complicador”, provocando danos irreversíveis. Referiu-se a colegas, num tom que refletia um ridículo complexo de superioridade: “Com professores como os que temos, não é possível fazer um projeto.” Eu respondi: “Foram professores como os que desprezas que fizeram da Ponte o que ela é. E muito antes de teres chegado com as tuas brilhantes teorias e contraditórias práticas.

Nós não temos os professores que idealizamos.

Temos professores concretos, tão limitados e capazes como tu, como eu. Aceitemo- los como são.

Demos-lhes meios e o tempo de que precisam e…” Cortou-me a fala. Os invasores consideram-se tão competentes, que sobrevoam narcisicamente o reino dos mortais.

Apenas sensíveis aos seus argumentos, não dão qualquer chance de lhes explicarmos que o que é e o que pode ser coexistem, que a realidade é moldada por opções, e que os indivíduos são os projetos que decidirem ser.

Concordo com Erich Fromm: cuida-se do que se trabalha e trabalha-se o que se cuida. Esse “cuidar” dos outros, ajudando-os a refazerem-se, pressupõe uma responsabilidade voluntária e um dom que os invasores não possuem: respeito. Respeito (do latim respiscer) significa olhar para, possuir a capacidade de ver uma pessoa tal qual ela é. E, para respeitar, é indispensável conhecer. Seguindo a estratégia do cuco, que põe os seus ovos em ninho alheio, os invasores nada cuidam nem respeitam, porque nem sequer chegam a conhecer os seres que destroem, para afirmar a sua supremacia.



JOSÉ PACHECO

Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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