Ignorância e Estupidez

Apesar do empenho de escolas, governo e entidades, aids bate recorde histórico – e jovens estão deixando de usar preservativos

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Martha San Juan França*

Em todo o mundo, a epidemia de aids bateu recordes em 2003: 5 milhões de pessoas foram infectadas e 3 milhões morreram. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são os piores resultados já registrados desde que a doença foi identificada, em 1981. Estima-se que 40 milhões de pessoas no mundo sejam portadoras do HIV.

Foi-se o tempo em que uma geração assustada de brasileiros defrontava-se com campanhas aterrorizadoras do tipo: “Se você não se cuidar, a aids vai te pegar.” Mensagens como essa fizeram fama no século passado, quando ídolos como Cazuza, Renato Russo, Betinho e tantos outros morreram vítimas de uma doença devastadora e para a qual não havia cura, transmitida pelo sangue ou via sexual por um vírus que destruía as defesas do organismo. A geração da liberação sexual e da pílula anticoncepcional tinha um medo mortal da aids, mas não sabia usar a camisinha e, portanto, se prevenia pouco. Mas o jovem de hoje, que está se preparando para iniciar a vida sexual, ao contrário, parece não ter tanto medo.

No Brasil, de 2000 a 2002 foram notificados 531 novos casos de aids em meninas de 13 a 19 anos, contra 372 em rapazes da mesma idade – a relação praticamente se inverteu, com dois novos casos em mulheres para um caso em homens logo no início da atividade sexual.

Há várias explicações para isso. As estatísticas oficiais brasileiras apontam o início da atividade sexual cada vez mais precoce entre os adolescentes. Enquanto na década de 80 os jovens tinham a sua primeira relação entre 16 e 19 anos, hoje, o início da vida sexual ocorre entre os 14 e 15 anos. Não são relações estáveis, mas “ficadas”. Além disso, é preocupante a proporção de jovens com idade entre 15 e 24 anos que deixou de usar o preservativo porque “conhecia” o parceiro (“relação estável”): 72,6% dos homens e 43,8% das mulheres, segundo pesquisa do Ministério da Saúde. O abandono do uso do preservativo está relacionado à existência de afetividade e de entendimento por parte do casal de que está vivendo um relacionamento de confiança.




Tão jovens –

Os números de abortos na adolescência também são preocupantes. Foram 210.946 partos e 219.834 casos de abortos atendidos no Sistema Único de Saúde na faixa etária de 10 a 19 anos, no período de 1999 até abril de 2003. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de partos em jovens com idade entre 10 e 14 anos cresceu 31% desde 1993. Pior: 48% dos abortos previstos por lei são de meninas de 10 a 19 anos.

“Quase todas as escolas brasileiras têm ações de prevenção contra a aids e outras doenças sexualmente transmissíveis”, afirma Denise Doneda, psicóloga responsável pela Unidade de Prevenção do Programa Nacional de DST/aids. “Algumas são pontuais, como palestras, semanas de saúde, discussão nas aulas de biologia; outras são mais efetivas, traduzidas em campanhas que ocorrem o ano todo.”

Também não faltam livros a respeito. O kit distribuído para 6 mil escolas pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, por exemplo, tem quase 30 publicações sobre o assunto para todas as etapas do ensino. São livros que abordam a questão da discriminação contra o soropositivo, como deve ser tratado o tema da sexualidade nas escolas, gravidez na adolescência, drogas, liberdade de decisão, além de uma cartilha contendo respostas para as perguntas mais freqüentes dos estudantes sobre namoro, virgindade, corpo erótico e reprodutivo, camisinha e, claro, aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

A batalha pela prevenção da aids nas escolas é ainda mais direta. Os responsáveis pelos programas criados pelo Ministério da Saúde e da Educação enfrentam abertamente a questão da transmissão do HIV e a vulnerabilidade dos adolescentes, incentivando o uso de preservativos no caso de jovens que mantêm relações sexuais. Um programa-piloto realizado em cinco municípios do país (Rio Branco e Xapuri, no Acre; São José do Rio Preto e Itaquaquecetuba, em São Paulo; e Curitiba, no Paraná) prevê o acesso gratuito de até oito preservativos/mês por aluno inscrito com mais de 14 anos. A meta é alcançar 2,4 milhões de jovens até 2006.

No dia mundial de combate à aids, em dezembro passado, uma exposição de fotos de celebridades realizada na cidade de São Paulo mostrou atores e músicos como Luana Piovani, Reynaldo Gianecchini, Supla e Igor Cavalera (do Sepultura) posando com uma camisinha como parte de uma campanha de prevenção. Na mesma época, alunos de cinco escolas estaduais da Diretoria de Ensino Centro participavam de uma exposição de artes plásticas cujo tema era a aids. Renato Araújo, de 16 anos, da Escola Estadual Canuto do Val, destacou-se com um desenho do vírus HIV feito de balas. “É uma crítica àqueles que dizem que transar com camisinha é como chupar bala com papel”, explicou o estudante, orgulhoso de sua obra.

Internos da Febem do Tatuapé, também em São Paulo, orientados por técnicos do Programa Nacional de DST/aids escreveram a letra de um rap, depois adaptada pelo vocalista do Facção Central, Eduardo Tadeu, e apresentada no vídeo A Informação é a Luz, sobre as dúvidas mais freqüentes a respeito de aids, gravidez e sexo na adolescência, sem contar o uso de drogas injetáveis. “O rap é uma forma de levar voz aos que não têm voz”, disse o músico que fez questão de participar do projeto.




Na brincadeira –

Outra iniciativa de sucesso vem do Instituto Kaplan, centro de estudos de sexualidade humana que também orienta professores na sua atuação direta com adolescentes. Em parceria com a Johnson & Johnson, o instituto criou um material educativo para auxiliar o educador, chamado Jogo de Corpo. Trata-se de uma proposta de como se trabalha a sexualidade, abordando temas como primeira relação, masturbação, gravidez na adolescência, aborto e abuso sexual. Uma parte do material é composta de sugestões de jogos, entre os quais um específico de perguntas e respostas sobre doenças sexualmente transmissíveis e aids. O material, à disposição apenas no Instituto Kaplan, inclui um pênis de borracha para demonstração de como se coloca o preservativo, um display de plástico do aparelho genital feminino para a demonstração do absorvente interno, dois preservativos masculinos e cinco absorventes internos femininos. “O jogo é uma forma de levar orientação sem mexer com a vida particular das pessoas e permite que o professor aborde questões difíceis de uma forma lúdica”, diz a diretora do Instituto Kaplan, Maria Helena Brandão Vilela.




Teoria e prática –

Com tamanho bombardeamento de informações, difícil é o jovem não saber como se prevenir. “Os alunos têm uma noção muito boa de como utilizar a camisinha, sabem como põe, sabem que deve ser colocada antes da relação”, conta a professora Maria da Conceição Mucheroni, que trabalha na prevenção da aids entre adolescentes desde 1985 e foi uma das organizadoras da mostra Vida Positiva, evento que envolveu 63 escolas da rede pública na exibição de filmes, palestras, músicas e peças teatrais preparadas pelos próprios alunos para difundir o conceito de cidadania e todas as questões voltadas para a sexualidade na adolescência. “Quer dizer, teoricamente, eles sabem bastante. Na prática é outra coisa.”

A ressalva da professora tem motivos. A superexposição do corpo e da sexualidade humana na TV, de um lado, contrasta com a falta de diálogo em casa, onde as relações familiares também passam por uma revolução. “É difícil conversar”, constata Carolina Moraes Pinto, de 17 anos. Ela conta que sentiu o problema em casa, quando sua irmã, na época com 16 anos, engravidou (o mesmo ocorreu com a prima). Ela agora participa do projeto Escola da Família, no Estado de São Paulo, e faz teatro. No evento Vida Positiva, Carolina foi uma das atrizes de uma peça sobre o problema da aids entre adolescentes. “A idéia foi ajudar mais gente a abrir a cabeça para essa desgraça”, comenta.

A pedagoga Teresinha Pinto, presidente da Associação para Prevenção e Tratamento da Aids e Saúde Preventiva (Apta), acredita que, por mais que professores e especialistas se esforcem para dar uma boa orientação a seus alunos, a questão da sexualidade é muito delicada e continua a ser um grande desafio para as escolas. “Muitas vezes, o modelo aterrorizador do início da epidemia [‘Cuidado, a aids vai te pegar’]  foi substituído por outro também autoritário, ainda que travestido de discurso democrático por conter metodologia participativa”, afirma.

Segundo ela, o modelo de ação que faz prevenção “para o outro” não traz resultado no tempo e espaço desejados. “Por ser um modelo ‘para alguém’, produz ordens, ditadas em campanha ou material informativo, como ‘use camisinha’ ou ‘converse com seu parceiro'”, diz. A Apta organiza há sete anos o Educaids, um grande fórum de discussão de pessoas, técnicas e tendências de educação preventiva, no qual são mostradas as experiências já utilizadas nas escolas do Brasil e em algumas de outros países.

Com a experiência desses encontros, Teresinha Pinto afirma que “os grupos de adolescentes – em que um adulto ‘simpático’ e ‘moderno’ dirige, ensina o que deve ser feito – proliferam na mesma proporção da gravidez dita ‘fora de hora'”. Em contrapartida, ela acredita, o melhor modelo – mas que tem imensa dificuldade de se impor como opção de trabalho nas escolas – é o dos grupos coordenados por adolescentes. “São nesses grupos que se encontra o terreno fértil para a compreensão da realidade dos jovens e principalmente para o estabelecimento de uma relação de diálogo com eles.”

Teresinha acrescenta que esse modelo considera o dado da aids como um colaborador na elaboração de estratégias e não o seu determinador. “Pressupõe tempo e vínculo, a compreensão da extensão do conceito de vulnerabilidade e o compromisso com o exercício da cidadania”, frisa.

A idéia de usar um jovem para falar aos jovens, principalmente do sexo feminino, sobre a prevenção da aids foi incorporada pelo Ministério da Saúde na campanha de carnaval do ano passado (“Mostre que você cresceu e sabe o que quer”), que teve como estrela a cantora Kelly Key. Em outdoors, publicidade em revistas, rádio e TV, a cantora mostrava como se devia exigir que o parceiro usasse camisinha e afirmava que não era nenhuma vergonha comprar preservativos ou carregá-los na bolsa. A campanha causou polêmica e Kelly Key tornou-se alvo de ativistas da sociedade civil na luta contra a aids, sob a alegação de que a cantora de Baba, Baby não possuía perfil para falar a jovens brasileiras e suas músicas incitavam “desrespeito” a relações amorosas e sexuais.

Quatro meses depois, a Coordenação Nacional de DST e aids do Ministério realizou uma pesquisa sobre o resultado da campanha: 84% das entrevistadas acharam que ela havia reforçado a idéia de responsabilidade das mulheres na compra de preservativos e de seu poder de decisão de usar a camisinha com seus parceiros, assimilando, dessa forma, uma das mensagens mais importantes da campanha. Mesmo com tanta discussão a respeito da figura de Kelly Key, os resultados da avaliação mostraram que a campanha atingiu seu objetivo, que a mensagem foi aprendida pelo público-alvo e, sobretudo, que a prevenção da aids não segue padrões sociais.

Por questões como essa e outras, afirma o professor Edson de Almeida, da Fundação de Desenvolvimento da Educação (FDE) de São Paulo, os projetos de prevenção da aids bem como os programas de sexualidade das escolas não podem ficar a cargo apenas do professor de biologia ou de educação física, por mais bem intencionados que eles sejam. Almeida é um dos coordenadores do programa Prevenção Também Se Ensina, da Secretaria de Educação de São Paulo, que atinge 3.468 escolas de 1a a 4a séries dos ensinos fundamental e médio.

“O programa envolve muito mais do que uma ou outra disciplina”, explica o professor. O caminho adotado é o da consulta direta aos jovens, que levantam dúvidas, possíveis problemas e temas para discussão. Ele lembra que, quando se discute a sexualidade na adolescência, a questão das normas sociais que regem o comportamento dos jovens inevitavelmente abre questionamentos difíceis.

Na prática, também significa que a questão deve ser tratada cedo, de preferência no ensino fundamental. “A criança aprende desde cedo a lidar com a frustração e as diferenças, a ter habilidade para negociar o seu desejo, a tomar decisões complicadas e a ter paciência”, afirma Almeida. “São realidades como essas que vão capacitá-la a prevenir-se mais tarde.” E de uma coisa os especialistas têm certeza: a única forma eficaz de combater a aids é a prevenção primária por meio da educação sexual. Só depois de trabalhar bastante tempo com essa questão, os jovens terão segurança para enfrentá-la.





As dúvidas de sempre

O que devo fazer se o resultado do teste de HIV der positivo?

É importante que você saiba que esse teste não vai dizer se você está com aids ou não, ele vai dizer se você tem o vírus HIV ou não. Isso é bem diferente, pois, quando o HIV entra em nosso corpo, ele fica “incubado” durante muito tempo, ou seja, fica “dormindo” dentro das células de defesa de nosso organismo. E também não há certeza se todos os que são soropositivos para o HIV vão desenvolver a doença. Portanto, muitas pessoas saudáveis podem ter o vírus e transmiti-lo sem saber. Apesar de essa notícia ser preocupante e muitas vezes nos abater, procure encontrar alguém com quem possa desabafar e que possa ajudá-lo a pensar no assunto.


E




u posso me contaminar com o HIV por meio do beijo de língua?

Não. O HIV já foi encontrado no suor, na lágrima, na saliva e na urina. Mas não temos nenhum caso de alguém que se contaminou dessa forma. O que contamina a gente não é um vírus, mas uma carga virótica, uma quantidade grande de vírus. Só para ter uma idéia, os médicos dizem que para nos contaminarmos com esses líquidos, seria necessário um balde cheio com algum deles, o que é impossível.




Como eu devo tratar uma pessoa que tem aids? Que cuidados eu devo ter para não me contaminar?

Você deve tratá-la como gostaria de ser tratado se estivesse na situação dela. A amizade, o afeto e o companheirismo são muito importantes nessa hora. Não a trate como um ser de outro planeta, com estranheza, curiosidade ou medo. Trate-a como uma pessoa igual a você. Você não corre perigo de pegar o HIV no convívio social. Usar o mesmo banheiro, o mesmo copo, talher ou prato, comer do mesmo sanduíche, usar a mesma roupa, toalha ou sabonete, nada disso transmite aids. Mas você pega o HIV transando sem camisinha.




Como eu posso me prevenir da aids?

O primeiro passo é reconhecer que todos(as) podem ser infectados pelo vírus da aids. Com isso nos responsabilizamos e buscamos maneiras de prevenir e evitar a infecção. Só assim você não vai ser pego(a) de surpresa, como muitos que se contaminaram porque acreditaram que isso nunca iria acontecer com eles(as). Não compartilhe agulhas e seringas usadas por outras pessoas. Exija sangue testado para transfusões. Veja se o seu dentista usa luvas e esteriliza os instrumentos, pois ele mexe com quantidades grandes de sangue. Muito importante é o cuidado nas relações sexuais, oral, anal e vaginal. Converse sempre com a pessoa com quem você transa. Fale sobre aids, fidelidade, infidelidade, quando fazer o teste de aids etc. Atenção: alguém que ama a gente e que a gente ama pode transmitir o vírus da aids. A camisinha é sinal de amor e cuidado com o outro. Pense nisso.




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Cartilha distribuída às escolas estaduais como subsídio às ações educativas de prevenção e promoção da saúde, propostas pelo programa Prevenção Também se Ensina, da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo






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