O que influencia a preparação de uma aula de educação física



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© Gustavo Morita
Aulas de tênis em escola no bairro do Capão Redondo: as crianças escolheram a modalidade

Como uma disciplina de conteúdo aberto e muito dependente da criatividade do professor, a educação física nas escolas deve se adaptar à infraestrutura oferecida, à faixa etária dos alunos e mesmo à realidade social de cada grupo. Mesmo aquelas escolas que investem fortemente em atividades físicas e esportes precisam saber separar o momento da aula para todo o grupo daqueles que querem se aperfeiçoar em uma modalidade.

Para colocar em prática algumas ideias, é preciso improvisar. Na Escola Estadual Heidi Alves Lazzarini, o professor Leandro Rodrigo Santos de Souza está desenvolvendo o estudo do jogo de tênis entre seus alunos do 4º e 5º anos. Situada no extremo sul de São Paulo, no bairro do Capão Redondo, a escola não tem uma quadra adequada para a prática do esporte – nem locais próximos que possam abrigar a atividade. A solução foi montar uma quadra ajustando a altura da rede de vôlei; as primeiras raquetes e bolinhas foram adquiridas pelo próprio professor. “Temos de reconhecer a cultura local na aula de educação física, mas não podemos deixar de lado o que os alunos veem na TV. Perguntei a eles sobre um esporte que nunca jogaram e surgiu a ideia do tênis”, explica Souza.

As aulas de tênis começaram com um mapeamento feito pelo professor sobre o que eles sabiam do jogo, que roupas eles usavam, quais os nomes de alguns jogadores. Os alunos também estudaram a história do esporte e seu esquema de pontuação, muito diferente do futebol. “Eles também questionaram a comemoração dos jogadores e sobre a diferença entre fazer um ponto no tênis e fazer um gol no futebol”, conta. Só então os alunos puderam ir para a quadra manusear a raquete e tentar seus primeiros movimentos no tênis. Para Souza, que mora na região e começou a trabalhar na escola em 2009 como inspetor de alunos antes de se formar na faculdade, o ponto de partida das aulas de educação física é sempre o diálogo entre as crianças e o professor.

Para turmas de alunos mais novos, a estratégia de atuação precisa levar em conta a idade das crianças, o que abre espaço para mais dança e brincadeiras. A professora Aline Nascimento, da Emef Virginia Camargo, na zona leste de São Paulo, viu nas salas de 1º a 3º anos do ensino fundamental a oportunidade de trabalhar com temas mais próximos da realidade das crianças, grande parte oriunda de fora da capital, filhos de migrantes de estados do Nordeste e imigrantes de países como Bolívia e Peru. “Começamos a tematizar as brincadeiras nacionais, típicas das cidades onde eles nasceram, para com isso discutirmos a questão do espaço. Num segundo momento, vamos trabalhar com as brincadeiras dos imigrantes”, conta Aline. Com isso, as manifestações corporais começam a fazer sentido também como formação de identidade.

Estrutura

Mesmo as escolas com boa estrutura para a prática de educação física precisam saber com clareza qual a função pedagógica dessas atividades. A unidade do Colégio Mackenzie em Barueri, Grande São Paulo, é conhecida por dar bastante espaço à educação física e aos esportes de modo geral – há quadras cobertas, ginásio com arquibancada, campo de futebol, minipista de atletismo, piscina aquecida e salas para judô e esgrima, entre outras instalações. De acordo com Ronie Hornos, coordenador da área no colégio, as atividades seguem três modelos: as aulas que fazem parte do currículo; as equipes que fazem treinamento como atividade extracurricular; e os cursos pagos. As aulas curriculares ocorrem duas vezes por semana.

“Há uma pressão muito forte para que as matérias de sala de aula ganhem mais espaço tendo em vista o vestibular e o Enem”, explica o professor. Mesmo entre os pais, há aqueles que não compreendem a importância da educação física. “Precisamos ter um olhar também para os pais, explicar que os jogos e os esportes precisam ser valorizados para a formação de um indivíduo completo”, diz Hornos.

Na prática, enquanto os alunos da educação infantil começam com jogos pré-desportivos e brinquedos de corda, circo e malabares, os mais velhos começam a trabalhar com esportes e atividades para o desenvolvimento físico. “As questões culturais e sociais não podem ser descartadas. O professor não está fechado ao currículo e tem liberdade para suas aulas”, afirma o coordenador. Os alunos com mais destaque nos esportes passam por seletivas e podem integrar as equipes de treinamento, em horários alternativos. “Muitos ex-alunos nossos conseguiram bolsas de estudo fora do país por causa do esporte”, conta.

Hornos lamenta, no entanto, que a seleção de alunos na escola não seja uma prática disseminada. “O Comitê Olímpico Internacional recomenda que países em ciclo olímpico (período de sete anos) tenham em seus currículos cinco aulas semanais de educação física. O Brasil infelizmente não caminhou para isso”, diz. Para Amparo Villa Cupolillo, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o esporte de alto rendimento, por muitos anos um modelo para a disciplina, agora já caminha com as próprias pernas, sem depender do professor de educação física nas escolas. “A estrutura esportiva das escolas públicas é muito precária. A escola não tem a competência nem para onde encaminhar esses alunos talentosos; ela só fica assistindo”, observa.

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