José Aristodemo Pinotti

secretário Municipal de Educação de São Paulo (SP)

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Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?




O principal problema da educação básica no Brasil é a qualidade. De certa forma conseguimos a universalização, mas a qualidade derrapa em péssimos resultados, basta ver os resultados do Saeb, do Pisa e do Saresp, em São Paulo, que nos últimos anos não melhoraram.




Muitas causas incluem nessa questão.




1) uma grande quantidade de crianças fica fora do ensino infantil. Dependendo dos Estados, mais de 60% ou 70% delas levam cicatrizes para o ensino básico que impedem a evolução de um processo mais eficiente;



2) os nossos professores são bons, entretanto eles não dispõem de um processo de educação continuada de boa qualidade, que deve ser feito na escola, baseado nos problemas da escola com ferramentas presenciais e a distância;




3) existia uma enorme flexibilidade para falta de professores (licença de curta duração, por exemplo), além de faltar professores para alguns módulos escolares, sem professor não há ensino;




4) os nossos alunos ficam muito pouco tempo na escola e um grande número delas ainda tem três turnos diários. O período do
Pós-Escola

, projeto da Secretaria de Educação que prevê a utilização dos espaços públicos para ampliar as atividades educacionais, vem inserido de dificuldades de inserções culturais e freqüentemente de dificuldades devido às áreas de riscos sociais elevados.




Houve retrocesso nos últimos anos muito mais pelo empobrecimento do país do que pela vontade política de educar. E o maior avanço que se pode realizar hoje é a questão do tempo integral. Ou seja, a abertura de um guarda-chuva educacional sobre o dia inteiro de uma criança que passa poucas horas na sala de aula e o resto do tempo inserida no ambiente social de risco elevado e num ambiente de certa privação cultural.

É preciso não repetir o erro de vários governos e pedagogos de não confundir tempo integral com uma escola de tempo integral. O tempo integral é um projeto que deve ser feito dentro e fora da escola com inserções culturais. Ao fazermos isso, estamos dando aos alunos das escolas públicas, que são provenientes de famílias menos favorecidas, o ensino semelhante ou talvez igual ao da classe média. É assim que se corrigem as diferenças sociais, por meio da educação.



 





Na sua opinião, qual é o principal desafio para alavancar o desenvolvimento e a qualidade da educação em nosso país?





Não é um só, são vários. Primeiro, criar coragem de mudar uma política econômica que utiliza 30% do orçamento para pagar juros de uma dívida que já foi paga várias vezes. O Consenso de Washington já terminou por apodrecimento, por necrose e o governo brasileiro ainda não percebeu.




Por meio dessa mudança da política econômica se pode realmente alavancar o desenvolvimento, colocando mais recursos e, seguramente, mais ênfase em educação e em ciência e tecnologia. Integrando as duas coisas porque as duas coisas dependem uma da outra. Os países hoje são ricos e produzem riquezas quando eles vendem produtos de valor agregado. Esses produtos vêm do desenvolvimento científico e tecnológico e do estímulo à inovação. Sem uma educação básica de qualidade, uma educação diversa de qualidade, nós não temos ciência e tecnologia.



A qualidade da educação não depende de soluções ortodoxas, mas de soluções heterodoxas, até porque as soluções conservadoras foram todas adotadas nos últimos oito e dez anos e não conseguiram melhorar a qualidade do ensino.



 





O secretário pretende manter os CEUs? Se sim, como pretende viabilizá-los? Se não, o que fará com os prédios e como realocará os respectivos alunos?





Evidentemente pretendo manter os CEUs. De maneira que a segunda parte da pergunta está prejudicada.
 





A viabilização dos CEUs se dará melhorando muito a relação custo-benefício. E as principais medidas para que isso ocorra são: todos os nossos CEUs estão hoje com os alunos de ensino fundamental em tempo integral. Não havia tempo integral nos CEUs, por incrível que isso possa parecer. Nem estava no projeto ter tempo integral; criando uma condição, tendo um projeto de formação de público do entorno do CEU para que eles freqüentem mais o local; estamos trazendo alunos de escolas do entorno para freqüentarem os CEUs e usufruírem as vantagens das áreas cultural e esportiva. Os CEUs são construções bonitas, muito bem localizadas, em áreas de grande risco social, de preço elevado que precisam ser convenientemente aproveitadas. Não vamos reiniciar a construção de outras escolas, com um padrão igual ou semelhante, até que os nossos problemas fundamentais, que são 50 escolas de lata, 126 mil crianças fora de creche e péssima qualidade do final da educação, sejam resolvidos.



 


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