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Nossas matrizes teóricas estão estabelecidas faz mais de 100 anos

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Há uma dúzia de anos, ao lado de insignes psicólogos e consagrados pedagogos, participei de uma mesa de discussão sobre transição entre ciclos e tempos letivos. O congresso visava lançar luz sobre a segmentação do sistema (em anos ou ciclos) e a duração de cada segmento, bem como abordar a candente questão da "transição traumática entre ciclos de ensino" (sic).

Os meus colegas de mesa expuseram as suas ideias, até que chegou a minha vez. Eu disse estar deveras
preocupado, após deles ter escutado graves afirmações. A saber: que a transição entre o 4º e o 5º ano pressupunha que o aluno passasse do regime de professor único para outro em que iria conviver com mais de dez docentes, o que, frequentemente, provocava crises, cujos efeitos se mostravam desastrosos. Enfim!… No entender dos meus colegas, a transição entre ciclos era "traumática". Não raras vezes, os jovens ficavam com marcas indeléveis desse trauma: desmotivação, terrores noturnos e até incontinência urinária…
Fui inquirido. Respondi com perguntas.
À primeira – Reconhecemos que a transição entre ciclos é traumática? – a resposta foi unânime e em coro: Sim!
À segunda pergunta – Não é verdade que só há trauma porque existe essa transição entre ciclos? – acenaram com a cabeça num "sim" algo desconfiado.

À terceira – Então, poderei concluir o "silogismo": se deixar de haver ciclos, deixa de haver transição e deixará de haver trauma. Não será assim?
Gerou-se forte confusão e escutei um brado: Mas o sistema está organizado em ciclos!
Então, fiz a pergunta derradeira: E por que razão há ciclos e segmentação em anos ou séries?
Ninguém respondeu. Nem com um aceno de cabeça!…

Acresentei: É tão grande a besteira de haver professor único no fundamental como haver guetos disciplinares a partir do 5º ano. E pedi, por favor, que não esgrimissem com argumentos de senso comum, ou com teorias que já tresandam a mofo! Aquelas que vejo reescritas na 25ª versão têm matrizes centenárias. Por exemplo, Dewey e Montessori (com todo o respeito que me merece a sua memória e mérito) são autores do início do século 20. Nos últimos cem anos, a "produção teórica" pouco tem ultrapassado os limites de incessantes citações de citações…

É verdade! As matrizes teóricas estão estabelecidas desde há mais de cem anos. Desperdiçamos todo o século 20 em especulações que não fertilizaram as práticas. A construção social chamada Escola mantém-se inalterada desde, pelo menos, há três séculos. Redundâncias teóricas, modas e livros de autoajuda pedagógica nada acrescentam. A nomenclatura foi alterada e as teses foram enfeitadas com termos como: interdisciplinaridade, multiculturalismo, inclusão… Sucederam-se os clubes: piagetianos, vygotskianos, bakhtinianos, steinerianos, montessorianos… Medidas de política educativa tentaram (em vão!) psicologizar as escolas. Foram inventadas medidas de desculpabilização curricular: classes de aceleração, ateliers de contraturno etc. O edifício – físico e legal – das escolas mantém-se inalterado. Quem interpela a pertinência de segmentações?

Felizmente para o Brasil, há muitos educadores que correm por fora de inúteis medidas de política educativa e dos exercícios de bricolagem teórica. Constroem, gradual e responsavelmente, uma reforma silenciosa, concretizando Piaget, Vygotsky, Bakhtin, Steiner, Montessori…


José Pacheco

Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

josepacheco@editorasegmento.com.br

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