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Entrevista com Leonardo Mlodinow – Ex-consultor científico de Hollywood, físico norte-americano convida professores e alunos a se aventurar pelo universo da geometria

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Juliana Cézar Nunes


Como estudante, ele teve o privilégio de aprender com cientistas tão renomados quanto o físico Stephen Hawking, autor de
Uma Breve História do Tempo

e
Universo numa Casca de Noz

. A experiência deu ao escritor Leonardo Mlodinow, 49 anos, fôlego para completar os cursos de física e matemática, além de partir para uma pós-graduação no Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Berkeley (EUA). Felizmente, tanto conhecimento não ficou restrito à academia. Está registrado em palestras, filmes, seriados, CD-Roms educativos e livros.

Na publicação de estréia, recém-lançada no Brasil, Mlodinow mostra que é possível ensinar e aprender geometria. Basta estar disposto a se aventurar pela história das linhas, curvas e paralelas. O livro
A Janela de Euclides – A História da Geometria, das Linhas Paralelas ao Hiperespaço

(Geração Editorial, 296 págs., R$ 39,50) traz os bastidores das cinco revoluções ocorridas para desenvolver, na matemática, um sistema de regras capaz de modelar o universo físico e forçar o homem a reavaliar seu lugar no cosmos.

De forma simples e bem-humorada, o autor conta que as origens do conhecimento geométrico podem estar nas margens do lago Edward, na República do Congo. Nessa região, arqueólogos encontraram o mais antigo material para registro numérico: um osso de 8 mil anos, com uma pequena pedra de quartzo presa em um entalhe.

A pré-história da geometria continua nas margens do rio Nilo com os egípcios – que usaram a lógica para definir época de colheita e impostos, além de construir pirâmides – e segue com os babilônicos, exímios criadores de enigmas. A sistematização efetiva desse conhecimento, no entanto, é feita por pensadores como Aristóteles, Pitágoras, Tales de Mileto, Euclides e Descartes. São eles que unem a geometria a lógica, regras, teorias, axiomas e números. Isso na Antiguidade. Nos tempos modernos, o desafio de interpretar a relação entre o espaço e o tempo foi levado adiante por cientistas como Albert Einstein e John Schwarz.

Em
A Janela de Euclides…

, Mlodinow não descreve apenas o pensamento dos autores da teoria da relatividade e das cordas, respectivamente. Conta, por exemplo, detalhes sobre a representação teatral feita por Schwarz, em junho de 1984, para mostrar como as partículas subatômicas interagem e explicar a natureza dos buracos negros. Nesta entrevista, o físico revela seu principal objetivo de vida: tornar o conhecimento científico cada vez mais acessível. A contar pelo que fez até aqui, Mlodinow pode se considerar um homem realizado.

A capacidade de misturar história e matemática rendeu a ele participação, como consultor científico, em produções como o seriado
Mcgyver

(1976-1981) e a série
Jornada nas Estrelas

(1987-1994). Com o professor, hoje parceiro, Stephen Hawking, ele acaba de escrever um roteiro para filme e prepara, como co-autor, a edição atualizada de
Uma Breve História do Tempo

. Um exemplo de como, da sala de aula, é possível repensar o mundo na companhia de números e retas.






Educação – Como você acha que seu livro pode ajudar professores e alunos a ter mais interesse pela geometria?




Leonardo Mlodinow –



Minha intenção é mostrar que a geometria é a medida mais prática da matemática. Acredito que, ao perceber a importância das cinco revoluções que deram origem aos principais conceitos geométricos, professores e alunos vejam que a chave para entender o mundo hoje está nas linhas e paralelas. Foram elas que obrigaram o homem a observar de uma outra forma o universo e o mundo ao nosso redor. Para mim, a geometria é tão importante quando a física. Quando eu era criança, aliás, foram as curvas que me ajudaram a entender matemática.





Para entender seu livro, é preciso ter conhecimento prévio de geometria?





Acredito que não. Tentei escrever um livro com senso de humor e uma linguagem simples, capazes de chamar a atenção de adultos e adolescentes com mais de 15 anos. Uso exemplos do mundo real, do cotidiano, o que ajuda qualquer um a entender melhor os fenômenos. Infelizmente, grande parte das barreiras que as pessoas têm em relação à matemática é anterior à leitura, está na escola. Mesmo nos Estados Unidos, o ensino ainda é muito problemático. Acredito que o Brasil também enfrente esse desafio.





Que tipo de problema você identifica no ensino da matemática?





São vários os obstáculos. A maioria dos professores de matemática, por exemplo, não entende matemática; é exatamente por isso que não sabe ensinar. Por outro lado, poucas pessoas que realmente entendem do assunto se dedicam ao ensino. Aqueles que resolvem ceder e ir para a sala de aula são tão chatos, tão chatos, que acabam afastando as crianças da matemática. Essas crianças, no futuro, também se transformam em péssimos educadores. Seguem o exemplo.





Existe alguma maneira de se quebrar esse ciclo de fracassos?





Uma das propostas do meu livro é justamente essa. Quebrar o ciclo inspirando professores e alunos a entender a matemática juntos, de uma forma interativa e lúdica. Não tenho a pretensão de mudar o mundo. Estou muito velho para isso [
risos

]. Mas não deixa de ser uma tentativa. Tenho recebido importantes retornos que mostram o quanto um livro como o meu pode ser útil.





Que tipo de retorno? Você poderia citar algum exemplo?





Tenho um exemplo simples, mas bem próximo. Outro dia, o professor do Alexei, meu filho, recomendou o livro para os alunos, sem saber que eu era o autor. O Alexei ficou feliz, mas muito envergonhado. Pude acompanhar a experiência e vi que tanto o professor como os estudantes se envolveram com a história e passaram a entender melhor a geometria. Outro dia, recebi um e-mail de um professor de literatura que também está usando o livro. Acho essa interação muito interessante.





Com o alto preço dos livros e hábito de leitura em baixa, poucos estudantes acabam tendo acesso a publicações como a sua. De que forma é possível driblar as barreiras econômicas e culturais?





Confesso que considero o livro um dos melhores meios para entender ciência. Quando lêem, as pessoas realmente se preocupam em entender o que está lá. Mas também tento divulgar a ciência por outros meios. Trabalhei durante um bom tempo em Hollywood como consultor científico de filmes e seriados. Nessa época, também ajudei na criação de vários jogos de videogame.





Dessas experiências, qual foi a que mais te marcou?





Um das experiências mais interessantes foi com o seriado
Mcgyver

. Tínhamos um personagem que usava truques científicos ao enfrentar situações difíceis. Fiz vários livros didáticos baseados nessas aventuras, incentivando as crianças a utilizar matemática para resolver desafios. Foi muito divertido. Vi que o cientista e o escritor têm um trabalho muito parecido. Os dois precisam usar a criatividade o tempo todo.





Você continua fazendo consultoria científica para os diretores das produções de Hollywood?





Não. Tive uma experiência um pouco complicada na consultoria para o
Jornada nas Estrelas

. Os produtores são pessoas muito chatas intelectualmente [
risos

]. Foi divertido trabalhar para o
show biz

, mas acabei ficando muito decepcionado. Em Hollywood, eles não estão interessados nas idéias, não se preocupam com o sentido e o significado das palavras. Usam termos científicos como “neutrino” apenas porque soa bem. Por diversas vezes meus comentários foram ignorados. Hoje, ainda tenho interesse em filmes, mas com projetos mais independentes.





Que tipo de projetos independentes?





No fim do ano passado, eu e o Stephen [
Hawking, físico e escritor norte-americano

] escrevemos o roteiro de um filme que será projetado na rede I-Max, muito comum nos Estados Unidos e na Europa. É um cinema de tela enorme, multidimensional, que permite a projeção de filmes com até 45 minutos de duração. O lançamento do nosso filme sobre cosmologia está previsto para 2005, o ano internacional da educação para a ciência. Na tela, contamos a origem e o destino do universo com imagens captadas pelo telescópio Hubble e geradas por computador.





Além do filme, você e Hawking têm outros projetos em comum?





Sim, estamos escrevendo, desde 2002, a edição atualizada de
Uma Breve História do Tempo

. Deve se chamar
Uma mais Breve História do Tempo

. Será um livro revisado, com menos técnica e mais explicação. Pretendemos lançar em 2005, mas ainda não é certo. O Hawking está muito doente, mais doente do que de costume [
o físico sofre de uma doença neurodegenerativa

]. Quando ele foi meu professor, na década de 70, tínhamos dificuldade para ouvi-lo, mas não era nada muito grave. Havia uma pessoa na sala que fazia a tradução simultânea da língua de Hawking para o inglês. Hoje, ele está mais debilitado. Mexe a fronte para dizer “não”, sorri para dizer “sim” e movimenta um dedo para escrever. Com a ajuda de um computador, ele demora dez minutos para escrever uma frase.





O que significa para você, ex-aluno e atual parceiro, os desafios enfrentados por Hawking?





Há 40 anos, quando ele soube que estava doente, os médicos diziam que a

expectativa de vida era de dois anos. Hawking superou todas as expectativas. Também assisti a outro importante cientista e amigo enfrentar um câncer grave [
o físico Richard Feynman, ganhador do Nobel de Física em 1965 e personagem principal de

Feynman’s Rainbown
, livro de Mlodinow ainda inédito no Brasil

]. Depois de tudo isso, você fica mais feliz de estar aqui, passa a valorizar a vida. Quando eu vou ao hospital, vejo uma morfina de uma forma totalmente diferente. É preciso ser um bravo para, como Hawking, fazer tanta coisa sem poder se mover, falar. Ele tem uma postura muito positiva em relação à vida.





Atualmente, quais são os temas científicos que mais chamam a sua atenção?





Estou fazendo uma série de quatro livros infantis baseados em assuntos

científicos [
os dois primeiros devem sair ainda no primeiro semestre

]. Nela, falo de assuntos que me fascinam muito. É o caso de Marte. O que chama a minha atenção não é tanto o aspecto físico, mas o biológico. Estou interessado em entender a origem da vida. Hoje, recebemos muitas informações pelos telescópios. As pessoas estão sendo bombardeadas com coisas difíceis de explicar só com a física, como o lado escuro da energia e a aceleração do universo. É preciso revolucionar a física. A biologia pode ser um bom caminho.





Você acredita que há vida em Marte?





Definitivamente, acredito. Existem bilhões de planetas e estrelas por aí. Só somos capazes de ver alguns desses corpos. A vida deve existir nesses lugares, mas de outra forma, não necessariamente a partir do carbono. Precisamos levar isso em consideração para entender a história da humanidade e, quem sabe, até modificá-la. Lutamos por ouro, escravo, dinheiro e crenças. Todos acham que sabem o segredo do universo. Dizem “meu Deus é melhor”, “minha democracia é mais correta”. As pessoas só vêem a aparência. Esquecem que vemos as cores de uma determinada forma porque tudo é irradiado pelo Sol. Esses outros seres, em outros planetas e estrelas, podem ser irradiados de uma maneira diferente. Por isso, temos dificuldade para encontrá-los.


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