Imersão total

No Ecocentro IPEC, em Pirenópolis (GO), o conceito de desenvolvimento sustentável é traduzido para a vida cotidiana

Compartilhe
, / 984 0





 









Vanessa Nakasato









 








Crianças e adolescentes de Goiás e do Distrito Federal têm a oportunidade de aprender educação ambiental
in loco

: dezenas de escolas públicas e particulares reservam pelo menos um dia do ano para visitar o Ecocentro IPEC – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado. Situado em uma fazenda no município de Pirenópolis, no interior goiano, foi estabelecido há seis anos com o objetivo de desenvolver tecnologias sustentáveis e ensiná-las para o público em geral, mas especialmente alunos de ensino fundamental e médio.Atualmente, é considerado referência mundial em vida sustentável e imitado em diversas partes do mundo.








A ferramenta de trabalho do instituto é a permacultura, metodologia de suprir as necessidades básicas de uma comunidade de forma ecológica, eficiente e com baixo custo. Em outras palavras, consiste em ocupar determinado espaço e seus recursos naturais de maneira consciente, planejada e sem desperdícios. O Brasil tem uma rede de oito institutos de permacultura. O Ecocentro IPEC é o mais antigo.







O diretor e fundador, André Soares, explica que a permacultura não é algo recente. “Ela só é novidade no Brasil. Mas o trabalho feito aqui, em compensação, é considerado modelo exatamente porque aprendemos com os erros dos outros. Tanto que, recentemente, recebemos 25 americanos aqui. Eles vieram passar três semanas e fazer um curso, que vale crédito na universidade deles nos Estados Unidos”, orgulha-se André, que montou um instituto de permacultura na Austrália, em 1989.









A grande diferença em relação aos demais institutos do mundo é que, no Ecocentro do Cerrado, há pessoas morando no local. Quem visita o lugar tem a percepção exata de como funciona o desenvolvimento sustentável. “O ideal é que a pessoa venha para ficar no mínimo três dias e passe um ciclo inteiro do organismo aqui: coma, beba, durma, faça suas necessidades. A partir do momento em que ela vivencia um pouco do nosso modo de vida, não é preciso mais apostilas. A integração com a natureza ensina o que páginas de livros não conseguem”, ressalta André.









No Ecocentro IPEC, cada detalhe é muito bem planejado antes de ser construído. A começar pelo sistema de calhas para captação de chuva, encontradas em todas as construções do instituto. As telhas são de cerâmica e a água fica armazenada em cisternas de ferrocimento, mais econômicas para construir e manter. Elas ficam na superfície; assim, não precisam de bombas e gasto energético para a água ser retirada. A água armazenada é utilizada, principalmente, para beber e cozinhar. A ausência de indústrias e poluição na região de Pirenópolis garante água de chuva limpa e potável.









Mesmo a água suja, vinda de chuveiros, tanques de lavar e cozinhar, passa por tratamento natural antes de ser reutilizada. A água proveniente das cozinhas comunitárias, por exemplo, vai parar em tonéis com plantas que a filtram, como alface da água e papirus. “A água suja vinda da cozinha não é nada mais do que uma água com excesso de nutrientes. Então, criamos ambientes para as bactérias povoarem e digerirem esses nutrientes. No último estágio do tratamento, ela sai limpa. Não dá para beber, mas serve para aguar a horta ou tomar banho”, afirma a bióloga e educadora ambiental Flávia Moraes, que mora no instituto.









Os alimentos também recebem cuidados especiais. O IPEC desenvolveu diversas técnicas consideradas tão eficientes quanto – ou até superiores – as tradicionais de monocultura, como o uso de agrotóxicos e de outros produtos químicos. A horta mandala é uma delas. Construída em forma circular para evitar o desperdício da água e facilitar o manuseio, ela parte do princípio da biodiversidade. As plantas são todas misturadas, dispostas conforme suas características. São as “plantas companheiras”. Alface, rúcula, agrião e cebola ficam todas juntas em um mesmo canteiro. Elas trocam nutrientes, sombreiam umas às outras e algumas, como alho, confrei e raiz forte, servem de repelente contra insetos. Essa é uma das técnicas utilizadas para sobreviver sem produtos químicos.









Para proteger o solo, a horta fica coberta com palha de arroz e folhas secas. O adubo é todo feito no próprio IPEC, com esterco animal e restos de comida da cozinha. Na hora de plantar, tudo é feito na sementeira, uma estufa construída para evitar o desperdício de sementes e manter boas condições de temperatura e umidade para o cultivo de mudas. O princípio mais importante da permacultura é a conexão. No ecossistema natural, não existe lixo. Todos os elementos são conectados e formam ciclos fechados em que os materiais não são perdidos. Os resíduos são sempre reaproveitados. As necessidades de um elemento são supridas com os resíduos e produtos de outros.









“Aqui, a gente usa os animais em conexão com as hortas”, afirma Flávia. “As galinhas são um elemento permacultural que, além de prover alimento para as pessoas, trabalham o solo antes de a gente plantar. Elas o limpam se alimentando de ervas daninhas e insetos invasores, e fertilizam o solo com esterco. As galinhas também se alimentam de restos de comida da cozinha. Então, fechamos o ciclo. O mesmo acontece com os porcos.”









Os coelhos também são elementos permaculturais indispensáveis. Fontes protéicas, eles são criados em gaiolas, em cima de minhocários. As minhocas se alimentam das fezes dos coelhos e dos restos de comida, transformando-os em húmus, adubo natural mais fértil. No IPEC, o esterco humano também é aproveitado, para adubar os jardins e a zona de reflorestamento. Todos os sanitários do instituto são secos e compostáveis.









Após utilizar o banheiro, moradores e visitantes acrescentam um pouco de serragem aos seus dejetos, o que ajuda na decomposição dos resíduos. Em cada banheiro, há duas câmaras. Quando uma está sendo utilizada, a outra fica fechada para que aconteça o processo de compostagem. As câmaras ficam lacradas por seis meses, a uma temperatura que chega a 80ºC.









Segundo Flávia, a temperatura da compostagem já é alta por si só. A ação das bactérias a eleva ainda mais. Existe, ainda, uma chapa metálica na câmara, pintada de preto, para absorver maior energia do sol. Essa temperatura por tempo prolongado mata qualquer patógeno que possa existir nas fezes, inclusive a lombriga, o mais resistente. Isso torna o adubo humano de alta qualidade. Ele só não é usado na agricultura por preconceito.









O cheiro? Não há mau cheiro. O ar sempre circula e os gases saem por uma chaminé que tem sistema de termofuncionamento. “O gás metano, liberado no processo, poderia ser usado, inclusive, como gás de cozinha. Só não temos isso ainda porque não tivemos tempo de desenvolver a tecnologia para comprimir esse gás”, diz a bióloga. As crianças, em geral, adoram o banheiro compostável. “Quando vêm turmas da mesma escola, o primeiro lugar que elas querem conhecer é o sanitário”, conta Flávia.









Os chuveiros ficam em outro ambiente. Decorados com mosaico colorido e bolinhas de gude, os vestiários não aparentam ter sido feitos com sobras de construções de Brasília. E quem deseja tomar banho tem de consumir o mínimo de água possível. Banhos demorados com direito a minutos de relaxamento, nem pensar. “Trabalhamos a conscientização e sensibilização das pessoas. Não temos água de sobra e a água quente é finita, pois é aquecida a luz solar. Se eu demorar muito no chuveiro, quando a última pessoa for tomar banho só terá água fria”, lembra Flávia.









As construções do Ecocentro IPEC não são menos planejadas. Erguidas em mutirões, elas impressionam qualquer pessoa que nunca tenha visto uma casa feita de terra. A maioria é feita de super adobe, uma técnica recente desenvolvida na Califórnia (EUA), que usa subsolo úmido em sacos de polipropileno. Socados, formam paredes. Além de ser fácil e economicamente viável, a temperatura dentro da casa é sempre agradável. Tanto no verão quanto no inverno, ela fica por volta de 22ºC.









“Só o vidro vem de fora. Cerca de 70% do que é extraído na pedreira de Pirenópolis é resíduo e nós o aproveitamos para fazer forno, fogão, mesa e bancos”, conta Flávia. Um grande auditório está sendo construído no IPEC, com cúpulas e salas anexas. A técnica usada, entretanto, é outra. O auditório está sendo feito de tijolos, produzidos no instituto com a terra retirada da construção e prensados manualmente. Ao contrário dos tijolos tradicionais, os do Ecocentro evitam o impacto ambiental, pois não há queima de olaria nem uso de carvão vegetal.









O IPEC tem algumas praças. A da Música é a que mais faz sucesso com as crianças. É nela que estão os brinquedos feitos de madeira e materiais recicláveis. O preferido é a gangorra. Seu movimento produz energia cinética e bombeia a água do lago ao lado, irrigando as hortas. “As crianças ficam encantadas quando percebem que sua brincadeira água as plantas”, diverte-se Flávia. “Adolescentes aprenderiam física facilmente com essa gangorra.”









Conforme a bióloga, a permacultura não ensina apenas educação ambiental. Ela pode ser interdisciplinar. O diretor do IPEC faz coro: “Aqui, é possível trabalhar conceitos avançados de química e física que as crianças só vão ver daqui a dez anos na escola. E o melhor é que elas vão entender, porque as conexões são óbvias e claras. A natureza serve para todas as disciplinas. Não há outro jeito de falar de matemática ou biologia se não for observando as interações que acontecem no mundo à nossa volta. Então, a educação ambiental é transdisciplinar, porque vai além de disciplinas”.









A estudante Julia Gomes Moreira, 11 anos, se empolgou ao perceber que estava vendo, em seu passeio, muita coisa que já aprendeu na escola. Sua alegria consistia em poder tocar plantas e animais, sentir o cheiro e a textura do que queria. “Quando a gente pode pegar e ver de perto é diferente. É mais fácil de entender”.









Na opinião do diretor, as escolas estão formando alunos incapazes de entender a natureza onde estão. “A criança vê tudo pelos livros, mas não entende como e onde ela interage com aquilo que estuda. Ela precisa ter suas lições incorporadas à sua realidade. Saber para onde vai seu xixi, de onde vem a energia elétrica ou a diferença de um legume sem agrotóxicos. Caso contrário, ela jamais brigará pela preservação do meio ambiente”.









Desde que o instituto foi fundado, mais de 10 mil crianças passaram por ali. Este ano, o IPEC começou a fazer parcerias com as escolas. Ao invés de visitas esporádicas, o instituto quer aumentar a quantidade de escolas conveniadas e levar as mesmas turmas várias vezes ao ano. Dessa forma, professores e Ecocentro podem focalizar as visitas por temas, prepará-las juntas e explorar cada assunto de maneira aprofundada.









Para Poliana Braz, coordenadora de projetos do Colégio Vovó Olívia, de Luziânia, interior de Goiás, a visita a um lugar como o IPEC é fundamental. “Trouxemos nossos alunos para que eles vissem que nós podemos viver sem poluir e degradar. Preferimos vir ao IPEC ao invés de visitar cachoeiras, porque aqui damos aos alunos uma oportunidade única. Um pai jamais trocará uma viagem para uma cachoeira para levar o filho em um instituto de permacultura.”









A coordenadora afirma ter se surpreendido com o comportamento de seus alunos. Ela diz nunca tê-los visto tão participativos, soltos e comunicativos.
 

“Senti um interesse incomum por parte das crianças. Houve interação o tempo todo, o sonho de todo professor.” A estudante Isabela Roriz Teodoro, 11 anos, diz que vai recomendar o lugar para seus amigos e voltará com seus pais assim que puder. Mas, antes, ela quer fazer uma horta como a do IPEC no quintal de sua casa.








www.ecocentro.org












Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN