Insegurança gera agressividade infantil

Para o pedagogo espanhol Enrique Martínez Reguera (foto), a única maneira de educar crianças e jovens agressivos é mantê-los em contato com suas referências. Leia, com exclusividade, a entrevista na íntegra.

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A insegurança básica da criança vem desde o nascimento, é muito interior e profunda















“Embora as crianças já não costumem nascer com um pão debaixo do braço, também não é provável que nasçam com uma foice. Aposto nelas. Por elas, sempre é possível fazer alguma coisa melhor.” O psicólogo, pedagogo e filósofo espanhol Enrique Martínez Reguera encerra com essas impressões
Crianças de Ninguém, Crianças de Rua: Psicologia da Infância Explorada

(Artmed, 142 págs., R$ 33), seu primeiro livro lançado no Brasil. Chegar à psicologia dos excluídos foi possível graças ao trabalho que realiza há 35 anos nos bairros de Madri, por meio de oficinas e pelo contato direto com os jovens e suas famílias, e também em sua própria casa, que serviu de abrigo a meninos considerados irrecuperáveis pelas instituições por mais de três décadas.




“Parei com a atividade em casa em janeiro passado por um único motivo: completei 70 anos e, com essa idade, não é fácil dar o que os meninos precisam, pois eles demandam atividades muito dinâmicas”, explica. Lançado há 20 anos na Espanha,
Crianças de Ninguém

… forma com
Pedagogia para Mal Educados

e
De Tanta Rabia Tanto Cariño

trilogia que o autor espera ver em breve traduzida na íntegra para o português. Nesta entrevista a
Eliana Raffaelli

, da Agência Repórter Social, realizada durante recente visita de Martínez Reguera a Porto Alegre (RS), ele aborda a origem da agressividade de crianças “em desvantagem” (termo que considera mais adequado para se referir a elas) e sugere formas para compreendê-las e auxiliá-las.








 





No livro
Crianças de Ninguém, Crianças de Rua

, o senhor trata a agressividade e a intolerância dos meninos como resultante da exploração. Seria correto dizer que toda criança explorada acaba seguindo pelo caminho da agressividade?





Quase sempre. Certos meninos, em razão das condições sociais, da falta de acompanhamento e de atenção dos pais, têm uma infância muito deteriorada. Não organizam nenhum sistema emocional ou afetivo. É muito desorganizado o que a criança interioriza desde que nasce, no período em que se fundamenta a nossa sociabilidade. Quando o menino chega aos 10 anos, tem uma desorganização interior terrível, que acaba desembocando na agressividade. Aí está o nosso primeiro trabalho: temos de apresentar uma vida muito normalizada aos meninos para que interiorizem tudo aquilo que não fizeram a eles quando crianças.




 





É possível recuperar essa fase criança de um jovem hoje com 15 anos?





É possível, sim. O que fazem um pai e uma mãe na fase criança? Dão lições de vida, de costumes, despertam sentimentos e emoções, ensinam os meninos a se defender das influências nocivas da sociedade, a modular seus instintos. O que nós temos de fazer? Fundamentalmente, a mesma coisa.




 





Há meninos revoltados também entre as classes mais privilegiadas. A origem também estaria nessa desorganização inicial?





Em ambientes de muita riqueza, às vezes exatamente por isso, os meninos não são bem atendidos, não têm uma boa infância. Os pais são importantes, estão sempre trabalhando fora e deixam as crianças muito abandonadas, não percebendo a importância desse acompanhamento nos dois primeiros anos de vida. Em função disso, de ambientes com muita riqueza também saem meninos revoltados, pois têm de fazer frente a uma vida para a qual não estão preparados.




 





A atitude defensiva viria do receio frente à vida?





Esse sentimento de que não está preparado para a vida coloca a criança na defensiva. A primeira característica é a insegurança, que eu chamo de básica, pois vem desde o nascimento e é muito interior e profunda. Essa insegurança leva o menino a estar sempre preparado para se defender. Quando vai crescendo, passa a atacar, porque seus ataques são defensivos. Por isso, é importante identificar esses primeiros efeitos para que o relacionamento não caia em equívocos. Noto que as instituições percebem o garoto como agressivo. Então, a instituição se defende e se volta agressiva contra a criança. É mútua defesa e mútua agressividade. Ambos estão se defendendo, porque não compreendem um ao outro.




 





Esta seria uma das explicações para o fracasso das instituições de recuperação?





Se quisermos normalizar a vida dos meninos, precisamos dar-lhes condições de vida normal. Como vamos integrá-los à sociedade se os deixarmos isolados nas instituições, perdendo o contato com seu bairro, com a família, com os amigos, com suas referências, com suas raízes? Não se pode educar tirando a pessoa do seu ambiente. Outro erro típico: diante da revolta dos meninos que se expressam dessa forma, em vez de perguntar por que se sentem mal, pensam logo em formas para reprimi-los. Ninguém pensa na criança. Se ela está fazendo o mal, tenho necessidade de controlá-la. Um dia, em minha casa, vieram me dizer que um dos meus meninos estava ameaçando outro com uma faca. Fui até lá e vi a cena. Se tivesse sido no período em que comecei a trabalhar e se fosse com alguém que eu não conhecesse, a primeira reação seria de susto. Eu não pensaria no menino da faca, mas em mim e nas vítimas que poderia provocar. Mas, como era um menino que estava há tempo na casa, eu me sentia tranqüilo com ele. Abracei-o e perguntei: “Por que estás sofrendo tanto, o que aconteceu, o que os outros te fizeram?”. E o menino que tinha a faca começou a chorar. Quero dizer com isso que por trás de uma pessoa agressiva há muita vulnerabilidade. Se você só vê agressividade, não sai da agressividade. Se você só vê a pessoa vulnerável, a agressividade cai por terra. No entanto, nos reformatórios só se vêem os aspectos negativos.




 





A estrutura, com grades e muros altos, influi nessa relação?





Ajuda. São sistemas errados, mas não absolutamente errados. Quando um menino se mostra muito perigoso, a sociedade precisa realmente que ele fique isolado por um tempo. Mas isso deveria ser algo muito transitório. O importante seria pensar depois nesse menino, o que está acontecendo e o que podemos fazer por ele. Hoje, reprimir é um grande negócio, de interesse econômico, ainda mais que agora estão privatizando as prisões na Europa. É preciso que haja muito delinqüente. É terrível, mas é a verdade. Estamos entrando em uma sociedade tão desumanizada que se não temos delinqüentes temos de fabricá-los, pois há uma indústria que vive da delinqüência.




 





No livro, o senhor cita um estudo feito na Espanha, indicando que 76% dos jovens que passaram por instituições estão hoje presos. Qual sua avaliação?





A partir desse trabalho, realizado por um membro do Juizado de Menores de Madri, fiz a seguinte reflexão: se uma indústria quer fabricar parafusos e, ao longo de 70 anos, toda produção é de pregos, a indústria está vivendo dos pregos, não dos parafusos. Se as instituições passaram 70 anos produzindo delinqüentes – pelo menos 70% da produção -, e não recuperando os meninos como se propunham inicialmente, nem passando por nenhuma transformação nesse período, o interesse é outro.




 





Que medidas poderiam ser tomadas para alterar o quadro? O custo de realizar o trabalho junto às famílias é tão oneroso assim?





O trabalho com as famílias é muito mais barato e infinitamente mais importante. Caso seja feito um bom trabalho com as famílias durante seis meses, pode-se estar poupando investimento de seis anos em um reformatório. Algo que não funciona é sempre caro.




A primeira medida para alterar a situação seria mudar os critérios. Por isso, temos publicado livros e revistas para auxiliar nessa mudança. O Estado precisa ter a honestidade de admitir que está fracassando. Mas, supondo que o Estado tenha medo de mudar, é preciso preparar pessoas que saibam fazer as coisas diferentes e que essas pessoas sejam infiltradas nas instituições, para que os critérios sejam modificados aos poucos. Já estamos trabalhando nesse sentido, tanto que temos em Madri, há 26 anos, uma Escola de Educadores na Marginalização. Nossos alunos saem com critérios totalmente diferentes, pois os colocamos em contato com a realidade dos bairros, dos meninos e das famílias.





 






Qual seria a forma mais adequada para trabalhar com os meninos?





Há vários critérios pedagógicos. Um deles é identificar qual a natureza do problema a ser resolvido. Um primeiro aspecto a considerar é que o fato de o menino ser revoltado, com dificuldade de sociabilidade, não é um problema psicológico, nem somente social, embora em sua origem tenha tido muita influência social. Qual a natureza, então? É um problema integral, pessoal. O menino teve uma má infância e precisa de uma convivência que imite o que deveria ter ocorrido na sua fase criança. Meu primeiro trabalho é criar vínculos que ele nunca experimentou, é preciso respeitar as suas necessidades para que possa aceitar a aproximação. Outro critério básico é que se trata de um problema relacional: ele e eu temos a metade da responsabilidade pelo que acontece.




 





De que forma pode ser melhorado esse relacionamento?





Temos que deslocar o foco para a relação, para o relacionamento. Não é o menino que é mau. Temos má relação com esse menino e temos também responsabilidade por isso, pois somos parte dessa relação. Às vezes, não sei trabalhar com o menino porque não sei o que tenho de fazer com ele, e começo a trabalhar comigo primeiro. Quando consigo sentir-me mais seguro e tranqüilo, isso já está influindo na relação. Se não sei o que fazer, não devo fazer nada. Não preciso dominar a situação sempre. Devo me limitar a intervir apenas quando sei que minha intervenção será positiva.




 





Essa idéia não viria de encontro à pedagogia tradicional, na qual predomina a relação de hierarquia pelo saber?





Nascemos em uma sociedade de dominação. Esses meninos são essencialmente vítimas de um sistema de dominação, que para eles foi muito deteriorante. Não posso ser transmissor dessa dominação. Tenho de desmontar isso e cultivar a equiparabilidade: sou uma pessoa, o menino é outra e temos de ser iguais. Porém, ele está muito deteriorado, e eu, para ele, sou da parte deteriorante da sociedade. É preciso modificar mutuamente essa relação.




 





Como quebrar a resistência inicial?





O tempo e a constância são muito importantes, pois o menino vai identificando que há interesse por ele, percebendo outros valores que estão por trás dessa atenção. Às vezes, não importa ter êxito ou fracassar, mas manter a certeza de que, apesar de tudo, segue vivo o relacionamento pessoal. É preciso muita criatividade. Se uma intervenção não funcionou, não devo repeti-la indefinidamente, é preciso mudar. Tenho de ser muito criativo e constante.




 





O senhor critica no livro o uso dos termos “inadaptado”, “difícil” e “delinqüente” para definir crianças de rua. Qual seria a melhor palavra?





São meninos em desvantagem, que nascem em condições de desvantagem: muito abandono e carência, um entorno vicioso e viciado, que apresenta a eles o pior da sociedade. É necessário compensar e reequilibrar essa desvantagem aportando a eles o melhor de nós mesmos. Ainda que o menino não responda adequadamente, tenho de dar a ele o melhor de mim.




 





No livro, o senhor relaciona três fatores para gerar um delinqüente: contexto de exploração, dificuldades na sociabilidade e formalização do comportamento. O que seria essa formalização?





Quando o menino, por suas condições sociais, não é igual aos outros, começa a ser mais revoltado e fracassa na escola, o entorno começa a dizer que ele se transformará em delinqüente. E a criança não tem outra referência a não ser o que escuta. Tudo isso vai se interiorizando naquele menino, e leva ao que se chama de formalização, ou seja, se dá forma social a uma idéia que se está fabricando. Há vários outros modos de formalização muito perigosos, como a conversão do menino em fracasso, colocando-o em um sistema de tráfico de drogas. É importante considerar também que o tipo de atenção que prestamos dá forma à natureza do problema, gera também uma espécie de formalização. Na Idade Média, quando a pessoa tinha um ataque epiléptico, dizia-se “está endemoniado” e traziam o exorcista. Agora, se indica tratamento médico. O mesmo se dá com os meninos. Na Espanha, está ocorrendo uma catástrofe terrível. Como as instituições não sabem oficialmente o que fazer com os jovens drogados, estão psiquiatrizando, convertendo todos em doentes mentais e realizando tratamentos com fármacos, com drogas. Estão convertendo um problema pessoal, familiar, social e psicológico em psiquiátrico. Esse é também um tipo de formalização.




 





O senhor diz que a formalização seria rentável. De que forma se daria esse retorno?





Se o menino é pobre, precisamos resolver sua pobreza. Para tanto, só é preciso um tipo de atenção. Agora, se o menino é pobre, doente mental, delinqüente e usuário de drogas, precisamos de muitos profissionais para atendê-lo. O garoto se converte em matéria de consumo, é formalizado como matéria de consumo de muitas ONGs (Organizações Não-Governamentais), fundações, igrejas, empresas, profissionais. Os problemas dos meninos estão sendo formalizados como um negócio de grande interesse econômico.




 





A sociedade de consumo, então, aprofundaria ainda mais esse sistema de exploração dos meninos?





Antes vivíamos em uma sociedade de consumo: quem tinha dinheiro, consumia; quem não tinha, se afastava. Agora, vivemos em uma sociedade de consumidores e consumidos: uns consomem bens e outros são consumidos como matéria na mão-de-obra barata, como usuários de drogas e por muitas instituições que vivem do negócio da segurança. Para trabalhar com os meninos, é preciso levar tudo isso em conta e conhecer a sua realidade nua e crua, em primeira mão, não apenas por livros, revistas e jornais, que nem sempre refletem a realidade. Na Espanha, nunca se falou tanto em meninos de rua e, ao mesmo tempo, nunca se soube tão pouco sobre eles.




 





O que muda no trabalho do educador sob o ponto de vista da necessidade de conhecer a realidade do menino para poder trabalhar melhor com ele?





O educador tem de conhecer a realidade direta do menino e procurar que o menino conheça diretamente a realidade do educador, para que não haja medo entre eles. Por isso, quando uma criança chega no meu consultório não pergunto nada, conto-lhe sobre a minha vida. Não interrogo, pois a polícia faz isso. Se o psicólogo fizer o mesmo que a polícia, o menino se defende. Tenho de procurar que ele entre na minha vida para que depois eu possa entrar na dele.




 





O professor teria de adotar essa mesma conduta?





Sim, temos de tomar partido pelo menino. O importante não é o que o professor dá à criança, mas o que ela precisa do professor. É uma ótica totalmente diferente. O educador vai à sala de aula para ensinar matemática, geografia, mas o menino está precisando de outras coisas. Necessita entender alguns aspectos da vida e sentir um pouco de carinho.




 





Depois de vencer a resistência inicial, seria possível, então, ensinar matemática ou geografia?





Depois seria bem mais fácil. No entanto, dificilmente os meninos despertam para temas acadêmicos. Eles se interessam por assuntos ligados à sobrevivência e aprendem isso com grande rapidez. Por outro lado, são muito resistentes a temas sem resposta imediata, como os estudos que se estendem por anos. Não compreendem para que tanto esforço. O trabalho com eles é muito lento e nem sempre se consegue êxito. Por isso, procuramos atividades imediatas, como ensinar um ofício.




 





Trabalhar dessa forma também gera modificações no educador?





Tento influir nos meninos, mas constantemente percebo que eles estão influindo em mim. É um trabalho relacional. Tudo o que sei e o que sou hoje devo ao que aprendi com os pequenos. Eles mudaram minha ideologia política, minha ética, minha moral, meus critérios pedagógicos. É um enriquecimento mútuo. Mas não podemos pensar que com esse trabalho vamos transformá-los. Temos de pensar que nós e eles vamos melhorar nosso encontro pessoal, nossa relação.




 





Nesse contexto, não haveria espaço para a idéia de menino irrecuperável.





O conceito de menino irrecuperável é uma contradição. O máximo que um professor pode dizer é: “eu não consegui recuperar”. Mas isso não significa que a vida não consiga atingir esse objetivo. Recebi em minha casa um garoto que trazia em sua ficha características como psicopata, amoral, irrecuperável e de alta periculosidade. Isso é absurdo, pois os psicólogos não são futurólogos. Esse menino psicopata e amoral tem hoje 42 anos e tenho um grande carinho por ele. Segue tendo problemas, mas é uma pessoa maravilhosa. Todas pessoas têm coisas que se resolvem e coisas que não se resolvem na vida. Os meninos de rua também. O importante é terem uma vida na qual se sentem muito mais felizes do que antes.




 





Como surgiu a idéia do livro?





Percebi que seria uma lástima se os conhecimentos decorrentes da convivência que eu tinha com os meninos fossem perdidos, não ficassem escritos. Pensei também nas mães e pais desses meninos, para que tivéssemos idéias bem claras para transmitir a eles em reuniões, em visitas, pois a maioria não sabe ler. Outro motivo foi que eu havia lido muitos trabalhos de psicologia e de pedagogia, e sempre tinha a sensação de que não correspondiam à realidade, pois o que ocorria na minha relação com os meninos era totalmente diferente. Assim, fui penetrando na realidade que, para mim, pareceu ser a autêntica psicologia dos menores.




 





O que despertou seu interesse pelos meninos de rua?





Desde criança eu me interessava pelos meninos com problemas, era algo inato em mim. Por esse motivo estudei pedagogia e psicologia, pensando em me dedicar a eles. Comecei a lecionar em uma escola e percebi que eu conseguia trabalhar melhor com as crianças difíceis. Em 1970, interrompi a carreira de professor e fui morar em um bairro muito pobre de Madri, o La Celsa. Ali, comecei o trabalho diretamente com os meninos e as famílias. Depois, percebi que para trabalhar com alguns deles precisava de um pouco de distância e abri, em um bairro próximo, uma casa onde recebia meninos considerados irrecuperáveis pelas instituições. E por que na minha casa? Especialmente para desinstitucionalizar aqueles garotos, pois quando eles vão para uma instituição passam a ter duas vidas: uma real, no seu território, e outra artificial, na instituição e que, muitas vezes, apenas oculta a realidade e os estigmatiza. Queria ajudá-los aproximando-os ao máximo da vida real.





 






O senhor mantém contato com esses meninos até hoje?





Sempre. Temos uma filosofia de que o trabalho que realizamos não é pontual. Queremos fazer um trabalho mais profundo, pessoal, em que nos envolvemos realmente com a pessoa dos meninos. Então, se criamos vínculos de amizade e conseguimos ter carinho mútuo, isso não pode terminar nunca. Organizamos festas para reuni-los e revê-los. Neste ano, publiquei um livro em homenagem aos 64 meninos que passaram pela minha casa. O título é de
De Tanta Rabia Tanto Cariño

. Vamos realizar uma festa para lançar o livro e convidaremos todos que passaram pela casa, para que contemos uns aos outros como tem sido nossa vida.




 


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