Iguais, mas desiguais

Pesquisa mostra diferenças entre escolas públicas do centro e da periferia

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Segundo estudo do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), as grandes cidades brasileiras sofreram profundas transformações ao longo dos últimos 30 anos. Hoje, a pobreza é menos homogênea. O tecido social tornou-se mais complexo e as desigualdades vão muito além da dicotomia entre pobres e ricos. Esse estudo propõe que existem níveis intermediários de condições sociais, considerando variáveis como acesso a recursos públicos e amparo social e político, que são determinados essencialmente pela localização geográfica.





A atual configuração do sistema escolar é expressão dessas mudanças, como mostra o artigo
Educação e Segregação Social: Explorando o Efeito das Relações de Vizinhança

, dos pesquisadores Haroldo Torres e Sandra Gomes, do Centro de Estudos da Metrópole. Eles avaliam que as escolas paulistanas, conforme uma tendência das grandes cidades, são influenciadas pelo local em que se inserem.






Nesta entrevista a
Carolina Ruy

, Haroldo Torres examina hipóteses em torno das possíveis razões para o fenômeno e aponta quais são, diante desse cenário de desigualdade promovido pela tentativa de oferecer igualdade, os desafios colocados hoje para o sistema escolar.






 







Segundo o estudo
Educação e Segregação Social

, as escolas localizadas em regiões mais pobres, por estarem onde estão, apresentam desempenho pior do que aquelas localizadas em regiões mais ricas?






O que constatamos foi que, no geral, pessoas igualmente pobres e com baixa escolaridade têm diferentes chances de concluir o segundo grau, conforme a região em que vivem. Constatamos que pessoas que vivem em áreas mais afastadas do centro têm menos chances. Esse é o nosso argumento. O fato é que o local onde fica a moradia contribui para o desempenho escolar, independente de se ter uma família educada e de ser pobre, estudar numa escola central é melhor do que estudar numa de periferia. Levamos em conta outros fatores que possam interferir na qualidade das escolas, o nível sócio-cultural em que se inserem, as condições econômicas etc. Ainda assim, há uma implicação na qualidade relativa ao local de moradia.




 





Como esse prejuízo causado pelo local de moradia se expressa e de onde ele vem?





A variável que usamos para dizer que as escolas de periferia estão em uma situação pior foi a taxa de conclusão do segundo grau. Através de dados do
Censo Demográfico de 2000

, avaliamos as taxas de conclusão do ensino médio de jovens de 18 e 19 anos. Não sabemos as causas, mas temos hipóteses. O que fizemos foi aplicar um método estatístico para chegar a esse resultado. Não temos indicadores de que a infra-estrutura das escolas seja pior, em termos de laboratórios, número de salas de aula, quadras de esporte etc. De um modo geral, as escolas estaduais seguem o mesmo padrão, embora seja mais freqüente encontrar bibliotecas, e em uso, nas escolas centrais. Dessa forma, a explicação parece não ser a infra-estrutura da escola.




 





E qual seria, então?





Uma hipótese diz respeito ao comportamento dos profissionais da área de educação. Os professores acham complicado dar aulas em escolas de periferia porque é mais perigoso, geralmente o acesso é mais difícil e gasta-se mais com transporte. Os professores tendem a escolher as escolas mais centrais, sobretudo os mais experientes, que têm mais oportunidade de escolha. Muitas vezes aqueles que vão para a periferia sentem-se punidos e discriminados pelo sistema de educação. Mas isso é uma hipótese e não um dado concreto. Sabemos que a Secretaria da Educação, num certo momento, cogitou instituir salários diferenciados para os professores da periferia. Essa atitude foi contestada pelo Sindicato dos Professores, que alegava que, pela universalização, os professores e funcionários das escolas deveriam operar em condições idênticas independente das regiões. Isso aconteceu na área da saúde mas, mesmo assim, não se conseguiu atender toda a demanda de médicos nas áreas mais pobres. Outra hipótese tem a ver com o Estado, que organiza o sistema educacional de forma que torna mais complicado oferecer ensino na periferia.




 





E as comunidades?





A terceira hipótese tem a ver com elas. A questão é a natureza das relações sociais no interior das comunidades, e de como elas são representadas nas escolas. Em áreas centrais, as classes tendem a ser mais misturadas, têm mais alunos de classe média, têm uma dinâmica interna que favorece o ensino. A idéia é que os alunos aprendem uns com os outros, uns servem de exemplo para outros, uns puxam os outros. As escolas de periferia são mais homogêneas. Há, entre os alunos, menos diversidade social e, assim, menos contato com outros grupos sociais. Geralmente os alunos são filhos de pais muito pouco escolarizados, acabam não aprendendo com o colega, não tendo incentivo. Isso pode vir também do modelo de adulto que se tem ao redor. Em áreas mais pobres, esse modelo de “para que vai servir, no futuro, estudar?” tem um impacto muito forte. E há, entretanto, uma diferença de chances de inserção dos jovens no mercado de trabalho que faz com que as escolas não sejam iguais nas várias regiões. A influência dos pais é muito determinante, principalmente o exemplo que representam aos filhos. No artigo, citamos o estudo elaborado por Ricardo Paes de Barros que fala sobre o impacto que a escolaridade da mãe tem sobre o progresso escolar dos alunos. Isso tende a causar um movimento cíclico, que chamamos de “transmissão intergeracional” da pobreza e da baixa escolaridade. Existem também outros problemas mais recorrentes nas regiões mais pobres: classes superlotadas, muita rotatividade de professores e diretores. Não avaliamos as causas, mas verificamos que há uma diferença na performance escolar entre o centro e a periferia.




 





Qual o ponto principal?





O que estamos interessados em perceber, em termos de políticas públicas, é que mesmo mantendo a infra-estrutura, o padrão igual universalizado, isso ainda não é suficiente para transformar a performance escolar desses indivíduos que estudam em escolas da periferia. Segundo a lógica da universalização do ensino, para evitar o aparecimento de escolas de elite, o mesmo padrão é imposto em escolas que se encontram em situações e contextos muito diferentes. Vem daí o desamparo das escolas de regiões mais pobres, e a carência de atenção especial. Universalizar a escola não quer dizer que todos os alunos seguem, ou têm condições de seguir, o mesmo padrão.
 





 







As escolas privadas também sofrem quando localizadas a uma distância muito grande do centro?









Estamos falando de escolas públicas, não estamos observando o sistema privado. Sabemos que há uma diferença brutal, em relação ao desempenho escolar, entre as escolas públicas e particulares, mas, no geral, a população mais pobre freqüenta a escola pública, e em nossas análises estamos pensando em políticas públicas. De um modo geral, nas regiões mais pobres a escola é menos valorizada, porque muitas vezes os jovens não podem deixar de trabalhar para se dedicar ao estudo, e eles também não vêem muita perspectiva nesse caminho. Mas temos que tomar cuidado com o que chamamos de periferia. Alphaville, por exemplo, é periférica, mas está fora do nosso objeto de estudo.








 









Quais os indicadores de qualidade da escola?









O que é usado internacionalmente é a avaliação do desempenho. Hoje, há várias formas de medir o desempenho: ENEM, SAEB, SARESP. É a medida de ouro nas comparações das escolas. Pegar grupos num certo momento com o mesmo tipo de teste. O problema é que não capta quem saiu ou foi expulso da escola. Mas é um indicador universal. Os outros indicadores que usamos são os disponíveis no senso escolar: se tem biblioteca ou não, se tem sala de informática, se tem laboratório de ciência, quadra de esporte, merenda, transporte, material escolar. Também, além de ver se tem, é preciso ver se esses instrumentos são usados. Existe ainda o problema dos turnos. Em algumas escolas, ainda funciona o regime dos quatro turnos (das 7h às 11h, das 11h às 15h, das 15h às 19h e das 19h às 23h). As escolas centrais tendem a ser menos congestionadas, com menos alunos por classe. É mais comum que haja turnos de cinco horas, ou seja, o volume de atenção que o aluno recebe é maior.








 









Nas análises de vocês, há alguma perspectiva traçada? Vocês apontam algum tipo de solução?









A natureza do argumento é que, para regiões com problemas específicos, há que se ter uma política específica, um olhar mais cuidadoso. É possível que uma política escolar que se pretende diferenciada, numa região altamente carente, tenha um efeito positivo do ponto de vista da autoestima, do estímulo à vontade de estudar. É um pouco a idéia dos Centros de Educação Unificados (CEUs), de levar um equipamento não só material, mas também teórico e de pessoas, às crianças que estão em piores condições socioeconômicas. O fato é que as escolas mais afastadas carecem de maior atenção e de programas políticos mais cuidadosos do que as escolas de regiões mais ricas das cidades. Caso contrário, o aluno vai chegar lá na frente pior do que o outro, se chegar. Seria interessante também a integração das comunidades nas escolas, apontando problemas, propondo atividades e soluções. Não estamos propondo que as escolas da periferia venham a ser iguais às escolas das áreas mais centrais.








 









Mas não é isso que ocorre na prática?









A política é universalizada, não é? Independente das carências específicas de cada lugar, a política segue o mesmo padrão. É preciso pôr a periferia na agenda. O que aconteceu foi o seguinte: se conseguiu uma coisa muito importante, que foi a universalização do ensino fundamental. Hoje, temos uma taxa de escolarização no ensino fundamental, para crianças de 7 a 14 anos, de 98%. Em 1980, essa taxa era de 80%. Quem não está na escola é por algum motivo excepcional, não porque não tem escola. Em estados mais desenvolvidos, como São Paulo, o produto líquido dessa universalização chegou a 54% em 1999. Quer dizer que aí a agenda de universalização do ensino fundamental está praticamente assegurada. Essa universalização, e em todo mundo é assim, fez com que baixasse a qualidade do ensino. É preciso ser menos exigente para conseguir universalizar e manter as pessoas dentro da escola. O que importa é manter o aluno e não criar incentivos para que ele saia da escola. O sistema de progressão automática, em que não se repete de ano, vai nessa lógica de segurar os alunos. Com isso, conseguiu-se de fato aumentar muito a cobertura. Agora, o desafio, que é um grande desafio, é melhorar a qualidade do ensino. E essa discussão está muito pouco madura. Comparando o nível de desempenho escolar que havia antes e o que há agora, desde por volta dos anos 90, o resultado é praticamente equivalente. Antes, a qualidade do ensino era superior, mas havia menos jovens nas escolas. É como se a universalização tivesse nivelado por baixo. O grande desafio agora é melhorar a qualidade do ensino nessas regiões onde a escola é ainda pior que o comum.





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