A história, os pilares e os objetivos da educação socioemocional

Pamela Bruening, especialista norte-americana, fala em entrevista à Educação sobre conceitos de educação socioemocional e os benefícios de sua implantação nas escolas

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educação socioemocional

Crédito: Shutterstock

Solidariedade, amizade, responsabilidade, colaboração, empatia, organização, ética, cidadania, honestidade. Esses valores (ou características) — tão desejáveis nos relacionamentos humanos e cada vez mais requisitados e necessários nos dias de hoje — deverão ser ensinados, praticados ou pelo menos estimulados também nas escolas. É o que dizem as novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A partir de 2020, todas as escolas brasileiras terão de incluir as habilidades socioemocionais nos seus currículos. Ou seja, haverá a necessidade de adaptar os programas escolares e treinar os professores para que possam ministrar essas novas competências — que têm foco em habilidades não cognitivas, muito mais relacionadas ao comportamento e à administração das próprias emoções, mas que impactam positivamente o indivíduo e a relação dele com o mundo ao seu redor.

A Educação Sociemocional (em inglês, SEL – Social Emotional Learning) é o processo através do qual os alunos aprendem, dentro do currículo escolar, a refletir e efetivamente aplicar conhecimentos e atitudes necessários ao longo da vida escolar, educando os corações, inspirando mentes, materializando projetos e contribuindo para a transformação desses estudantes pela educação.

Segundo a professora e doutora norte-americana Pamela Bruening, o conceito de aprendizagem socioemocional foi formalmente desenvolvido há cerca de 20 anos. Diretora pedagógica do Cloud9World, um programa de educação socioemocional disponível em português com a denominação Nuvem9Brasil, Pamela escreveu 18 livros sobre o tema e tem 30 anos de experiência nos ensinos fundamental, médio e superior. É especialista em projetos de melhoria da escola, liderança educacional, intervenção, avaliação de programas e estratégias educativas e desenvolvimento de currículos. Além de palestrante e conferencista internacional de Educação, também presta consultoria para o desenvolvimento profissional de professores, administradores, conselhos escolares e produtos educativos.

Nesta entrevista à Educação, ela aborda os conceitos de educação socioemocional e os benefícios de sua implantação nas escolas.

Onde surgiu e o que é a educação socioemocional?

O conceito de aprendizagem socioemocional foi formalmente desenvolvido há cerca de 20 anos. Nos Estados Unidos, em 1994, um grupo de pesquisadores com o objetivo de investigar o impacto da aprendizagem socioemocional na educação criou o CASEL, uma organização mundial que promove o aprendizado acadêmico, social e emocional integrado para todas as crianças da pré-escola até o ensino médio. Naquela época, as escolas e todo o sistema educacional estavam promovendo a prevenção sobre o uso de drogas e a violência, a educação moral e cívica, bem como a educação sexual.

A educação socioemocional foi desenvolvida e introduzida como uma estrutura para atender às necessidades dos jovens e apoiar o alinhamento de uma série de programas e iniciativas escolares. Ao longo do tempo, uma meta-análise de estudos, o apoio da Association for Supervision and Curriculum Development e pesquisas em andamento proporcionaram uma maior conscientização da necessidade de um esforço coordenado da educação socioemocional na rede escolar, que resultou em um aumento do desempenho acadêmico dos alunos. Alguns estados americanos, bem como o governo federal, reconheceram o valor desses programas e o impacto positivo nos alunos e nas escolas.

Quais são seus pilares de sustentação?

Os pilares que apoiam a educação socioemocional incluem autoconhecimento, autogerenciamento, tomada responsável de decisões, habilidades de relacionamento e consciência social. Essas bases incluem contextos na escola, em casa e na comunidade, o que essencialmente significa que este tema precisa ser abordado em todos os grupos de participantes que se relacionam com a escola.

O conceito de educação socioemocional sempre esteve intrínseco ao espaço da escola ou é algo novo nesse ambiente?

Em anos passados, a educação socioemocional existiu no ambiente escolar de variadas formas. Às vezes, isso estava revestido dentro da própria cultura escolar, outras vezes na educação do caráter e, de certa forma, até como suporte para projetos de comportamento positivo. O ponto principal, independentemente da forma adotada, é que a autoconsciência e o autogerenciamento levam a uma maior sensibilidade aos outros e ao aumento de comportamentos pró-sociais. Nos últimos anos, a educação socioemocional ganhou força, especialmente a ideia de que suas habilidades precisavam ser ensinadas propositadamente e que os alunos precisavam de oportunidades para praticar essas habilidades.

Qual a importância da educação socioemocional no desenvolvimento acadêmico?

Pesquisas em todo o mundo apontam que o melhor aprendizado ocorre em ambientes seguros e saudáveis, ou seja, o aprendizado ocorre em um contexto social. De certo modo, é difícil separar aspectos sociais e emocionais de processos de aprendizagem acadêmica. Além disso, os componentes das habilidades socioemocionais, no caso dos Estados Unidos, estão totalmente ligados a requisitos da American Common Core [a base norteadora de educação daquele país, o que similarmente está acontecendo com a BNCC, no Brasil], e autorregularão trabalho em equipe, empatia, cooperação e uma série de valores que fortalecem o caráter humano e tão necessários para as demandas do século 21.

Há praticamente um consenso de que as habilidades socioemocionais devem ser trabalhadas dentro dos currículos escolares e não como um apêndice extracurricular. Por quê?

Atividades extracurriculares são frequentemente tidas como algo opcional e desnecessário. A quantidade de pesquisas que apoiam a educação socioemocional e seu im­pacto no desempenho acadêmico e na cultura escolar tornou comum a integração do desenvolvimento dessas habilidades aos currículos escolares, dando à Educação Socioemocional seu merecido lugar de importância na educação.

O CASEL divulgou pesquisas de desempenho de implementação delineando os passos iniciais que os distritos escolares [grupo de escolas por região nos EUA] deveriam tomar na implementação de uma abordagem sistêmica para a educação socioemocional em toda a escola e em salas de aula individuais. Eles são encorajados a alinhar as instruções de educação socioemocional dentro do currículo existente.

Um bom exemplo de como isso pode ser feito é com o uso de padrões ELA [Education Learning Acquisition – um programa de educação norte-americano] em que os processos de leitura e compreensão de textos (ficção ou não ficção) expliquem aspectos da educação socioemocional em um formato instrucional direto. As atividades são projetadas para mostrar ao aluno as habilidades socioemocionais e estão alinhadas aos padrões ELA, podendo ser ensinadas por todas as matérias.

A educação socioemocional também pode ser reforçada durante todos os dias do ano letivo por meio do apoio ao comportamento positivo na escola, tornando-se parte integrante da vida de todos os alunos.

Existem abordagens diferentes na implantação da educação socioemocional?

Muitos programas focam mais suas abordagens em comportamentos do que em virtudes humanas. No entanto, os comportamentos costumam ser os resultados dos valores mais profundos ou a falta deles. O Cloud9World, por exemplo, busca tocar o âmago da pessoa, onde os valores são capazes de impulsionar mudanças de comportamento e tomadas de decisões. Por isso fornece às escolas uma linguagem simples e comum, focada em compreender e desenvolver valores essenciais que promovem comportamentos positivos e relacionamentos saudáveis. A intenção é integrar a educação socioemocional a todas as áreas do currículo, em todas as séries da educação básica, o que torna essa integração muito mais fácil para os professores. As chamadas forças de caráter são ensinadas e reforçadas por meio da leitura, escrita, fala e colaboração com os colegas durante as rotinas escolares, de forma a contribuir com o clima escolar.

Em sua opinião, como um programa de educação socioemocional deve ser estruturado na escola?

É importante que permita aos alunos aprender a partir de uma variedade de virtudes e valores, características que podem ser, por exemplo, os pontos fortes de personagens, incentivadas por meio de histórias, vídeos e instruções diretas. Planos de atividades flexíveis e um suporte constante permitem que os professores forneçam aos alunos instruções diretas, práticas e troca de expe­riências. As avaliações garantem a compreensão e o crescimento do aluno. À medida que escolas implementam um programa de forma integral, a cultura escolar se torna mais positiva e os pais se envolvem com as atividades dirigidas a eles em casa. Assim, crianças e adultos garantem uma maior compreensão dos valores, de forma prática, em todas as áreas da vida.

As transformações sociais têm ocorrido cada vez mais rapidamente. Pode-se falar que existem novas ou reformuladas virtudes?

Acredito que à medida que nossa sociedade muda, especialmente com a influência da tecnologia, algumas virtudes ou pontos fortes do caráter humano serão mais influenciados do que outros. Muito disso é baseado nas necessidades apontadas pelo mercado de trabalho. Torna-se imprescindível, então, que um programa de educação socioemocional também tenha abordagens voltadas para as demandas do século 21. Por esse motivo, acredito que novos valores sempre surgirão e algumas forças de caráter podem ser mais valorizadas do que outras em diferentes momentos, com base nas necessidades dos alunos. As virtudes clássicas provavelmente sempre serão valorizadas, já que muitas das mais recentes estão relacionadas, em parte, a elas.

Então é preciso trabalhar algumas virtudes mais do que outras?

Acredito que a educação socioemocional deve enfatizar a importância de todas as virtudes. Reconheço, no entanto, que as escolas, devido às peculiaridades dos países em que estão, podem ter de adotar pontos fortes específicos antes das outras, com base nas necessidades de seus alunos. Temos um trabalho de orientação às escolas, mas grande parte desta escolha, sobre qual virtude trabalhar primeiro, é feita pela própria instituição de ensino.

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