Gerador de mudanças

Aposta do MEC é que o novo exame estimule uma virada curricular no ensino médio, instaurando a interdisciplinaridade; colégios veem processo de longo prazo

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Estudantes fazem prova do Enem na Uerj. (Foto: Pablo Jacob/ Agência O Globo)

Onze anos depois de instituído, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passa a ter centralidade estratégica no projeto educacional do Ministério da Educação, que vê a etapa derradeira da Educação Básica como o grande calcanhar de Aquiles do ensino. Além de buscar transformá-lo em processo de seleção para todas as universidades federais do país – ainda que estas utilizem outras formas combinadas de avaliação dos ingressantes – o MEC abre a possibilidade de estender o Enem a outras instituições de ensino superior, incluindo as particulares. Porém, o objetivo de mudança na seleção não é o único: a ideia é que o novo Enem seja referência para novos desenhos do currículo do ensino médio.

Segundo os formuladores, na nova prova as questões requisitarão do aluno mais capacidade de análise contextual e interpretação, em detrimento do que julgam ser o excesso de pontos relativos à memorização. Dessa forma, haveria uma exigência maior em relação ao conteúdo ensinado na escola. "Muitas alterações ainda ocorrerão, mas a impressão é que o Enem já tem servido como um incentivo para provocar mudanças na Educação Básica", afirma o diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Héliton Tavares.

Uma delas, diz Tavares, será a transformação do modo como se trabalham as disciplinas. Se até há pouco tempo eram pensadas e ensinadas isoladamente, a interdisciplinaridade surge como uma maneira de estimular o estudante a relacionar temas de matérias diferentes. "O conhecimento não é tão separado como está hoje nas escolas. Com essa nova perspectiva, o aluno vai ser instigado a procurar sozinho pelas respostas de problemas", complementa o professor de geografia e diretor administrativo da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina, Carlos José de Carvalho.

Tavares prevê que as publicações direcionadas ao ensino médio sofram modificações, pois terão de se adaptar a esse novo conceito. Isso já pode ser sentido nos chamados sistemas de ensino privados, as editoras que produzem material apostilado para escolas privadas e redes públicas. Desde o início do ano os parceiros do Dom Bosco, por exemplo, utilizam um material em forma de fascículos que procura proporcionar um grau de autonomia para a escola montar sua programação. Em cada parte, a partir de um problema proposto em uma disciplina, o aluno precisa contextualizar e buscar informações em outras para resolver. A imagem de uma foto, por exemplo, serve para discorrer sobre questões de geografia, história e química. Ari Herculano, diretor editorial do sistema, acredita que ocorram mais mudanças nos materiais didáticos nos próximos anos, porém gradualmente.

O Ético, sistema de ensino da editora Saraiva, lançou no ano passado uma série chamada
Conexões

, que trabalha a interdisciplinaridade em sala. A diretora pedagógica, Francisca Paris, explica que os livros apresentam atividades operatórias que desafiam mais o aluno segundo as habilidades solicitadas nos eixos cognitivos do Enem.

Em uma questão de geografia, há um texto que trabalha o espaço agrário mundial. Ela pede ao aluno que produza um texto sobre a ética na produção de alimentos, conforme a competência exigida pela prova, de saber elaborar propostas. Em outro exemplo, a colmeia serve como tema para estudar tanto ângulos e polígonos em matemática quanto a reprodução das abelhas em biologia.
  

Formação continuada


 Se o caminho é incensado por muitos educadores, sua aplicação no dia a dia talvez não seja tão destituída de problemas. O principal, lembra Francisca, é o descompasso entre a proposta interdisciplinar e as práticas docentes. Ou seja, sem uma mudança metodológica equivalente ao câmbio no plano curricular, a proposta corre o risco de esvaziar-se, pois os professores, especialmente os do ensino médio, costumam fixar-se nos conteúdos da licenciatura para a qual se habilitaram. Para a diretora pedagógica do Ético, uma forma de os gestores mudarem esse atavismo é continuar investindo na formação continuada. "As adaptações não ocorrem por decreto. Virão, mas não na velocidade que o MEC imagina", opina.

A coordenadora do curso e Colégio Objetivo, Vera Lúcia Antunes, acredita que a nova prova, além de cobrar mais conteúdo, incentivará a consciência dos estudantes em relação a assuntos como sustentabilidade e cidadania. Mas também não enxerga mudanças curriculares rápidas. "Hoje, poucos professores estão preparados para novidades. Eles precisam ser capacitados", avalia.

Rubens Furstenberger, coordenador de vestibular da escola particular Sepam, de Ponta Grossa (PR), reforça o coro sobre a falta de preparo dos professores e comenta que até mesmo a maioria dos cursos de pós-graduação voltados à docência não trabalham a interdisciplinaridade. Para ele, é cedo para prever qualquer mudança no currículo do ensino médio em decorrência do novo exame. "Não é possível saber com certeza quais serão as conseqüências disso nos próximos anos."


Em sala de aula

O Sepam realizará simulados apenas para o vestibular tradicional. Como preparação para o exame, o colégio programou somente aulas de revisão aos sábados. Já o Objetivo fez seu primeiro simulado para o Enem em maio e outros dois já estão planejados. Eles são divididos de acordo com as áreas de conhecimento e têm o mesmo número de questões do exame. Há ainda uma recuperação específica para alunos que não tiverem bom desempenho. A avaliação, porém, não é feita pela Teoria da Resposta ao Item (TRI), e sim pela Teoria Clássica.  "Por enquanto, é mais importante o aluno se acostumar ao novo processo", explica Vera.

A Escola da Vila, de São Paulo, resolveu fazer pequenas adaptações no currículo de algumas matérias, como incluir Ásia e África em história. Até a data da prova os alunos têm aulas extras à tarde e simulados preparados pela equipe da escola e por cursinhos. No também paulistano Colégio Bandeirantes, a maior preocupação continua sendo o vestibular tradicional. A instituição não vai fazer "nada de especial" para lidar com a novidade, além das aulas preparatórias e dois simulados elaborados pela Fundação Carlos Chagas, que serão divididos de acordo com as áreas de conhecimento.

Osmar Ferraz, coordenador de orientação ao vestibular do colégio, crê que a proposta traz avanços sobretudo na tentativa de fazer o aluno desenvolver suas habilidades interpretativas. Mas critica a falta de informações e a atitude do MEC de realizar as mudanças com o ano letivo em andamento, o que, na sua avaliação, atrapalhou a preparação das escolas.

Tavares diz que as discussões já aconteciam desde o ano passado e que, como havia muitas críticas ao vestibular tradicional e o anúncio de que o Enem passaria por modificações, a mudança imediata tornou-se imprescindível. Ainda assim, pede que os gestores de escolas, universidades e secretarias de educação apresentem propostas para aperfeiçoar o exame ao longo dos anos. "O que buscamos é um pacto participativo entre a Educação Básica e a superior", completa.



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