Gravadoras desafinadas

Crise na indústria fonográfica deixa transparecer descaso do setor com educação musical

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Alexandre Pavan*


Volta e meia os jornais publicam reportagens a respeito da crise pela qual passa a indústria do disco no mundo. Nos últimos cinco anos, a situação vem se agravando gradualmente, com a queda do número de CDs vendidos, redução de investimento no setor e diminuição de artistas contratados.





No Brasil, o bode expiatório apontado é quase sempre o mesmo: a pirataria, que estaria roubando os consumidores das gravadoras. Ultimamente, a internet também ganhou
status

de vilão, por conta dos sites que permitem a cópia e a troca de músicas pela rede sem que os direitos de execução sejam pagos a empresas e artistas.




O mercado de produtos falsificados, sem dúvida, prejudica os negócios da música assim como interfere no comércio legal de outros produtos. Já a presença da internet e os prejuízos que os tais sites podem causar não são tão claros. Em primeiro lugar, essa é uma mídia recente e, no Brasil, ainda são poucas as pessoas que têm acesso à rede. Nos EUA, onde o número de internautas é bem maior, estudos já comprovam que a troca de música pela internet não prejudica o andamento da indústria convencional.




O que é claro por estas terras é a sucessão de erros estratégicos cometidos pelas gravadoras. Num processo que já dura praticamente 30 anos, a indústria do disco vem promovendo a massificação da cultura, estabelecendo e/ou divulgando modismos estéreis que não duram 12 meses em catálogo.




É incoerente, mas acontece assim: hoje, é difícil encontrar um diretor artístico de grande gravadora que seja músico, um curador capacitado para o cargo. Essas pessoas foram substituídas por profissionais de marketing e o processo inverteu-se: o valor artístico ficou subjugado ao comercial.




A música, como toda arte, é um processo espontâneo e coletivo; não pode se prender a regras comerciais. É isso que difere um samba da Velha Guarda da Portela de um
jingle

das Casas Bahia.




A estratégia que se consolidou é a do negócio a curto prazo, com a produção de artistas de sucesso relâmpago que possam vender milhões de cópias em pouco tempo. Um esquema de massificação tornado possível pela prática do jabá – o pagamento a emissoras de rádio e canais de televisão para a veiculação incessante de determinada música ou cantor. Em tempo: o jabá é tão ilegal quanto a pirataria.




Por fim, o ponto mais importante: as gravadoras nunca investiram na formação de público. As empresas informam que não relançam no formato CD os discos de artistas fundamentais de nossa música popular e erudita porque eles venderiam pouco, com o argumento de que ninguém conhece Pixinguinha, Cláudio Santoro, Nelson Cavaquinho e Radamés Gnattali. No entanto, a indústria da música nunca batalhou para que esses nomes – e tantos outros – se tornassem conhecidos.




Alguns executivos de gravadoras argumentam que batalhar pela educação musical nas escolas é função governamental. Então, talvez esse seja o momento de a questão ser discutida, afinal, temos um músico na pasta da Cultura – e Gilberto Gil é artista contratado de uma empresa multinacional (a Warner).




Resta saber se aparecerá um projeto de formação de ouvintes ou se as pessoas continuarão a serem tratadas como meras unidades consumidoras.



*Jornalista e co-autor do livro
Populares e Eruditos





apavan@uol.com.br



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