Instrumento do Estado

Práticas da educação física estiveram sujeitas a visão utilitarista por parte do Estado, mais preocupado com suas necessidades do que com os cidadãos

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       (Ilustração: Isabelle Barreto)

As diferentes visões sobre o corpo acompanham a variedade de ideias sobre o homem e seu lugar no mundo. Na Grécia antiga, Esparta e Atenas rivalizavam em práticas e ideias. Esparta buscava nas práticas corporais desenvolver habilidades guerreiras; Atenas tinha uma visão mais global, que incluía também a música, o teatro e a filosofia.

É atribuída a Platão a seguinte frase: "Todo bom cidadão ateniense deve saber ler, escrever e nadar". Isso parece lógico em regiões marinhas ou fluviais. "Entre 1986 e 1992, quando lecionei pelo Estado, nos municípios de Araruama, Cabo Frio e principalmente em Búzios, levava meus alunos para ter contato com o mar", conta Barreto. "Tive em Búzios até problema com uma supervisora do Estado que entendia tal intervenção como ‘matação de aulas’", diz Sidirley de Jesus Barreto, delegado adjunto da Federação Internacional da Educação Física (Fiep) em Santa Catarina

Na Alemanha de tempos sombrios, a ginástica era utilizada com o fito de formar futuros soldados para o projeto de nação-império acalentado pelos nazistas. Foram banidas das escolas alemãs de então outras formas de intervenção como a expressividade, a alegria e a sexualidade. "Todo regime totalitário, como já destacava Wilhelm Reich (1897-1957) na década de 30, busca tolher a expressividade, ou, como fez Getúlio Vargas no Brasil, utilizá-la a seu favor, o que foi feito com a capoeira", afirma Barreto.

No Brasil, a educação física sempre esteve atrelada às necessidades do Estado, desde a sua implantação nas escolas até o golpe militar de 1964. "Só muito recentemente houve o grito de liberdade", diz Liana Braid, coordenadora do curso de educação física da Universidade de Fortaleza (Unifor).

A educação física escolar nasceu no século 19 em consequência das preocupações dos médicos higienistas com a alta taxa de mortalidade da população branca brasileira, por falta de cuidados básicos de higiene. Sua obrigatoriedade foi instituída para proporcionar atividades saudáveis, que produzissem homens preparados para atividades intelectuais e mulheres prontas para gerar filhos fortes e cuidar da família.

O século 20 se inicia com a vida da sociedade brasileira bastante alterada devido ao sedentarismo então emergente, consequência dos novos meios de transporte. O caráter utilitário característico do século 19 continuou, na medida em que o seu objetivo na escola seria formar homens fortes para o bem da pátria. Pode-se fazer uma periodização das práticas do período atrelando-as a três grandes fases: o Estado Novo, a ditadura militar pós-1964 e o período de abertura política.

No Estado Novo, a educação física continuou a servir como instrumento de normalização, com ganho de uma nova atribuição: assegurar o atendimento das necessidades de segurança nacional frente aos "perigos internos", leia-se as revoltas políticas. Também havia fatores externos, como a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial. Por isso, a disciplina passou a atender à demanda de mão de obra fisicamente adestrada e capacitada para assegurar o processo acelerado de industrialização implantado no país.

Com o fim do Estado Novo, a educação entrou em debate e houve um interesse acentuado pela educação física enquanto elemento curricular. Como consequência, surgiu a proposta de um novo enfoque para a disciplina, que passou a ser vista como instrumento educativo no âmbito da rede pública de ensino.

Com a ditadura militar, o governo passou a incentivar o culto ao físico e a prática desportiva. "Foi um período de massificação do esporte e grande divulgação dos feitos dos atletas de alto nível, transformados em heróis da pátria", explica Liana. "A literatura histórica evidencia neste fato um objetivo de atuação do desporto como analgésico no movimento social." Exemplo disto já comentado à exaustão é o da seleção brasileira de futebol tricampeão em 1970. Naquela ocasião, inclusive, louvou-se muito o bom preparo físico dos brasileiros, assegurado por jovens estudiosos recém-saídos das fileiras do exército como o capitão Cláudio Coutinho – depois técnico do Flamengo e da seleção brasileira – e o major Carlos Alberto Parreira, ambos componentes da comissão técnica que faria o Brasil superar os problemas da altitude. Além disso, vários dos jogadores da seleção na época cursavam faculdades de educação física, entre eles a estrela da companhia, Pelé. 


A Educação Física no Brasil (clique na imagem para ampliar)



Utilizando-se desses artifícios, a ditadura foi pródiga em enaltecer a necessidade da prática da educação física em todos os níveis de ensino, sendo inclusive a responsável pela instituição da sua obrigatoriedade no ensino superior. Uma obrigatoriedade vista como tentativa de ocupação do tempo do estudante universitário, isolando-o de outros movimentos socialmente importantes para a época.

"Ao analisar a educação física contextualizada à história do país, percebe-se de uma maneira bastante singular que ela sempre esteve a serviço da ideologia dominante, caracterizando-se como uma atividade alienante e elitista", diz a pesquisa
Educação física na escola: uma proposta de renovação

, da professora Liana.

Alienante por excluir crianças e adolescentes considerados  inaptos ou sem habilidades específicas em nome do esporte de alto nível. Elitista pela forma como vem tratando o corpo do aluno, visto como objeto manipulável, o qual deveria ser enquadrado em padrões mínimos aceitáveis de rendimento.

Essas presenças todas ecoam ainda hoje. Não é incomum ver profissionais que defendam práticas pedagógicas de excesso físico, voltadas unicamente a formar homens fortes e saudáveis, resquícios do higienismo; ou a disciplina mecânica – oriunda do militarismo do Estado Novo; ou ainda o adestramento e a competição, manifestações exacerbadas na competência do gesto técnico – rescaldo do tecnicismo do período da ditadura militar.

Nos anos 1980, o ideal fomentado era o de uma educação física como instrumento de superação das diferenças sociais. "A priori, não há condições de qualquer área do conhecimento, de forma isolada, realizar mudanças", avalia Osvaldo Luiz Ferraz, da coordenação da Faculdade de Educação Física e Esporte da USP.

Mas foi somente a partir da abertura política e do resgate das liberdades democráticas que a educação física iniciou a busca por uma nova identidade. O final da década de 1980 e o início da década de 1990 foram períodos ricos em discussões sobre a educação brasileira e a educação física.

Esse mundo de questionamentos, a precariedade de teorias que dessem conta das respostas para os problemas postos pelos profissionais da área, além do desconforto com a situação existente, geraram uma crise na educação física, com as seguintes consequências: surgimento de estudos e pesquisas sobre novos pressupostos teórico-metodológicos; modificações nas propostas curriculares; maior qualidade nas pesquisas da área; mudanças de paradigmas para a visão de corpo e das práticas corporais escolares.

Sem dúvida, a última década do século 20 se caracterizou como um período de muita discussão e buscas quanto a questões filosóficas e didático-metodológicas. Em termos teóricos, considera-se que, neste início de século, grandes dilemas na área da educação física curricular estão próximos de ser resolvidos ou, ao menos, de chegar perto de algum consenso. Porém, no que se refere às práticas, ainda há longo caminho a ser percorrido. Como a educação de maneira geral, a educação física convive com uma multiplicidade de concepções pedagógicas. Encontrar os princípios globais que podem nortear práticas distintas sem ferir particularidades resta como um desafio que ultrapasse a barreira teórica e se constitua em base material para os alunos.

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