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    Vilã clássica transformada em heroína De todas as atuais estrelas do firmamento hollywoodiano, Angelina Jolie talvez seja aquela que mais se pareça …

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Vilã clássica transformada em heroína

De todas as atuais estrelas do firmamento hollywoodiano, Angelina Jolie talvez seja aquela que mais se pareça com as divas dos anos de ouro, nas décadas de 1920 a 1950. Presença recorrente na mídia de celebridades (recentemente, por exemplo, em virtude de seu casamento com o ator Brad Pitt), ela administra sua carreira com zelo e perspicácia, atuando com frequência como produtora dos filmes nos quais atua. É o caso de Malévola (EUA, 2014, 97 min), produção da Disney que trabalha a imagem da atriz em plena sintonia com uma representação da mulher ao gosto do público feminino de hoje.

Nessa adaptação de A bela adormecida, o conto de fadas popularizado nas versões dos Irmãos Grimm e de Charles Perrault, a perspectiva não é a da princesa enfeitiçada, mas a da bruxa (Angelina) – na verdade, uma fada que se torna maligna ao lançar a maldição do sono eterno sobre a princesa angelical da história (Elle Fanning, de Super 8). O rompante de Malévola tem razão de ser: ela foi traída por um jovem ambicioso (Sharlto Copley, de Distrito 9 e Elysium), interessado em assumir o trono do reino vizinho ao de Malévola. Uma costura bem cuidadosa, portanto, de vilã clássica transformada em heroína.

As novidades contemporâneas de Malévola se concentram nessas variações em torno da trama clássica de que a própria Disney se encarregou, com o longa-metragem de animação lançado em 1959, de consolidar no imaginário infantil. Não é o que basta, segundo o entendimento da indústria cinematográfica, para atrair o público jovem. Assim, o filme recorre também a muita ação, com diversas cenas de lutas e batalhas. O tempo todo, no entanto, as luzes do filme convergem para Angelina, a sua estrela de beleza singular, perto da qual o restante do elenco se resigna à condição de coadjuvante.

Desajuste social

Filha da cineasta Tata Amaral (Antonia, Hoje), a diretora Caru Alves de Souza está lançando, aos 35 anos, seu primeiro longa-metragem: De menor, sobre o relacionamento entre uma advogada (Rita Batata) que defende crianças e adolescentes na Vara da Juventude de Santos, e seu irmão mais novo (Giovanni Galo), que se torna infrator.

Alguma experiência pessoal levou ao projeto de De menor?
Eu comecei a desenvolver o roteiro a partir das histórias que minha prima Michaela [Alves de Souza Silvestre] me contava da época em que ela trabalhava no Fórum de Santos, defendendo adolescentes e crianças. Comecei a me interessar mais por esse assunto e a me aprofundar nesse universo a partir de então.

É apenas coincidência que todos os seus filmes se dediquem a núcleos familiares?
Por enquanto, meus dois curtas e o meu único longa falam de jovens envolvidos em conflitos familiares que, de alguma maneira, espelham comportamentos sociais. Em Assunto de família, o jovem Rossi tem de conviver com sua família machista. Em O mundo de Ulim e Oilut, uma criança de 6 anos tem de ficar sozinha em casa enquanto sua mãe trabalha. Em De menor, o relacionamento conturbado entre Helena e Caio deflagra uma situação maior de jovens em conflito com a lei. Essas escolhas nunca foram completamente conscientes, mas olhando para trás, de fato, de coincidência não tem nada.

Em De menor, a personagem de Rita Batata diz que o irmão tem bom desempenho na escola como um argumento para que não seja internado. A pesquisa feita por vocês apontou para alguma relação entre desempenho escolar e falta de perspectivas sociais?
Eu ouvia muito esse argumento quando fiz a pesquisa no Fórum de Santos. O juiz, o promotor e o defensor levavam em conta o desempenho escolar e a situação familiar quando sugeriam alguma medida socioeducativa. Por isso achei interessante usar isso no filme. Muita coisa que vi durante a pesquisa serviu de inspiração para o filme.

A personagem de Rita alega também que alguém como o irmão poderia sofrer represálias se internado. A pesquisa foi capaz de revelar a incidência de infrações em relação a dados como classe social e cor de pele?
Esse diálogo reproduz um comportamento preconceituoso que existe na sociedade brasileira. Quando a personagem de Rita faz essa alegação, ela está se traindo, pois até o momento ela defende com unhas e dentes aqueles meninos que, em sua maioria, são pobres e negros. Mas quando ela vê Caio, um menino branco e de classe média, na mesma situação daqueles meninos cuja realidade social é tão distinta, ela não aceita que ele vá para o mesmo lugar a que eles vão. É quase como se ela achasse que aquele menino “bem cuidado” devesse ter um tratamento especial. Esse tipo de situação se vê a toda hora. Recentemente, foi publicado nas redes sociais um vídeo em que um pai discute com alguns policiais militares que querem levar seus filhos, negros, para a prisão, pois o vendedor de uma loja tinha achado que eles estavam ali para roubar, quando eles tinham ido lá comprar um tênis. Em outro vídeo, uma jornalista trata de maneira distinta dois adolescentes que cometem delitos: um, negro e pobre, que é amarrado num poste por ter cometido alguns furtos, ela chama de marginalzinho; e um adolescente rico e branco (o Justin Bieber), que comete uma série de agressões, ela diz que isso é típico da adolescência. A lista é infinita. Se você olhar a Fundação Casa, quem está lá? Jovens pobres. Pouca gente se pergunta as causas dessa situação. E nem sempre chegam à resposta, que para mim é óbvia: racismo, extrema injustiça social e desigualdade econômica que ainda existem na sociedade brasileira.

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