Guiomar Namo de Mello

diretora executiva da Fundação Victor Civita

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O Brasil levou 500 anos para dar acesso a todos (todos mesmo) à escola básica. A universalização do ensino fundamental representou o coroamento de um processo que se iniciou nos anos 60/70 do século passado: o acesso dos excluídos. Nosso maior problema é conseguir fazer com que todos aprendam. Enquanto a escola foi de minoria e depois, mesmo recebendo parcelas significativas dos setores populares, a qualidade era avaliada do prisma do ensino de minoria, de elite. Agora estão todos na escola e, portanto, não há mais como aplicar padrões de elite na educação. É preciso que todas as crianças aprendam. Acontece que a escola brasileira nunca soube ensinar aos pobres. Essa é uma realidade que ninguém gosta muito de desnudar.

Então a gente prefere dizer que a qualidade caiu. MAS CAIU DE ONDE? Será que era mesmo boa para todos uma escola na qual só a metade tinha acesso e, destes, só metade sobrevivia? É assim chegada a hora de construir uma qualidade com todos na escola. Com base num substrato concreto, real: a diversidade e a desigualdade entre os alunos.






Para essa nova qualidade é preciso buscar critérios diferentes daqueles da escola de elite. Esta preparava para continuar na escola, seguir os famosos “estudos”. Essa nova escola precisa preparar para a cidadania, para as práticas sociais e para a vida produtiva. TODOS precisam aprender para isso. No ensino fundamental hoje estão os futuros presidentes da República, homens de negócio, artistas, vendedores, garis de limpeza. Essa escola não muda sozinha o destino social, mas deve preparar a todos para realizarem com sucesso aquilo que todos terão de realizar: conviver, ter um projeto de vida, trabalhar, atuar na sua comunidade e na sociedade em geral. As tarefas da cidadania são de todos mesmo.





Radicalizando, é válido afirmarmos que, se algum conhecimento ou competência não forem necessários para essas tarefas de todos, não precisam ser aprendidos na escola; serão aprendidos nos cursos que preparam para uma profissão específica e nas outras instâncias do desenvolvimento pessoal. Na escola aprende-se a ser cidadão com qualidade, cidadão que pensa, escolhe, age, avalia. Para isso é que existe a escola. Não para preparar para continuar nela mesma. Essa visão do próprio umbigo que o sistema escolar alimentou durante séculos precisa ser sacudida. Essa escola precisa de FOCO NA APRENDIZAGEM de conhecimentos, valores, atitudes, padrões de conduta e competências pessoais e sociais.





O investimento prioritário neste momento é no trabalho da sala de aula. É naquele território até agora desvendado onde professores e alunos interagem para que estes aprendam o que ainda não aprenderam em outros lugares. Nesse território existem dois grandes marcos: PROFESSOR e RECURSOS PARA ENSINAR E APRENDER. No professor o investimento tem que ser em formação de mais qualidade, desenvolvimento profissional, cultural e pessoal, condições de trabalho que facilitem a aprendizagem dos alunos, remuneração que corresponda à qualidade de seu trabalho, ou seja, à aprendizagem dos alunos. Nos recursos o investimento tem que ser em livros, materiais didáticos diversificados, tecnologia, primeiro para o professor e depois para os alunos. Não adianta o aluno receber recursos didáticos se o professor não conhece os fundamentos desses recursos e a maneira inteligente de utilizá-los. 






 





Em resumo: foco na sala de aula, foco na aprendizagem, mas na aprendizagem de qualidade para a vida cidadã no século XXI.





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