Informação não é apologia

Formas de lidar com drogas que não a abstinência estão em debate na sociedade e na escola

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Faoze Chibli

Não é difícil entender por que o movimento de redução de danos, no âmbito do uso de drogas lícitas e ilícitas, consegue ampla adesão na sociedade, por exemplo, de Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, general-de-divisão da reserva remunerada do exército brasileiro, nomeado

secretário nacional antidrogas em 2001


. O próprio termo redução de danos guarda os principais conceitos desse movimento. Admite que as drogas podem causar dano. E não prega a abstinência absoluta, política que tem se mostrado frágil ao longo da história. A importância dessa questão mobilizou até o Ministério da Educação, que lançou um curso via TV Escola direcionado a escolas públicas para tratar do tema em sala de aula.






Países que vêm desenvolvendo essa política, como Austrália e nações européias, têm obtido bons resultados. Como a diminuição de níveis de infecção pelo HIV entre usuários de drogas injetáveis e um melhor acesso a serviços de saúde pública. Beber água quando se consome álcool ou alimentar-se antes de fumar cigarro são medidas de redução de danos. Distribuição de seringas e camisinhas e programas de socialização e acolhimento também. O objetivo primordial é respeitar o direito individual e melhorar a qualidade de vida de quem usa drogas. Parte-se do princípio de que as pessoas não querem ou não conseguem parar.




No Brasil, estima-se haver mais de 50 mil usuários cadastrados em movimentos de redução de danos, de acordo com dados divulgados no Seminário Mídia e Drogas, organizado em Brasília (DF) pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), em parceria com o Ministério da Saúde. A Rede Latino-Americana de Redução de Danos (Relard) afirma que o Brasil possui atualmente 160 projetos de redução de danos com articulação nacional, como a Rede Brasileira de Redução de Danos (Reduc) e duas com o mesmo nome: Associação Brasileira de Redutores de Danos (Aborda).




A primeira tentativa brasileira oficial no sentido da redução de danos foi adotada em Santos (SP), em 1989. A prefeitura implementou um sistema de troca de seringas usadas por descartáveis. Houve críticas, inclusive do Ministério Público, por estimular o uso de drogas. A experiência se disseminou, teve bons resultados e acabou sendo adotada oficialmente pelo governo em 1995.






Definições –






O assunto drogas desperta paixões e suscita questionamentos morais. Cada um tem sua verdade. Na literatura especializada, há pelo menos cinco tipos de usuários reconhecidos, de acordo com Alba Zaluar, antropóloga e pesquisadora do assunto. Ou seja, a relação é bem mais complexa do que se faz parecer. Por tabela, abre-se um questionamento sobre


o que é droga


. A própria palavra é de natureza contraditória. Um exercício interessante é perceber como as definições encontradas em dicionários são díspares e não estão livres de valores morais. O dicionário britânico
Longman Language and Culture

, por exemplo, admite o prazer que se obtém com drogas. Mas derrapa, dizendo que o consumo de drogas é um sério problema na Inglaterra e nos EUA. Ignora o “resto” do mundo. Já o brasileiro
Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa

nem considera álcool uma droga.






Admitir o prazer e tentar mostrar ao usuário de drogas opções de lazer e bem-estar físico e mental é uma das estratégias de movimentos de redução de danos. O Centro de Convivência É de Lei, organização da sociedade civil com sede em São Paulo (SP), realiza atividades que buscam ampliar o universo cultural dos usuários. O centro promove visitas a exposições e reúne grupos para assistir a filmes, por exemplo. Há, ainda, grupos abertos de estudos sobre aids e drogas.



Um dos argumentos de quem defende a legalização das drogas é que seria uma forma de a sociedade exercer controle sobre uso e qualidade dos produtos. Para Edward MacRae, antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia e conselheiro da Rede Brasileira de Redução de Danos (Reduc), é preciso admitir, ao contrário do que a mídia faz hoje, que as drogas acompanham a história da própria humanidade, em cultos e rituais, por exemplo. Ele ressalta que o uso de drogas desempenha “grandes papéis de agregar socialmente”. E profere que “se a gente convive com o carro, não temos que ter medo de lidar com as drogas”.


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