História de mentira

Alemanha Oriental sobrevive, firme e socialista, na fantasia que um jovem cria para tranqüilizar a mãe em Adeus, Lênin!

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Sérgio Rizzo

A utilização convencional do cinema nas disciplinas de história envolve filmes que reconstituem fatos marcantes e recriam a trajetória de personagens célebres. Por eles, desfilam, sobretudo, os grandes líderes políticos, como Napoleão, Lênin, Vargas e Kennedy. Essas figuras de almanaque são tratadas como protagonistas de mudanças no curso da humanidade. É a “alta história”, e não há nada de errado, claro, em examinar as versões dela produzidas não só por cineastas, mas também por escritores de ficção, dramaturgos e artistas plásticos.



Há outro nicho, no entanto, que constitui matéria das mais interessantes para estudo e debate. É o dos filmes que se ambientam em circunstâncias históricas específicas e importantes, mas que trazem como personagens pessoas comuns, tenham elas existido ou não.

Ali, os fatos atuam como pano de fundo, e o que ganha força é o seu impacto transformador sobre atores sociais daquele período. Um dos melhores exemplos dessa corrente é a multifacetada releitura do Risorgimento (o processo de unificação da Itália, no século XIX) feita por Luchino Visconti em
Sedução da Carne

(1954) e
O Leopardo

(1963), recém-lançados em DVD no Brasil.




Adeus, Lênin!

opta por abordagem semelhante. Seus personagens vivem na extinta República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha Oriental) e acompanham, da perspectiva dos trabalhadores, a derrocada do regime socialista, a queda do Muro de Berlim, a implantação do modelo capitalista e o processo de reunificação da Alemanha. Alguns chefes de governo que protagonizaram esses episódios, como Erich Honeker (que governou a RDA de 1971 a 1989), Mikhail Gorbatchov (líder da URSS de 1985 até 1991) e Helmut Kohl (primeiro chanceler da nova Alemanha), aparecem em fotos e cenas de TV.



O foco, no entanto, se concentra em uma família de Berlim cujo pai exilou-se nos anos 70. A mãe (Katrin Sass) é professora, adepta fervorosa dos valores socialistas, pronta a combater quem tenha algo a dizer contra a administração linha-dura de Honeker. Seus filhos, Alexander (Daniel Brühl) e Ariane (Maria Simon), estão habituados ao cotidiano do país, mas são sensíveis aos movimentos de reforma.

E, na mesma noite em que Alexander participa de uma passeata contra o governo, sua mãe sofre um ataque cardíaco. Em coma, ela não vê a queda do muro e os novos rumos da história alemã, mas seus filhos adaptam-se rapidamente a ambos os fatos – a perda da mãe e a mudança de regime.



O problema surge quando a professora se recupera e retorna ao apartamento, já transformado, a essa altura, por traços ocidentais de consumo. As ruas também espelham as alterações políticas e econômicas. Para preservar a mãe, Alexander tenta convencê-la de que tudo continua como antes e mantém a RDA viva nos limites do apartamento.

A farsa construída por ele tem requintes divertidos, que equilibram muito bem o filme entre o drama e o humor, e permite que se note, entre outros aspectos, como o estudo da história no cinema tem a lucrar quando os “figurões” cedem espaço na tela a cidadãos comuns.




Jornalista, professor e crítico da revista
Set

e da
Folha de S.Paulo

.

contato:

srizzojr@uol.com.br





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