Gracias a la vida

“Que se abram os olhos e os ouvidos ao entendimento dos sons do mundo”. Leia aqui mais um texto de José Pacheco

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Os olhos do Marcos ficaram presos a um concílio de pássaros, que animava o telhado da casa do vizinho. O seu olhar virginal fixou-se no bater de asas de pássaros em busca de lugar de fazer ninho. Quedou-se deslumbrado no escutar de pássaros que cantavam a genuína alegria de existir. E eu quedei-me a observá-lo.



Presto atenção ao que prende a atenção do Marcos e, nessa atitude, vou aprendendo a ver. A ver. e a ouvir. Há uns dias atrás, o Marcos reagiu de modo semelhante à contemplação dos pássaros. Ficou hirto e absorto, quando o som do piano de um concerto de Ravel cedeu lugar à voz de Herbert Pagani, cantando uma canção da Violeta Parra:
“g
racias a la vida,

pour les chants d’oiseaux, après la pluie soudaine.”





Que se abram os olhos e os ouvidos ao entendimento dos sons do mundo. Sei o quanto é importante que o Marcos escute sons que despertem a sua sensibilidade.



O Sandro era menino de rua e de seita, de fugir ao polícia que caçava bolas de futebol jogadas por pés descalços. As escolas do seu tempo, exclusivamente preocupadas com um decorar do sem sentido, ignoravam que o saber vai a par com o saber ser, vai a par com o desenvolvimento emocional, o afectivo, o moral, o sensível, o estético, o ético. Por aí nunca o Sandro acederia à gostosa fruição de Bach ou Vivaldi, que lhe amaciasse o rude temperamento e abrisse o seu coração à música dos pássaros.



O professor do Sandro (bem diferente da maioria dos professores do seu tempo) sabia que, se os estômagos dos seus alunos estavam quase sempre vazios, os ouvidos andavam cheios de “música fácil” (era assim que o professor lhe chamava) e, por isso, reagiam negativamente ao afago de sons de organização mais complexa.



A princípio, não foi nada, mesmo nada fácil convencer a criançada de que só se ama o que se conhece e que quanto mais se conhece mais se ama. O professor perfumava a sala de aula com o som dos “clássicos”, enquanto inventava formas de enganar a fome que roubava as forças dos seus alunos e os levava a adormecer durante as aulas.




Ó Professor, o Sandro está a dormir! Isso é mesmo música para dormir!





O professor não se deixava intimidar. E as “Quatro Estações” repetidamente afagaram os empedernidos ouvidos dos alunos, até ao dia em que uma zeloza funcionária de limpeza resolveu passar o pano do pó sobre o disco de vinil. A agulha rasgou um novo e profundo sulco no disco, que calou para sempre o Vivaldi. Em abono da verdade se diga que para sempre não foi. O silêncio foi de curta duração. Certo dia, no tempo de trabalho em grupo, o professor viu, num canto da sala, três alunos (entre os quais, o nosso Sandro), de olhos fechados e mãos dadas, balanceando as cabeças. Aproximou-se a tempo de os ouvir trauteando o segundo andamento do concerto de Inverno das “Quatro Estações”. Se houve dias em que as lágrimas irromperam súbitas e jubilosas, esse foi um deles. Esse professor viveu muitos momentos assim, momentos em que a emoção impele a procurar um espaço de intimidade, para que as lágrimas fluam cálidas e livres, e sejam a humana expressão do divino.



Nos primeiros alvores da Primavera, as janelas da sala de aula abriam-se ao alarido dos pássaros e aos sussurros da brisa, que agitava o verde da folhagem e que levava os ramos a afagar os vidros.

“Graças a la vida, merci l’existence, pour ces yeux que j’ouvre, quand le jour commence.”



.

Nos ramos das árvores, como na sala, a azáfama dos pássaros e das crianças era acompanhada de cânticos de graças. Cânticos matinais, para agradecer à vida todas as cores que um dia tem. Cânticos de entardecer, de gratidão pelo amor partilhado, que não se explica, mas se vive.




Esta história ainda não chegou ao fim. Voltemos ao Sandro, que deixámos a dormir na sala de aula… O moço abandonou os estudos no fim da primária. Levou consigo para uma vida de trabalho duro o que o professor conseguira ensinar-lhe nos intervalos das sonecas. E levou o gosto pela música dita erudita. Ainda que, lá no bairro, os companheiros de miséria se rissem das estranhas melodias que ele assobiava.



O professor desta história já se havia aposentado. Certo dia, no fim de um dos seus passeios matinais (os velhos acordam com os pássaros), os seus olhos fixaram-se nuns olhos que lhe sorriam.




O professor não me está a reconhecer, pois não?





Não, não estava. Naquele homem de barba hirsuta somente reconhecia o olhar. Era-lhe bem familiar. Mas de onde?…




Sou eu,
 

o Sandro, professor. Não se lembra de mim?





O professor poderia lá esquecer-se do aluno que adormecia de fome.




Então, que é feito de ti?






Trabalho e estudo, professor. Estou a acabar Engenharia.







” Gracias a la vida, p




our le chant des peuples qui brisent leurs chaînes.








.


O Sandro havia contrariado o fatalismo da miséria. E por ali ficaram, conversando sobre dificuldades e alegrias, até que abalaram, cada qual para sua casa.




O Sandro despediu-se, com a promessa de reencontro para breve:






Não me esquecerei de lhe trazer um Rigoletto que tenho lá em casa. É com a Callas e Gobbi. O professor vai gostar de ouvir.



Leia aqui os outros textos já publicados na série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:




Perfilados de medo




Entre dois fogos




Mais uma história da Ana




La porte-plume redevient oiseau




Redundâncias




Educar da cidadania




O pai do Watson




O Senhor Carlos




A divisão das orações




Bem pelo contrário!…




A caixinha dos segredos




O padre, o poeta e a professora de francês




Para os filhos dos filhos dos nossos filhos




Tempus fugit




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