Há saídas para o problema

Depressão, distúrbios de voz e enfermidades osteomusculares: sob forte pressão social, o professor adoece muito. Reflete, mais do que tudo, os problemas da organização do trabalho

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Dezembro. Ano letivo terminado ou em vias de sê-lo, hora de programar férias, vida familiar, viagens, convívio com os grupos de afinidade. Será mesmo? Ou é o momento de viver a angústia de saber se o contrato com a escola será renovado para o próximo ano, de sofrer pressões da chefia pela entrega das notas e dos alunos e familiares pelos conceitos que lhes serão atribuídos? Ao que parece, para os professores brasileiros das escolas públicas e privadas, por motivos inerentes a cada uma das redes, a descrição que envolve dúvida e tensão é mais próxima da realidade que a primeira, hoje quase um idílio natalino.
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As doenças da educação

Clique para ampliar (Ilustração: Alex Silva)






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É o que transparece quando se olha para a questão da saúde no ambiente escolar, marcado pelas queixas e pelo efetivo adoecimento de muitos professores. Identificado também por um imenso vazio no que diz respeito à instauração de políticas públicas que busquem, a partir da compreensão da atividade docente, valorizar processos e práticas que estimulem o cuidar-se e a construção de um espaço comum saudável, sob os aspectos físico e psíquico. E que leva os professores, muitas vezes, a abdicar do ato de educar, seja na busca de um ambiente em que haja menos pressão, seja por falta de comprometimento com seu ofício. 

Se essa tônica de adoecimento em função da sobrecarga e da instabilidade do trabalho não é prerrogativa do universo da educação, nele ela se manifesta fortemente. Levantamento feito pela Secretaria de Gestão Pública do Estado de São Paulo em 2006 apontava a concessão de 139 mil licenças no ano, em um universo de 285 mil professores e funcionários, com 4,5 milhões de dias de trabalho perdidos. Nesse levantamento, aparecem como principais causas para a concessão das licenças os transtornos mentais (32,2%), as doenças do sistema osteomuscular (17,6%) e as do aparelho respiratório (7,4%), classificação em que, à falta de outra mais específica, imagina-se que estejam incluídas as doenças do aparelho fonador, que levam aos distúrbios de voz, comuns entre professores. O aparelho circulatório, principal causa de mortes entre a população em geral, veio a seguir, com 6,5%. Explicações adicionais sobre o documento poderiam elucidar, por exemplo, quais ocorrências se enquadram na categoria "lesões e envenenamentos" (6,8%), mas o assessor de imprensa da Secretaria, Marcelo  Pawel, disse preferir esperar a conclusão de nova pesquisa e não indicou ninguém para explicar a que está disponível.

Estudo anterior, de 2003, encomendado pela Apeoesp, o sindicato estadual dos docentes paulistas, mostra a mesma prevalência de doenças, com pequenas mudanças na classificação: estresse (21,8%); problemas de voz (17,6%); tendinite (16,1%), bursite (8,7%); depressão (7,2%). O quadro mostra três áreas que trazem maior risco à prática docente: a da saúde psíquica, com ocorrência de estresse, depressão e síndrome de Burnout; do aparelho fonador, ligado ao uso sistemático da voz; e do aparelho osteomuscular, decorrente de questões posturais e do uso da lousa.

Dulcinea Rosemberg e Meri Gerlin, do Departamento de Ciências da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), autoras do estudo Diálogos sobre readaptação profissional em educação, que integra o livro Trabalho e saúde do professor (Autêntica, 2008), enfatizam as mudanças no mundo laboral contemporâneo. Para as pesquisadoras, são necessários câmbios num cenário "caracterizado pela precarização das relações de trabalho, pela contínua perda dos direitos de proteção ao trabalhador, pelas instáveis formas de contratação, pelo baixo investimento em processos de educação permanente e pelos fracos vínculos que os trabalhadores estabelecem nos e com os seus espaços-processos de trabalho".

No estudo Condições de trabalho e saúde dos professores da rede particular de ensino em Vitória da Conquista (BA), realizado em 2001 junto aos docentes dos dez maiores colégios privados da cidade, um grupo de pesquisadores, a maioria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, levantou os aspectos considerados negativos pelos docentes, com impacto no desenvolvimento de seu trabalho. Ritmo acelerado e ritmo frenético de trabalho (67,9% e 54,9%, respectivamente), posição inadequada e incômoda do corpo e de cabeça e braços (65,4% e 53,4%), atividade física rápida e contínua (63,8%) e longos períodos de intensa concentração em uma mesma tarefa (51,9%) foram os principais. Entre as queixas mais freqüentes, dores nos braços, ombros, pernas, cansaço mental, dor de garganta.

No mesmo trabalho, um dado revela que muitos problemas podem estar se agravando por falta de cuidados preventivos: "apenas 28% dos professores realizavam os exames médicos periódicos previstos na legislação", referência à Norma Regulamentadora 7, do Ministério do Trabalho, que trata das obrigações do contratante na "promoção e preservação da saúde do conjunto de seus trabalhadores". Pela norma, a periodicidade mínima para os exames médicos é de dois anos. Mas, dependendo do risco inerente à profissão, ela pode ser menor do que anual. 


Públicas: longe da idéia de RH


Se em muitas escolas privadas o problema é seguir a legislação básica de saúde, nas redes públicas, onde os professores são "fregueses contumazes" dos médicos peritos, existe um problema de origem na organização administrativa entre as esferas de trabalho, como aponta o médico perito e atual coordenador-geral de Seguridade Social da Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Sérgio Carneiro. Para ele, o fato de a perícia médica estar separada do órgão administrativo responsável pelas políticas dos recursos humanos contribui para a falta de ações que visem a saúde do trabalhador.


A psicanalista Sandra Almeida adverte: há aqueles que permanecem criativos e produtivos, mesmo sem condições ideais

Ou seja, a administração pública ainda parece distante da visão de que o trabalhador deve ter um rol variado de recompensas pelo seu trabalho. Restaram as antigas estruturas de atendimento ao servidor público, normalmente congestionadas e marcadas pela precariedade dos serviços. Com um acréscimo, no caso da educação: "fabricam-se coisas que são dadas como importantes em outras secretarias e isso é mandado para as escolas. Querem resolver todos os problemas da sociedade na escola – o trânsito, a família, diversas demandas sociais. Como se a escola fosse igual em todos os lugares e reproduzisse um modelo ideal de nação, pensado longe dela", reflete.

Para Carneiro, o que mais afeta a saúde no âmbito da educação é a organização do trabalho: as jornadas são muito longas, o número de alunos por classe é alto, há falta de material didático, alunos com dificuldades de aprendizagem e falta de infra-estrutura e meios para educá-los e, numa reação em cadeia, as chefias os pressionam cada vez mais.

Essa análise, assim como um dos antídotos para mudar esse quadro, é compartilhada pelos pesquisadores que tratam do tema. "Os docentes precisam ter um espaço de escuta institucional. É preciso democratizar as relações nas instituições. Pode-se substituir o giz, ter tratamento acústico, que são medidas importantes, mas isso não dá conta do problema. O cerne é a organização do trabalho", completa Carneiro.

Dulcinea Rosemberg, da Ufes, lembra que soluções paliativas, como a prescrição de readaptação (normalmente requisitada pelo próprio docente, que não agüenta mais desempenhar sua função), são respostas individualizadas para um problema que é coletivo/epidemiológico. "Além disso, não se trata apenas de indicar as situações que estão adoecendo os professores, mas também de pensar com eles um conceito de saúde que propicie novas normas de vida no trabalho", acrescenta.

Um dos meios para isso seria a criação de "espaços dialógicos", mas que não se contaminassem com o mesmo vírus da imobilidade presente às reuniões de ordem burocrática, diz a pesquisadora, que sugere a "composição de grupos cujos pares tenham objetivos comuns". 


A parte e o todo

Mas, se ainda falta chegar a uma diagnose mais precisa, como aponta o médico especialista em saúde pública Herval Pina Ribeiro, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para quem a maioria dos estudos disponíveis não tem rigor epidemiológico, pois em geral partem da análise de uma doença específica, e não das condições do trabalho, os caminhos para a saúde não são só coletivos.

Sandra Almeida, da UCB, lembra que o adoecimento resulta do entrelaçamento das condições individuais, das "configurações subjetivas singulares do sujeito" e da esfera organizacional. "Há sujeitos que não adoecem no exercício profissional, permanecendo criativos, produtivos e gratificados ao longo dos anos, embora suas condições de trabalho não sejam as melhores", diz, contrapondo a visão de que, com o quadro atual, não há saídas. 

Por essa via, não há receituário de ações, apenas o imperativo da reflexão e do autoquestionamento sobre como vencer os desafios cotidianos que nos traz a lida com outros seres humanos, sobretudo aqueles com os quais se devem manter práticas educativas. Uma saída positiva encontrada para essa questão foi relatada pelos pesquisadores Maria do Socorro Mariano, da Universidade Tiradentes, e Hélder Muniz, da Universidade Federal Fluminense, no artigo Trabalho docente e saúde: o caso dos professores da segunda fase do ensino fundamental, publicado em 2006 na revista Estudos e Pesquisas em Psicologia, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

No trabalho, Socorro e Muniz discorrem sobre as estratégias defensivas encontradas por professores de uma escola da rede municipal de João Pessoa/PB. Para subverter um quadro de falta de material didático e indisciplina dos alunos, entre outras queixas, as docentes da escola descreveram suas estratégias de enfrentamento da questão. Elas iam desde a criação de momentos de descontração em que utilizavam o canto, as conversas e brincadeiras, a uma "regra de ofício" bastante enfatizada: o domínio da turma. Para chegar a ela, as docentes relatavam alguns pré-requisitos necessários: especialização técnica em relação à disciplina ministrada, com requalificação profissional constante, planejamento e preparo antecipado das aulas e boa exposição dos conteúdos em sala. "Ter esse domínio", relatam os pesquisadores, "significa menos angústia e maior controle da situação em sala de aula, com condições mais favoráveis de exercer a atividade de ensinar e de se relacionar com as alunos."

As intenções reveladas por professores, gestores escolares ou pela sociedade em geral em seus discursos, de dar prioridade à educação e à formação dos indivíduos como cidadãos, ganhariam muito se fossem alinhadas com atitudes coerentes. O choque entre discurso e ação, entretanto, parece produzir um ambiente de esquizofrenia coletiva. Coerência, criação de espaços compartilhados de elaboração e discussão de práticas e, sobretudo, disposição educativa parecem ser ingredientes sob medida para que outros meses de dezembro possam servir como fechamento de um ciclo e momento de reaver forças para janeiros vindouros.


PARA SABER MAIS



Educação, carinho e trabalho

, de Wanderley Codo, Vozes, 2002;

Mal-estar na educação: o sofrimento psíquico de professores

, de Sandra Conte de Almeida e Rosana de Aguiar, Editora Juruá, 2008;

Por uma psicologia do trabalho

, de Wanderley Codo, Vozes, 2006;

Profissão professor – O itinerário profissional e a construção da escola

, de Antonio Bolívar, Edusc, 2002

Psicodinâmica do trabalho – Contribuições da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho

, de Dejours, Abdoucheli e Jayet, Atlas, 1994;

Trabalho e saúde do professor: cartografias no percurso

, de Maria Elizabeth de Barros, Ana Heckert e Lílian Margoto (organizadoras), Autêntica, 2008.


Veja também:



Mão dupla







Desde o império





Cartografias no Percurso

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