História sem fim

Sessões de leitura encantam alunos do 1º ciclo do ensino fundamental

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Carmen Guerreiro











 Alunos da Emef Professor 

Geraldo de Almeida, em São José dos Campos (SP): incentivo ao mecanismo de visualizar por meio da audição


As crianças entraram na sala de aula ao som de um pequeno sino, que uma mulher, de vestido vermelho e xale pendurado nos ombros, tocava devagar. Olhares desconfiados, encantados e arregalados, elas não queriam perder um só minuto daquela novidade. Foram conduzidas até as cadeiras, onde aguardaram, ansiosas.

A sala de aula estava diferente naquela tarde. Enfeitada com cartazes, panos, tapetes, livros, uma boneca e outros acessórios. Três músicos, no fundo da sala, com vestes coloridas e festivas, estavam cercados de instrumentos musicais, muitos deles nunca vistos pelos alunos, que examinavam de longe, curiosos.

Com um toque mais forte do sino, a mulher de vermelho anunciou: “O rouxinol”. No mesmo instante, o silêncio se instaurou e todos os olhos se voltaram para ela. De pé, Élida Marques começou a contar a história de um rouxinol que vivia no bosque próximo ao palácio do imperador da China, muito, muito tempo atrás.

Os músicos acompanharam a leitura com uma trilha sonora. Sempre com o livro na mão, Élida andava no meio das crianças, gesticulava e entoava a voz dos personagens, com seus altos e baixos.

Alguns alunos acompanhavam a contadora da história com a cabeça, prestando atenção. Outros, encantados pelos instrumentos, observavam os músicos.

A sessão de leitura em questão foi realizada na Emef Professor Geraldo de Almeida, em São José dos Campos (SP), e faz parte do projeto Ler é uma Viagem, que percorre escolas públicas municipais dos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo ao longo do ano contando histórias para crianças do primeiro ciclo do ensino fundamental.

Além de ser a contadora de histórias do grupo, a atriz e cantora Élida também coordena o programa, cujo objetivo é incentivar a leitura. “Ela vem por meio de uma paixão. Quem lê hoje é porque teve o exemplo, seja porque viu alguém lendo ou porque alguém leu para ele de uma maneira encantadora”, explica.

Para Élida, é difícil ver, quando chega a uma escola, quem foi incentivado ou não, mas ela tem certeza de que os alunos conhecerão um exemplo de leitura diferente. “Em algumas crianças, isso vai ficar para o resto da vida”, acredita. A diretora da escola, Edna Garcia, diz que a maioria de seus alunos não se interessa pela leitura, mas que estão interessados em ouvir a história. “Assim, é uma sementinha que plantamos”, diz.

A professora da sala de leitura, Ivani da Fonseca, levou os alunos da turma de teatro que orienta no colégio para assistir à sessão do Ler é uma Viagem.

Empolgada, ela conta que quem a estimulou à leitura foi seu professor da 4a série do EF. Em todo início de aula, ele começava a contar uma história e não terminava, deixando os alunos na expectativa. “Os primeiros leitores são aqueles que escutam histórias.

Ouvi-las é o que forma a competência à leitura e incentiva a criatividade e imaginação”, afirma.

O projeto surgiu em 2002, ainda sem patrocínio, com um orçamento modesto, para ser realizado apenas na cidade de São Paulo. Hoje o grupo já tem mais infra-estrutura e, depois de cada sessão de leitura de meia hora, distribui às crianças livretos com oito histórias, entre elas a que foi contada na ocasião. Também está sendo produzido um documentário para um DVD com o resultado do projeto nas escolas.

Todas as histórias usadas pelo grupo são do contista dinamarquês Hans Christian Andersen, famoso por suas fábulas como O Patinho Feio, A Pequena Sereia, O Soldadinho de Chumbo e A Roupa Nova do Imperador. O efeito lúdico dos contos levou a equipe a criar um ambiente para aproximar a história da platéia mirim. Élida conta as histórias sozinha, usando diferentes tons de voz para interpretar cada personagem, e um mais neutro para o narrador. Ainda assim, tem medo de que a atividade seja confundida com um “teatrinho”, que teria diversos atores e outros elementos envolvidos.

“Não tem como fugir da interpretação, mas pesquisamos formas para que ela não interfira na leitura”, diz. Dessa forma, a contadora não deixa de ler trechos do texto como “disse o Imperador”, após uma fala. “Eu falo o que está escrito, porque estou lendo, e brinco com a interpretação apenas para dar voz aos personagens e diferenciá-los, já que as crianças não estão vendo o sinal gráfico do travessão. Com isso, eles vão entendendo o mecanismo de visualizar por meio da audição.” A produtora de viagem do projeto, Mariana Huck, chama atenção para o fato de que o grupo só fica um dia no colégio.

Assim, acredita que o trabalho precisa de continuidade e, se o diretor da escola não entende a proposta, tudo dá errado. “É ótimo produzir o encantamento nos alunos, mas quem deve continuar o trabalho em sala de aula são os professores. Se eles não estiverem preparados, não adianta nada”, argumenta.










 Músicos que acompanham as sessões de leitura: muitas crianças nunca haviam visto instrumentos


“A criança é o futuro, mas quem dá a ferramenta para que ela possa ser o futuro são os adultos.” Por isso, o plano da equipe é, em 2007, se reunir com os professores de cada escola antes de se apresentar, para realizar um trabalho de formação e para que os educadores saibam como lidar com o tema na sala de aula antes e depois da visita.

No final da leitura, Élida se apresenta e fala aos alunos: “essa foi uma sessão de leitura”. As crianças se entreolham, confusas, até ouvirem a explicação. Depois da história do rouxinol e do imperador da China, quando o espaço foi aberto para perguntas, um menino ergueu a mão: “Como faço para ser chinês?” Marciele de Oliveira Souza, aluna da 3a série, estava sentada na primeira fileira, de onde acompanhava as histórias As Velas e A Menina dos Fósforos, e esperou sua vez para dizer que “a leitura é muito importante para ter um futuro melhor”. Marciele conta que adora ler e que foi incentivada pela mãe. A aluna, de origem humilde, diz ter gostado das histórias porque mostram que os sonhos podem se realizar e que “os pobres também têm futuro”.


O filho do sapateiro e da lavadeira











Objetos decoram sala de aula para ambientar contos de fada


Nascido em 2 de abril de 1805, em Odense (Dinamarca), Hans Christian Andersen teve uma infância difícil. Sua família era muito pobre: a mãe trabalhava como lavadeira, e o pai, sapateiro, morreu quando o filho tinha apenas 11 anos. Desde criança, porém, Andersen encantou-se com o mundo lúdico do teatro, que conheceu pela primeira vez com 7 anos.

Aos 14, foi sozinho para Copenhague, a capital, onde tentou insistentemente conseguir um trabalho como cantor, dançarino ou ator no teatro local. Dois anos depois, propôs duas peças, mas foi recusado. Entretanto, o gerente do local, Jonas Collin, assumiu sua tutoria e bancou seus estudos.

O sucesso veio em 1829, quando Andersen publicou seu primeiro trabalho em prosa, depois de ter diversos poemas impressos em um jornal, e uma peça teatral. Apesar de não ser o único gênero em que se exercitou, sua especialidade foram os contos de fada.

A origem humilde de sua família influenciou os textos, com uma grande carga moral e referências à sociedade na qual vivia.

Há quem diga que o patinho feio, um de seus personagens, foi inspirado no próprio autor. Depois de sua estréia, Andersen viajou pela Europa e conheceu diversos autores e artistas, como o escritor inglês Charles Dickens. Depois de sofrer durante alguns anos por conta de uma doença, ele morreu em 4 de agosto de 1875.



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