A importância da aliança terapêutica com os pais no tratamento de crianças

Entenda principais ideias da psicanalista argentina Arminda Aberastury, que defendia que analista deveria investir na anamnese familiar

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A importância da aliança terapêutica com os pais no tratamento de crianças, segundo Arminda Aberastury

Foto: Shutterstock

A psicanalista argentina Arminda Aberastury (1910-1972) tornou-se analista didata da Associação Psicanalítica Argentina (APA) em 1953. Durante vinte anos ensinou nesse instituto e foi sua diretora, introduzindo o ensino da psicanálise de crianças na formação do candidato a analista. Também foi responsável pela disciplina de Psicologia da Criança e do Adolescente na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, além de divulgar a formação psicanalítica junto a pediatras, puericultores, educadores, médicos e odontólogos. Reconhecida como uma das maiores autoridades na área de análise infantil, trabalhou muito na difusão do método psicanalítico no país. Influenciou, dessa forma, os numerosos psicanalistas argentinos que se instalaram no Brasil na década de 1960, depois de fugir da ditadura militar argentina, cujo “legado” somou mais de 30 mil desaparecidos.

O desenvolvimento inicial do trabalho de Aberastury recebeu influências de vários analistas de linhas diferentes, como Hug Hellmuth (1871-1924), Anna Freud (1895-1982) e Sophie Morgenstein (1875-1940). Mas o pensamento de Melanie Klein (1882-1960) foi o que mais marcou seu trabalho com análise de crianças. Seu início foi supervisionado pela própria Klein.

Arminda conheceu Melanie Klein em 1952, em Londres, e manteve correspondência com ela durante anos. Traduziu a obra kleiniana Psicanálise da criança para o castelhano e tornou-se porta-voz de suas ideias. A princípio, Aberastury nutriu-se da técnica de Melanie Klein, porém permitiu-se depois fazer nela uma série de modificações. Diferenciando-se de Klein, que priorizava a vida interna, a autora passou a apresentar preocupação em examinar a família do paciente.

Para a psicanalista argentina, desde o início do tratamento a criança traz fantasias inconscientes sobre sua doença, e na maioria das vezes também sua fantasia de cura, por temer que se repita com ela o comportamento daqueles que provocaram seus conflitos. A criança tem o desejo de que o analista assuma um papel diferente daquele de quem a prejudicou, ou seja, um papel que possa suprir a criança do que ela necessita para recuperar-se.

Essa sua conclusão era completamente diferente das afirmações que faziam Anna Freud e Melanie Klein a respeito de suas experiências com crianças. Elas afirmavam categoricamente que as crianças, diferentemente dos adultos, não têm consciência de que estão doentes e não desejam ser curadas, de modo que não possuem incentivos para iniciar a análise e tampouco estímulo para prosseguir com ela.

Universo familiar

Arminda Aberastury nasceu em Buenos Aires, proveniente de uma família de comerciantes, do lado paterno, e de intelectuais, do lado de sua mãe. O renomado médico Maximiliano Aberastury era seu tio, e o psiquiatra Frederico Aberastury, seu irmão.

Em 1937, casou com o psiquiatra suíço Enrique Pichon-Rivière, com o qual teve três filhos: Enrique, Joa­quin e Marcelo. Seu marido, nascido de uma família francesa com a qual emigrou para a Argentina fugindo da guerra, estudou medicina em Buenos Aires e foi muito amigo de Frederico Aberastury, irmão de Arminda. Enrique Pichon-Rivière foi um dos pioneiros da psicanálise na Argentina e um dos fundadores da APA, em 1942.

Dona de uma beleza marcante, com cabelos muito negros, Aberastury ganhou o apelido de “La Negra”. Na década de 1970 foi atingida por uma doença de pele que a desfigurou e a levou a tal sofrimento que decidiu suicidar-se aos 62 anos.

Aliança terapêutica com os pais

Aberastury constatou que os pais, muitas vezes, tinham dificuldades em aceitar um tratamento psicanalítico para seu filho ou sua filha. Nesse caso, considerava que a atitude de manter a indicação para o tratamento da criança devia ter lugar apenas se o analista tivesse a convicção de que esta seria a única saída para libertar a criança de sua doença. Se esse fosse o caso, sugeria marcar entrevistas com os pais, com a intenção de prepará-los para a aceitação de um tratamento para o/a filho/a.

Para a autora, poucos dados verdadeiros eram obtidos nas entrevistas iniciais sobre as relações entre pais e filhos, pois os pais tendiam a distorcer a realidade por estarem muito mobilizados pela culpa e com seu narcisismo ferido. Desde o primeiro contato com os genitores, é importante que o profissional tenha uma postura de analista da criança, embora seu papel seja também o de tentar aliviar nos pais a angústia e a culpa que a doença do/a filho/a desperta.

Para o analista é importante observar o funcionamento da família, pontuando se vêm ambos os pais às entrevistas, como foi recomendado, se vem só a mãe justificando de alguma forma a ausência do pai, ou mesmo outra pessoa representando os pais.

Na entrevista inicial, Aberastury recomendava interrogar os pais a respeito de vários conteúdos básicos que considerava conveniente tratar antes de atender a criança. Esses aspectos eram: o motivo da consulta, a história da criança, como é um dia de sua vida cotidiana, o que faz nos finais de semana e feriados, como costuma passar seu aniversário, como é a relação dos pais entre si, com seus filhos e que proximidade tem de seus familiares. Acreditava que essa postura do analista interessado também pela realidade externa da criança provocaria nos pais uma redução de suas ansiedades persecutórias, favorecendo uma aliança terapêutica.

Todos esses detalhes ajudariam o analista a entender as necessidades da criança durante seu processo de análise. Na anamnese era essencial saber, também, se eram exigidos da criança movimentos compatíveis com sua idade, se os pais submetiam a criança a castigos e prêmios, se ela apresentava precocidade ou atraso em seu desenvolvimento e como eram suas reações diante das negativas que recebia dos pais.

Uma vez que o tratamento fosse contratado com os pais, na entrevista subsequente ao contato inicial com a criança o analista assumiria integralmente seu papel. Depois de estabelecido o contrato, a função dos pais se limitaria ao compromisso de fazer o filho chegar ao tratamento e pagá-lo. Caso os pais se propusessem a colaborar com o analista, a autora recomendava que se deixasse claro para eles o quanto já estavam cooperando ao permitir que o filho tivesse um tratamento, favorecendo dessa forma seu êxito.

Ideias desenvolvidas por Arminda Aberastury

Ansiedades do nascimento
A autora fez um paralelo entre as ansiedades do nascimento e o início do tratamento da criança. Ao começar sua terapia, o pequeno paciente viveria a separação inicial dos pais com ansiedades semelhantes às que conheceu à época de seu nascimento. A desconfiança que a criança apresenta em relação ao analista seria produto do medo de que se repita com este a mesma relação que a criança teve com o objeto original, temido e ameaçador. Quanto aos aspectos amorosos do objeto representado pelo terapeuta, estaria projetado nele aquilo que é próprio para curar o paciente.

Brincadeira e desenho
A primeira sessão de brinquedo era de grande importância, pois toda criança, mesmo muito pequena, mostrava desde a primeira sessão a compreensão de sua doença e o desejo de curar-se. A utilização sistemática da primeira hora de brinquedo para diagnóstico foi realizada pela primeira vez na Argentina por Aberastury, para depois passar a ser uma prática reconhecida mundialmente por todos os analistas que se dedicavam à análise infantil.

Dessa forma, Aberastury desenvolveu um trabalho original sobre a primeira sessão de brinquedo. Segundo a autora, por meio da técnica do brincar, apresentava-se a fantasia inconsciente da doença ou da cura. Assim, segundo ela, tanto a transferência negativa como a positiva deviam ser interpretadas à criança desde a primeira sessão de brinquedo, bem como no decorrer do tratamento, já que ambos os aspectos apresentavam-se sempre durante o contato com a criança.

Outra das técnicas utilizadas por Aberastury foi o método do desenho de Sophie Morgenstein (1937), considerado um dos mais importantes no tratamento psicanalítico de crianças. A partir da livre produção do desenho da criança, que sempre apresentaria conteúdos de seu conflito, o analista comunicava a ela suas interpretações. A autora manifestava restrições ao método do desenho em casos de crianças muito inibidas ou mesmo crianças muito pequenas, que teriam dificuldades em sua utilização.

Grupos de pais
Outra saída terapêutica recomendada por Aberastury seria encaminhar os cuidadores da criança para um grupo de pais/mães. Considerava que, muitas vezes, o sintoma de uma criança era fabricado por seus pais, que frequentemente mantinham ou mesmo agravavam o sintoma de seus filhos. Por outro lado, nem sempre uma orientação poderia mudar a atitude da mãe ou do pai, uma vez que seus próprios conflitos os impediriam de ter outro tipo de comportamento com seu filho ou sua filha.

Para Aberastury, os grupos ofereciam possibilidades otimistas para a profilaxia das neuroses infantis, principalmente quando começavam a ser frequentados por mães ainda grávidas. Eram grupos que visavam oferecer informações para que se promovesse um desenvolvimento saudável da criança e para que houvesse uma boa relação da criança com seus familiares durante a primeira infância. Tratava-se de um trabalho de prevenção da doença mental, já que era na infância que surgiam os problemas que mais tarde iriam resultar em um indivíduo muito prejudicado psicologicamente.

A postura de Aberastury de ver os pais como principais responsáveis pela problemática dos filhos a colocava em contradição com a teoria kleiniana que adotava. Embora, na teoria, Aberastury afirmasse que a subjetividade era constituída apenas pelo mundo interno, na prática procurou meios alternativos de considerar a influência do mundo externo na subjetividade da criança, como no caso dos grupos de orientação de pais. Essa foi uma solução intermediária encontrada por ela, pois, ao mesmo tempo que os pais eram levados em consideração, não eram incluídos diretamente no tratamento.

Por outro lado, Aberastury reconheceu a limitação do trabalho de orientação dos pais, já que, como seus conflitos com os filhos eram inconscientes, não era por meio de conselhos e recomendações que poderiam elaborá-los. No entanto, recomendava esse tipo de trabalho por acreditar que poderia diminuir as ansiedades dos pais.

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