Heloisa Helena Tourinho Monteiro

diretora do Sindicato dos Professores da Bahia

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1) Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?






2) Em que nível está a educação básica, fundamental e média na Bahia? Melhorou ou piorou? Quais as condições da educação no interior do Estado?

3) Para você, o que é ser um bom professor hoje em dia? O que mudou em relação ao bom professor de antigamente?




 




A primeira pergunta, por ser muito ampla, me permite fazer um recorte histórico de sorte que o panorama não seja dissociado do contexto histórico necessário para avaliarmos o papel da educação básica no Brasil. Vale a pena ressaltar que o Sindicato dos Professores no Estado da Bahia – Sinpro-BA, é representante da categoria dos professores da rede particular no Estado da Bahia e diante disso vivemos uma realidade muito típica da rede privada, embora boa parte da categoria de professores da rede particular atue na rede pública do Estado, perfazendo uma carga de trabalho diária de três turnos, o que já resulta em um adoecimento do professor. Assunto este, motivo de pesquisa deste Sindicato pelo departamento de Saúde.




A educação básica no Brasil continua enfrentando uma grave crise referente à valorização profissional do magistério, não adianta prédios, computadores, PCNs, isolados de uma política efetiva de reconhecimento e valorização do profissional em educação. A grande questão começa quando as licenciaturas curtas abrem espaço para a crença de uma formação rápida e imediata atendendo a uma demanda do mercado para acesso a universidade, gerando uma quantidade excessiva de oferta de mão-de-obra.

Aliadas a isso, a defasagem dos cursos de magistério e a precarização da escola pública formaram uma geração de professores despreparados para enfrentar a complexidade que envolve a educação. Até então, o ensino nas séries iniciais do fundamental I não havia passado por uma profunda pesquisa, que resultaria no conhecimento atual de que é nos primeiros anos de vida e de escola que o adulto se desenvolve. Segundo citação de João Pedro da Fonseca, no livro
Estrutura e Funcionamento da Educação Básica

, o pesquisador Dieuzeide afirma que, do ponto de vista intelectual, 80% do acervo intelectual é acumulado entre zero e oito anos, representando uma incoerência diante das políticas públicas para a educação infantil e fundamental nas séries iniciais.




Na rede particular, a realidade vivida pelos professores no Estado da Bahia deixa muito a desejar. Com um piso da categoria em R$ 402,45 (20 horas semanais), sendo a hora-aula de R$ 3,08, o professor se vê impelido em buscar uma carga horária desumana, bem como tirar do seu próprio bolso a sobrevivência e a formação continuada.



A exigência atual de aperfeiçoamento, atualização, formação interdisciplinar e multireferenciada obriga professores e professoras a passarem sábados e domingos, além do famoso extraclasse não remunerado, fazendo pós-graduação paga por eles próprios, quando, pelo artigo 67 da LDB, a escola deve se responsabilizar pela formação continuada do professor, promovendo, acompanhando e financiando esse aspecto tão importante para a educação básica. É um avanço que a Lei de Diretrizes e Bases apresenta para a educação básica, porém pouco cumprido, principalmente nas escolas particulares que contam com a conivência do governo federal e do Estado sendo pouco fiscalizadas.



Outro problema vivido pela educação básica, principalmente no ensino médio, é a falta de professores de determinadas disciplinas, criando um vazio na formação dos estudantes e brasileiros, e mais a síndrome de abandono da profissão, conhecida comumente como síndrome de Bournout.



O Sinpro-BA vem buscando lutar por melhores condições de trabalho acreditando que a valorização profissional passa não só por uma política salarial de recomposição dos salários, um plano de carreira digno, lembrando que a rede particular não possui nem plano de carreira nem extraclasse e se submete a um regime de trabalho que obriga o professor a trabalhar em várias escolas, em vários turnos, não tendo o descanso mental necessário para relacionar-se com crianças e adolescentes e preparar continuamente sua formação.



As greves continuam sendo o principal instrumento de luta, embora as instâncias governamentais e particulares que deveriam promover um diálogo mais eficaz não se mobilizem em prol de solucionar questões tão antigas e necessárias para melhorar a educação na Bahia e no Brasil.



As exigências para um profissional de educação hoje são muitas. Não se pode esquecer, porém, o grande educador Paulo Freire nas suas lições de educação libertária para a liberdade da sociedade. O educador hoje precisa buscar autonomia, sobrevivência e encantamento diário, numa seara adversa e aviltante.



Para nós que acreditamos que o caminho da educação é o único que nos possibilita liberdade, transformação, soberania e desenvolvimento, sabemos que não podemos desistir e devemos atuar e cobrar nos espaços políticos uma seriedade maior quanto às políticas públicas para educação.



 


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