Inteligência exemplar

Quando é preciso valer-se de boa e velha experiência de vida para educar

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Mario Sergio Cortella

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Um dos grandes expoentes da literatura portuguesa é Padre Manuel Bernardes (1644-1710). Autor de obras impregnadas pelo estilo barroco, ele foi um competente representante da denominada “prosa acadêmica”, especialmente pelo que escreveu no livro
Exercícios Espirituais

. Agora, pouco mais de trezentos anos após a publicação de alguns de seus estudos, vale lembrar sapiente e poderoso conselho para todos nós que, ao lidarmos com pessoas, sobre elas temos certo nível de autoridade.





Revisitemos o que escreveu Manuel Bernardes em 1686, ao pensar sobre a força da imagem exemplar. “Não há modo de mandar mais forte e suave que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, convence sem debate, todas as dúvidas desata e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa e mandar ou aconselhar outra é querer endireitar a sombra de vara torcida.”





Lembrei-me dessa idéia do clássico escritor porque cada vez mais se exige, de nós, o uso de uma inteligência pedagógica que ultrapasse os limites do óbvio no trato com crianças e jovens. Aliás, tem sido recorrente usar a expressão “inteligências múltiplas” para indicar algumas das habilidades necessárias para sobreviver bem no mundo altamente competitivo, veloz e cambiante – fala-se ainda em inteligência emocional, espiritual, corporal, intelectual, organizativa.





Porém, não esqueçamos do poder originado da experiência de vida, da famosa e necessária perícia vivencial que, no caso, poderíamos chamar de “inteligência operativa”, isso é, um entender e um saber-fazer emanados da prática continuada e reflexiva.





Outro dia, um professor relatou-me uma história escolar que representa bem isso. Em um colégio, disse-me ele, estava acontecendo uma coisa muito fora do comum: um grupo de meninas de 12 anos ia todos os dias ao banheiro, passava batom nos lábios e, para tirar o excesso, beijavam o espelho. O diretor andava preocupado, porque o zelador tinha um trabalho muito grande para tirar as manchas que lá ficavam diariamente; limpo o espelho hoje, amanhã lá estavam os borrões vermelhos de volta. O que fazer? Punir indistintamente?

Colocar vigia no banheiro? Fazer uma preleção moral daquelas? Proibir o uso de batom? Discursar sobre a importância de respeitar a atividade de quem faz limpezas? O educador foi em outra direção: chamou todas as meninas ao banheiro, pediu a presença do zelador e disse a ele: “Por favor, mostre a elas o que o senhor tem que fazer todos os dias para deixar tudo limpo”. O zelador pegou um pano, molhou no vaso sanitário e passou no espelho. Nunca mais apareceram as marcas.


 




*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.




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