Gratidão

Os pequenos gestos que reafirmam a escolha da docência

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No início da década de 80, pouco antes de me formar no curso de pedagogia, consegui emprego como professor de educação infantil. Meus alunos tinham entre quatro e cinco anos de idade. Senti-me extremamente inseguro, pois até então toda minha experiência – que já não era muita – tinha sido como professor de inglês, no ensino fundamental e em escolas especializadas. Essa insegurança agravou-se por um fator que jamais imaginei ter de enfrentar.

Não era comum – ainda hoje não é – homens trabalharem nesse segmento da educação. Percebi que vários pais se interessavam pela minha escolha (que na verdade era mais fruto de contingências da vida do que de uma deliberação consciente!). Pouco a pouco me dei conta de que em alguns casos havia um temor, claro, relativo à minha orientação sexual. Temor que se dissipou em face do que devem ter considerado como evidências de heterossexualidade. Estranho ‘zelo’ esse que confunde a vida privada de um professor com sua responsabilidade profissional, que atribui a homossexuais potenciais influências ou condutas ‘maléficas’, das quais estaria isento pelo simples fato de ter uma orientação heterossexual…  Bem estranho.

Mas a década de 80 era também época de grande mobilização política. Havia no Congresso Nacional uma proposta de emenda constitucional para o restabelecimento de eleições diretas para Presidente da República. No dia da votação da emenda ‘Dante de Oliveira’, fui com amigos acompanhar o resultado na Praça da Sé, que era então nossa Ágora. Congressistas fiéis à ditadura procrastinaram o início dos trabalhos, de forma que a votação acontecesse tarde da noite, evitando manifestações públicas contra sua provável rejeição.

Passava da meia-noite quando anunciaram sua rejeição. Grupos mais exaltados atiravam latas de lixo contra lojas, gritavam palavras de ordem contra a ditadura. Fui com amigos beber, sonhar com o fim da ditadura, jurar vingança. Ao amanhecer voltei para casa triste, tomei um banho e me dirigi para a escola. Trajava roupas pretas, como adesão a um protesto então sugerido.

Ao receber meus alunos, uma pequena garota notou meu ar triste e cansado. Perguntou-me se era porque eu ‘não ia poder votar’. Disse-lhe que sim, que tinha ficado bastante triste com isso. A aula correu normalmente, dentro do que se poderia esperar de um professor naquele estado de ânimo. Às 13h, essa menina voltou correndo a minha sala para me procurar com um sorriso. Disse que contara a sua mãe o que aconteceu e que eu não mais devia me preocupar. Quando sua mãe fosse votar, assegurou-me, ela me levaria consigo. Eu a abracei e chorei. Ri muito quando me assegurou que sua mãe me levaria, sim, e não havia motivo para chorar.

Ainda hoje esse pequeno gesto reafirma em mim, nos momentos mais difíceis, a gratidão que sinto em relação à vida e ao mundo por ter me tornado professor.


José Sérgio Fonseca de Carvalho


Doutor em filosofia  da educação pela Feusp


jsfc@editorasegmento.com.br

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