Gestão coletiva

Diferenciar as funções é fundamental para manter em equilíbrio o relacionamento entre coordenador pedagógico e direção da escola

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Durante muito tempo, acreditou-se que uma escola é o espelho de seu diretor, já que cabia a ele liderar, organizar, monitorar e assegurar a qualidade do ensino, concentrando as funções administrativas e pedagógicas. No entanto, as mudanças na sociedade tornaram a instituição escolar mais complexa, na medida em que esta assumiu responsabilidades que ultrapassam aquela que sempre lhe coube: a transmissão de conhecimentos.

Essas mudanças renovaram a gestão escolar, que deixou de ser centralizada em apenas uma figura e passou a ser coletiva. “Hoje o diretor não é mais visto como o responsável único pelo desempenho da escola. A gestão está a cargo de um coletivo que inclui o diretor, assistente de direção e coordenador pedagógico”, assinala a professora e pesquisadora Laurinda Ramalho de Almeida, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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A gestão coletiva envolve desafios que perpassam, entre outros, o relacionamento entre coordenador pedagógico e o diretor – embora, de maneira geral, as atribuições de cada um estejam claramente definidas nas normativas dos sistemas de ensino, como apontou a pesquisa O coordenador pedagógico e a formação de professores: intenções, tensões e contradições, realizada pela Fundação Carlos Chagas em 2011.

Segundo Laurinda, as atribuições do diretor possuem caráter administrativo, de planejamento e de gestão dos recursos didáticos, financeiros e da infraestrutura. Já o coordenador pedagógico é responsável, essencialmente, pelo ensino e a aprendizagem. Ou seja, em tese, há complementaridade e equilíbrio entre as funções de um e de outro.

Apesar disso, o cotidiano de uma escola é dinâmico e uma série de fatores pode levar à quebra desse equilíbrio, enfatiza Laurinda. “As tensões estão cada vez mais presentes nas questões referentes à gestão escolar, porque há uma sobrecarga de trabalho burocrático e uma precariedade de condições materiais e humanas em muitas escolas”, reitera a pesquisadora da PUC-SP.

Ou seja, tanto o coordenador pedagógico quanto o diretor têm de atender demandas diversas que chegam dos órgãos centrais e regionais das secretarias de Educação ou, no caso das escolas privadas, demandas administrativas internas. Somam-se a elas os aspectos individuais. “Diretor e coordenador pedagógico são pessoas, cada um com expectativas, desejos, frustrações. As relações interpessoais são sempre delicadas”, reforça Laurinda.

Hierarquização

Embora a gestão escolar assuma, cada vez mais, um caráter coletivo, pode persistir uma percepção de que as relações entre direção e coordenação pedagógica são, na realidade, hierárquicas. É o que aponta uma pesquisa realizada em 12 escolas da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro pela pesquisadora Jane Cordeiro de Oliveira, da PUC-Rio.

Na pesquisa, realizada para sua dissertação de mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da universidade em 2012, Jane aponta para a existência de uma contradição no discurso dos coordenadores pedagógicos entrevistados: ao mesmo tempo que eles declaram que existe uma relação de “parceria” com os diretores, também fazem afirmações que revelam uma clareza de que o diretor é a figura mais elevada na hierarquia da escola.

Nesse sentido, a “parceria” se sustenta não apenas em torno de objetivos e metas comuns, mas na afetividade e nas relações de amizade tecidas na convivência cotidiana.

A afetividade, afirma a pesquisadora, funciona, em muitas situações, como uma estratégia adotada pelo coordenador pedagógico para se fortalecer no contexto da gestão escolar. Isso se deve, na visão de Jane, ao fato de que o coordenador pedagógico trabalha, essencialmente, com o perfil de liderança relacional – tanto com o diretor, quanto com os professores.

Para a professora e pesquisadora Laurinda Ramalho de Almeida, manter um bom relacionamento interpessoal é fundamental para um trabalho em equipe satisfatório. “Isso não significa que os elementos da equipe gestora tenham posições iguais para algumas tomadas de decisões. Afinal, são pessoas com diferentes percursos biográficos e relacionais”, relativa ela.

Apesar disso, é fundamental não perder o foco: a função da escola é ensinar, e ensinar bem, tendo como objetivo a formação integral dos seus alunos, reitera Laurinda. Por isso, é importante que diretor e coordenador pedagógico tenham posições coincidentes sobre a importância de ensinar e aprender e do papel da escola no sentido de oferecer fundamentos e condições para que todos os alunos aprendam.

O diálogo e o respeito mútuo, defende Laurinda, mostram-se co­mo o melhor caminho. “Quando as relações interpessoais no trato das questões da escola são equilibradas, quando há valorização do trabalho um do outro, não há por que um se submeter às posições do outro”, afirma. “Ambos são profissionais e devem agir como tal, dialogando, refletindo sobre vantagens e desvantagens de determinada proposta”, conclui.

 “Trabalhamos em equipe”
© Gustavo Morita

Carla Dias, coordenadora Fundamental I

Maurício Teodoro, coordenador Fundamental II e Ensino Médio
Colégio Lyon Campinas, Campinas (SP)

“Na escola procuramos manter o equilíbrio entre a coordenação pedagógica e a direção. Nosso eixo para sustentar esse equilíbrio é o projeto pedagógico, buscando valorizar e reconhecer o aluno em sua individualidade. Sempre procuramos estabelecer as mesmas metas e, quando as visões sobre o processo pedagógico são diferentes, refletimos, pesquisamos e flexibilizamos nossas posições”, diz Carla. “Os conflitos ocorrem quando há divergência de interesses. Por isso trabalhamos em equipe e valorizamos os profissionais. Nesse contexto, o coordenador pedagógico, enquanto um colaborador na equipe, deve participar efetivamente dos processos que levam à evolução da comunidade escolar. Assim ele firma sua posição na unidade de ensino”, diz Maurício.

 

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