História revista

Globo faz um jornalismo parcial aos seus interesses

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Por Laurindo Leal Filho*


A Globo possui uma versão muito particular da história da televisão (e do país) que, muitas vezes, não bate com a realidade. Assistida pela maioria da população diante da falta de alternativas, a emissora nunca conseguiu transformar audiência em simpatia. Os vínculos com a ditadura, as distorções jornalísticas, a aposta no consumismo exacerbado, o desrespeito com a infância e o ufanismo ridículo no esporte são marcas difíceis de serem apagadas.

Parece haver agora uma política para mudar esse quadro e reescrever a história. É aí que mora o perigo. São várias ações no mesmo sentido: seminários, manifestos, livros. Na PUC de São Paulo – uma universidade de tradições democráticas, marcada pela luta contra a ditadura -, a Globo realizou um seminário supostamente em defesa da cultura brasileira. O que se defendia com a repercussão do evento, na verdade, era o controle da veiculação de conteúdos audiovisuais pelas empresas de telefonia, uma ameaça ao império da maior rede de televisão do Brasil.

Ação semelhante ocorreu durante a 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, realizada no Rio de Janeiro. Não houve praticamente nenhuma mesa importante em que um representante da empresa não estivesse presente defendendo os compromissos da TV Globo com aquelas faixas etárias. Alguns foram vaiados, outros apenas provocaram risos.

Mas o pior está nos livros. A pretexto dos 35 anos do Jornal Nacional, a Globo lançou o livro Jornal Nacional: a Notícia Faz História (Jorge Zahar, 408 págs., R$ 29,5) tentando limpar a barra do telejornal. Fez como o Chacrinha, quando dizia não ter vindo para explicar e sim para confundir. Só que diferente do Velho Guerreiro, o livro tem pretensões de seriedade. Nega, distorce e é parcial em versões de episódios conhecidos e comprometedores para a veracidade do seu jornalismo. No caso mais célebre, onde é impossível dizer que não favoreceu Fernando Collor na edição do debate com Lula em 1989, junta depoimentos conflitantes e aponta para alguns subalternos que seriam os responsáveis pelo deslize. Entre tantos entrevistados, o livro esqueceu de um, Paulo Henrique Amorim, funcionário da empresa na época, que não reluta em dizer de quem foi a ordem de dar “tudo o que fosse bom para o Collor, e tudo o que fosse mau para o Lula”: Roberto Marinho.

Bajulatório e repleto de erros factuais, chegou também às livrarias a biografia do dono da Rede Globo – que leva o próprio nome dele, Roberto Marinho (Jorge Zahar, 400 págs., R$ 26,55) e escrita por Pedro Bial -, e o mais inofensivo da trilogia, Roberto & Lily (Record, 192 págs., R$ 44,9), uma história de amor entre milionários, bem ao sabor da Revista Caras, escrita pela viúva do dono da Rede Globo.

Muito mais importante do que o livro foi a frase dita pela autora na ocasião do lançamento: “O Roberto colocou ele [Collor, na Presidência] e depois tirou. Durou pouco. Ele se enganou”. Em poucas palavras a rica viúva pôs por terra a auto-decantada imparcialidade do jornalismo global. Vão ser necessários muitos outros livros para explicar que não foi bem isso o que ela quis dizer.




*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP

contato:



laloleal@uol.com.br



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